As várias janelas do ônibus

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Postado dia 01 de fevereiro de 2016 em Eu na história
Crédito: Sarita González

Crédito: Sarita González

Andar de ônibus é uma viagem solitária e coletiva. Se sozinho (a), há a janela para repousar a cabeça, que deixa entrar pensamentos, ideias e lembranças. Tenho uma relação íntima com a janela do ônibus, de modo que tomei muitas das maiores decisões da vida com a cabeça encostada nela: pedir perdão para uma amiga; trocar de curso; sair do emprego; terminar um longo namoro; mudar de ideia e dizer ‘volta para mim, só posso amar você’. Eu e a janela do ônibus: a gente. Ela me mostra o mundo lá fora, e também a mim mesma.

Mesmo quando estou em pé no ônibus, com as mãos firmes nas barras superiores ou nos encostos dos bancos, acabo me encontrando com a janela. Ela não foge de mim, nem eu dela. Lá estou eu, outra vez, sozinha, me olhando. Tento reparar nos prédios, nas árvores, nas paradas de ônibus lá fora que passam rapidamente pelos meus olhos. Mas, no meio da contemplação, o reflexo me mostra para mim mesma e me dou conta de que estou lá. Meu corpo, meus cabelos. Minhas fraquezas e finitude. E então volto meu olhar para os passageiros. Sempre achei que me enxergo melhor observando os outros. Afinal, olhar ao redor é o que revela os sentimentos mais bonitos que guardo dentro de mim.

Quando se anda de ônibus de forma verdadeiramente coletiva, o fascínio é ter passe livre para observar não mais a si mesmo (a), mas todo o tipo de gente. Histórias que se revelam sem qualquer esforço. E a solidariedade que há entre os passageiros! Sentir-se parte de algo, aquilo que se busca o tempo todo na vida. No ônibus, há uma coisa linda de se ver: a cumplicidade entre as pessoas. Parece haver um sentimento coletivo de gente que anda de ônibus. Uma solidariedade entre pessoas que pagam o mesmo valor da passagem, mas que viajam em dois times: o dos que vão sentados e o dos que ficam em pé, a depender da sorte do dia. E então, quando o passageiro que não conseguiu se sentar se aproxima de outro que tem um lugar, presencia-se um momento em que o mais sortudo pergunta para o outro: “Quer que eu leve suas coisas?”. Pode parecer besteira, mas não é. As pessoas geralmente estão cansadas do dia cheio de trabalho e estudo. Ter alguém que ajude a carregar seus pertences certamente melhora a rotina. E então a pessoa responde “sim, muito obrigada”, acompanhado de um sorriso sutil.

Mas o que mais me encanta nesta troca é a intimidade do momento. Outro dia eu estava sentada no ônibus e me ofereci para segurar a bolsa de uma mulher que estava em pé. Assim que peguei a bolsa, já não parecíamos ser totalmente estranhas uma para a outra. Fiquei pensando sobre a origem daquele objeto. Pode ter sido um presente muito especial do (a) namorado (a). Ou ela pode ter juntado dinheiro para comprá-la depois de muito esforço. E comecei a imaginar o que havia dentro dela. Os documentos que contam a história daquela mulher. O dinheiro suado para pagar o aluguel e comprar comida para as crianças. Um amuleto, talvez. A foto 3×4 de alguém especial naquele bolso pequeno da carteira. Um papel dobrado com um segredo. O telefone que ela usa para conversar com as pessoas que ama. Quando chegou a hora de ela descer do ônibus e me disse “obrigada”, reparei que, inevitavelmente sua mão encostou em mim. E então eu senti o calor de uma pele que não a minha. Outra textura. Outro aspecto. E pensei que aquela pele faz parte de uma pessoa cheia de histórias, de experiências, de sofrimentos, de virtudes, de paixões. E quando lhe devolvi a bolsa entreguei também um sorriso dizendo “de nada”, e pensando no quão sortuda eu sou ao andar de ônibus e conhecer pessoas diferentes todos os dias. Sortuda por senti-las e por ter janelas de vidro e janelas de almas. E sortuda por fazer parte dessa experiência de viajar, ao mesmo tempo, sozinha e coletivamente.

Coisa de mãe

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Postado dia 11 de setembro de 2015 em Conversas paralelas, Eu na história
Foto: Sarita González

Foto: Sarita González

Era para ser uma espera tranquila pelo ônibus. Mas esperar ônibus nunca é tranquilo, na verdade. Naquele fim de tarde eu estava na parada, aguardando o coletivo para ir à biblioteca da Universidade de Brasília. Seria o primeiro dos dois ônibus que pego para chegar até lá. Ele estava atrasado, mas não estranhei. Restou-me sentar no banco da parada e sentir aquela brisa gostosa da noite que vinha.

Clima sereno, solidão da espera. Carros que iam e vinham. Alguém chegou para me fazer companhia: do outro lado da pista, veio correndo, toda estabanada, uma cadelinha preta cheia de tetinhas. Ela era toda serelepe, com personalidade, e atravessou a pista sem medo. Não resisto a cachorros e, quando os vejo, sempre tento me aproximar. Assobiei para ela a fim de conhecê-la melhor. Mas ela estava inquieta, parecia procurar algo. Mesmo assim, fui tomada por um sentimento de alegria por ter um serzinho tão agradável perto de mim.

O sentimento bom logo se transformou em desespero. A cachorrinha começou a atravessar a pista sucessivas vezes. Ia pra lá, voltava. Ia pra lá de novo, e lá estava ela pertinho de mim outra vez. Minha preocupação era que ela pudesse ser atropelada a qualquer momento. Por ser fim de tarde, muitos carros se movimentavam na rua. Levantei-me, como se pudesse fazer algo. Quando ela estava do outro lado, assobiei para ela e disse “vem pra cá, neném”, como se ela pudesse acalmar meu coração. A cachorrinha insistente em perambular e muito atrevida estava decidida a procurar o que tinha em mente, e os carros se revezavam com suas buzinas quando ela quase ia parar debaixo deles.

Minha barriga começou a doer de ansiedade para que ela sossegasse na parada. Ela não veio. “O que eu posso fazer?”, pensei. Não dava simplesmente para pegar a cachorrinha no colo a fim de protegê-la ou até levá-la para a minha casa. Além de não saber se ela pertencia a alguém, eu sei que não posso controlar todas as questões do mundo, apesar de sempre querer isso. Eu estava tão nervosa com a possibilidade de ela ser atropelada, que decidi não mais acompanhá-la ziguezagueando na pista. Mas, obviamente, não consegui distanciar meus olhos dela. Quando outros passageiros chegaram à parada – dois homens e uma mulher – vi que eles se conheciam e conversavam. De repente, a cachorrinha veio até a parada e se aproximou de um dos homens, aceitando receber carinho. Ele disse: “Ô, mais tá muito bonita essa cachorrinha, gente!”. E a mulher comentou: “Está mesmo, tadinha, mas parece estar muito perdidinha, ainda”. “Pois é, por que é que ela fica de um lado para o outro na pista? Ela é sempre tão tranquilinha”, o homem indagou. Ao que ela respondeu: “Ué, você não soube? Ela teve filhotinhos outro dia e tiraram dela para vender. Desde então, ela ficou meio desnorteada porque acha que pode encontrar os filhotinhos em qualquer lugar. Mas eles já devem estar longe”.

Lágrimas no meu coração. Compreendi o porquê de a cachorrinha ficar de um lado para o outro na pista, correndo risco entre os carros. Ela buscava seus bebezinhos, que, pelo que eu entendi, haviam sido tirados dela.

Meu ônibus, já muito atrasado, começou a descer do terminal em direção à parada. Eu continuava sem poder fazer nada a respeito da cachorrinha. Só conseguia pensar na dor de qualquer mamãe em ter de ficar longe de seus filhinhos (e vice-versa), e mentalizei bons sentimentos para ela. Quando me sentei em uma das poltronas do ônibus, mais ao fundo, vi que já havia caído a noite e ela continuava preocupada com seus filhotes. Coisa de mãe.