Fim dos tempos

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Postado dia 10 de dezembro de 2012 em Conversas paralelas

Na parada, esperando ônibus, escuto uma voz vindo por trás de mim:

Ei, você é advogada?

Virei-me e pedi para que o homem de bigode e muletas repetisse a pergunta.

Você é advogada, moça?

Eu disse que não.

Conhece algum advogado, então? Um advogado criminal…?

Fiquei surpresa com o questionamento, mas disse que não novamente.

Meu Deus do céu, eu preciso demais de um advogado. Aconteceu um negócio tão triste, mas tão triste comigo que eu não aguento nem lembrar. Eu preciso de um advogado pra me ajudar –, revelou o homem, aos prantos, enquanto olhava para as outros desconhecidos na parada.

Fiquei intrigada com o relato, mas não soube muito bem como reagir. De repente, uma mulher que estava sentada no banco da parada atropelou nosso “diálogo” e falou:

Moço, no segundo andar daquele prédio ali tem uma sala onde eles te indicam um advogado.

O homem de poucos fios de cabelo na cabeça tratou-a com indiferença.

Decidi perguntar a ele o que, afinal, havia lhe acontecido de tão grave e por que ele queria tanto um advogado, mas meu ônibus chegou. Quando estava prestes a entrar, notei que ele havia entrado na fila também. Passei pela roleta e ele veio logo atrás, mais calmo, já dizendo que queria “bater um papo com o cobrador” que, por sua vez, lhe deu o troco e também toda a atenção do mundo.

Sentei-me perto deles, logo ali na frente, para ver o desenrolar daquela conversa. Parecia que o homem havia se esquecido um pouco da urgência por um advogado criminal e o que ouvi e anotei foram algumas declarações indignadas de sua parte.  Ele dizia, sem respiros:

Tem jeito não, rapaz. O mundo vai acabar mesmo. E está pertinho, pertinho. A explosão vai repercutir no espaço sideral, tenho certeza disso.

O cobrador do ônibus balançava a cabeça em sinal positivo.

Dinheiro é o grande mal da humanidade, rapaz. Tudo que estraga é por causa do dinheiro. Você não viu a moça loira que matou os pais? E o casal que matou a criança? No fundo, tudo por causa de quê, de quê, de quê? Dinheiro! Esse pessoal é ruim que nem o cara que me sacaneou.

Prosseguiu:

E a tecnologia então? Vixi. Veio só pra estragar. Fica todo mundo encantadinho com tudo, mas mal sabem eles que isso estraga o ser humano. Tá tudo virando robô… que nem o cara que me sacaneou! Mas mal sabem eles que vai chegar a hora em que o homem vai apertar sem querer querendo o botão do fim dos tempos e… PUF-cabou!

Morrerei sem saber o que fizeram de ruim para aquele homem, mas vi que ele tinha certa razão no que dizia. Desci do ônibus algumas paradas depois com muita vontade de conseguir um advogado para ele e, quem sabe, tentar impedir o iminente fim dos tempos.

Diálogos aleatórios

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Postado dia 14 de novembro de 2012 em Conversas paralelas

1. Dentro do ônibus que contornava o Memorial dos Povos Indígenas, a garotinha perguntou para a mãe:

Mamãe, o que são essas placas coloridas nos pés das árvores lá fora?

Não sei, filha.

Já sei, mãe. Acho que colocaram por causa dos acidentes que estão acontecendo com os esquilos.

2. Antes de atravessar a faixa de pedestre para a plataforma da Rodoviária do Plano Piloto, uma mulher cheia de sacolas na mão me abordou:

 – Moça, moça!

Oi, tudo bom?

Olha só, não atravesse a faixa agora.

Por quê?

Porque tem um homem com o ‘piu piu’ de fora do outro lado.

3. Ao descer do ônibus próximo ao Conjunto Nacional, um repentista que tostava no sol me encheu de vergonha:

Ô, mulher. Você é tão bonita. Casa comigo?

– (Risos).

Quer dizer, nem venha com graça, mulher. Quero casamento não. Quero continuar vivo.