De ônibus ou de carro, eis a questão

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Postado dia 31 de março de 2014 em Eu na história

Alguns amigos meus fazem planos de comprar um carro. “Tô juntando dinheiro pra isso, não aguento mais ter que depender de ônibus”. Outros, já realizaram esse sonho. “Cara, comprei meu carro, estou muito feliz, espero não pisar mais em um ônibus pelo resto da vida”. Eu sempre respondo, brincando: “Ah, é? Resolveu trair o movimento?”. Vamos combinar que a necessidade das pessoas por um carro também envolve, é claro, ostentação. Mas, além disso, diante de um péssimo sistema de transporte público no Brasil e tantos modelos de carros com novas tecnologias e designs arrojados, deixar de andar de ônibus e comprar um carro é visto até como sinônimo de evolução pessoal. “Pois é, tô melhorando de vida. Meu salário aumentou e a primeira coisa que eu fiz foi comprar um carro”, dizem por aí. Em Brasília, de onde posso falar, dizer “não tenho carro” ou “não uso carro” faz qualquer interlocutor motorizado saltar os olhos e praticamente te excluir da sociedade.

Continuo, até hoje, sem ter tido ou ter vontade de comprar um carro. Adoro pegar ônibus desde a primeira vez em que pisei em um. Foi quase amor à primeira vista. Eu era nova, talvez tenha me conquistado a sensação de liberdade que senti naquele momento. E depois vieram as histórias, o dia a dia sempre surpreendente, a ideia do blog, o blog… Tirei a carteira de motorista logo depois de atingir a maioridade e sem entender muito o porquê daquilo. Talvez, na época, eu tenha imaginado que andar de ônibus tinha mais vantagens ou até mais emoção, instabilidade. Hoje, permaneço defensora dos ônibus, apesar de todas as coisas ruins que já me aconteceram sendo passageira (talvez as boas tenham compensado). É quase um amor bandido, daquelas paixões avassaladoras que nunca deixam o coração plenamente calmo e tranquilo. Uma obsessão para que as coisas, um dia, melhorem.

Entendo perfeitamente os motivos que levaram meus amigos a se cansarem de andar de ônibus. No Brasil, não dá para não reparar que o transporte público é jogado às traças, enquanto as propagandas de carros zero tomam grande espaço na programação da TV, quase que como numa sessão de hipnose. “Largue o canalha do ônibus que te deixa esperando por horas como um (a) idiota na parada. Compre-me, te darei conforto, amor eterno e seremos felizes para sempre”, parece que a publicidade diz. Há até quem dê nome ao próprio carro. Será que isso revela alguma coisa?

Em países da Europa, por exemplo, não existe essa pressão para que um jovem de 18 anos tire a carteira de motorista e se vire para comprar um carro. Lembro de ter observado atentamente a rotina de um dos meus primos espanhóis, Miguel, quando estivemos em seu país, no ano passado. Ele tem um carro na garagem, mas quase nunca o utiliza, a não ser em ocasiões muito especificas. Realmente, não há necessidade. Lá, o transporte público funciona, e funciona bem demais. Isso porque o país está, há anos, em crise econômica. Nessas horas, é difícil ter qualquer esperança de que as coisas vão melhorar por aqui. Lá, todo mundo anda de ônibus. Já aqui, quem usa transporte público é mal visto e até comparado à qualidade do sistema ao qual ele pertence.

Isso me fez lembrar do fato de a atriz Lucélia Santos ter tido destaque no noticiário, semanas atrás, depois de ser fotografada por uma passageira de ônibus no Rio de Janeiro. A jovem que tirou a foto, provavelmente, se assustou ao ver uma famosa em pé, no ônibus. Muitos pensaram que, por causa daquilo, a atriz estaria enfrentando um retrocesso em sua vida por não estar em um carrão chique. Essa noção de atraso pessoal, vinculado a pegar ônibus, e de evolução, a ter um carro, é tão forte no Brasil que, é claro, aquilo virou um fato, uma notícia. Que país é esse? O resto da história, todo mundo já sabe.

Alguns amigos meus já disseram que, se o transporte público fosse decente, eles deixariam de investir dinheiro em um carro e só andariam de ônibus e metrô. Será que todo mundo pensa assim? Andar de ônibus e de carro (sendo o motorista, claro) tem seus pontos positivos e negativos. Pensando nisso, listei, de acordo com a minha vivência, as vantagens e desvantagens de cada um. Lembrando que a quantidade pode não significar nada. Quem quiser colaborar com a lista, o espaço é de todos. A ideia é criar uma reflexão sobre isso e, quem sabe, estimular soluções para o transporte público.

Carro x Ônibus:

Vantagens de andar de carro:

1. Poder ir para qualquer lugar (desde que o carro esteja abastecido) sem se preocupar com o horário;
2. Controlar o ar-condicionado (ou a abertura da janela, mesmo), dependendo das condições climáticas;
3. Ter certeza de que seu trajeto será feito sentadinho (a) (afinal, você está dirigindo) e confortavelmente;
4. Poder ouvir as músicas que você quiser, no volume que você quiser, e até fazer uma leve dancinha sem se preocupar se alguém está te olhando, a não ser os carros ao redor (mas, quem liga? Eles fazem ou já fizeram o mesmo);
5. Praticar a solidariedade dando preferência para outro carro;
 
Desvantagens de andar de carro:
 
1. Correr o risco de bater o carro ou baterem em você e ter dor de cabeça com a decisão de quem vai pagar o quê, quando e quanto;
2. Não poder beber antes de dirigir;
3. Gastar dinheiro: investimento no carro, gasolina, seguro do veículo e IPVA;
4. Não poder tirar um cochilo enquanto dirige (é óbvio), nem falar ao celular (por favor, gente);
5. Enfrentar congestionamentos sem poder cochilar enquanto as coisas não evoluem e sofrer porque não adianta fazer muita coisa;
6. Lidar com a dificuldade de achar vagas nos estacionamentos;
7. Preocupar-se em levar o carro para a oficina mecânica em caso de batidas, problemas no funcionamento e revisão do veículo;
8. Correr o risco de ter o carro roubado ou arrombado ou, ainda, de ser vítima de sequestro-relâmpago;
 

Vantagens de andar de ônibus:

1. Poder fazer várias coisas em movimento: ler um livro, acompanhar notícias ou se comunicar com amigos pelo celular;
2. Conseguir tirar um cochilo sem muito perigo, a não ser de perder a parada;
3. Poder falar ao celular, a não ser que você seja uma pessoa muito reservada, e, contanto que não se incomode demais com o barulho do motor do ônibus;
4. Não se preocupar em ter que dirigir e com os outros motoristas ao redor;
5. Não ter que gastar tanto dinheiro comprando carro;
6. Poder dialogar com pessoas desconhecidas ou simplesmente deixar a mente refletir diante do que está dentro e fora do ônibus;
7. Praticar solidariedade pedindo para segurar os pertences de outro passageiro ou cedendo lugar para ele (a);
 

Desvantagens de andar de ônibus:

1. Correr o risco de o ônibus quebrar em qualquer lugar, sob qualquer circunstância;
2. Esperar o ônibus por minutos ou até horas, sem qualquer previsão de chegada;
3. Ser transportado (a) em pé (mesmo pagando por isso) e, de quebra, ser espremido (a) e ficar com muita dor nas pernas;
4. Correr o risco de estar em pé, no ônibus, durante um engarrafamento que dura horas;
5. Sentir que chegar ao destino desejado não depende somente de você e ficar aflito (a) por isso;
6. Por não ter ar-condicionado na maioria dos ônibus, às vezes, morrer de calor;
7. Em dias de chuva, ter de entrar em conflito com outros passageiros sobre a falta de consenso com relação a fechar totalmente a janela ou deixar, pelo menos, uma brechinha (aquela velha briga entre quem está em pé e quem está sentado);
8. Ficar restrito (a) a ouvir música pelo fone de ouvido e aceitar que (ok, nem todo mundo tem essa noção) não é legal colocar a música no auto-falante para que todos os outros passageiros tenham que escutar;
9. Correr o risco de ser assaltado(a) dentro do ônibus ou na parada ou no trajeto a pé rumo ao coletivo, ou até de ser vítima de abuso sexual;
 

A Angélica vai de táxi, mas, e você? Prefere andar de ônibus ou de carro?

Nem foi tempo perdido

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Postado dia 17 de dezembro de 2013 em Eu na história

Era para ser um dia normal, mas foi uma terça-feira doce de dezembro. Eu estava sentada em um dos pares de poltronas altas do ônibus quando, ao mesmo tempo, entraram um garoto de mochila e uma mulher de uns quarenta e poucos anos, aparentemente com dificuldade de se locomover. Próximos da roleta, ele a deixou, gentilmente, passar primeiro. Passou. Eu estava lá no meu lugar sentada, de um jeito meio jogada, como de costume, observando a cena. Era um dia frio, daqueles que te dão certeza de que na noite anterior choveu.

Depois que a mulher passou pela roleta, ela veio em minha direção como se eu a esperasse para escrever essa história. Eu estava na poltrona perto do corredor, então, virei-me de lado para que ela entrasse naquela dupla de bancos e se sentasse próximo da janela. Depois que ela se sentou ao meu lado, vi que o garoto que havia entrado ao mesmo tempo que ela no ônibus ainda estava posicionado na roleta tentando insistentemente passar o cartão na catraca. Alguma coisa dava errado e não o deixava passar. Vi no rosto dele uma expressão de constrangimento e de dúvida a respeito do que poderia fazer.

Quando viu aquilo, com dificuldade, a mulher ao meu lado se levantou do banco colado no meu, com o ônibus em movimento, e mostrou que queria ajudar o garoto. “Peraí, jovem. Vou levar dinheiro para você. Espere um pouco”, ela disse. O barulho do motor do ônibus era tão alto que quase ninguém deve ter ouvido aquilo, além de mim.

E então surgiu um rapaz do fundo do ônibus, que havia me chamado a atenção no início da viagem quando, ainda na rodoviária de Sobradinho, entrou no ônibus. Cabelo cacheado e um pouco grande, aparentemente com gel nas pontas; lápis nos olhos; e jaqueta de couro vermelha, a cara do Michael Jackson.

Ele não era Michael Jackson, mas, sim, mais um passageiro generoso. Ao mesmo tempo em que a mulher com dificuldade de andar e que estava ao meu lado se pronunciou querendo ajudar o garoto de mochila preso na roleta, esse outro surgiu do fundo do ônibus muito rapidamente e andou em direção ao início do corredor. Ele pagou a passagem do garoto de mochila, que finalmente poderia andar de ônibus como todos os outros passageiros. Durante todo esse tempo, a mulher ao meu lado permaneceu em pé, como se quisesse participar de tudo aquilo.

Veio vindo de volta pelo corredor o sósia do Michael Jackson para voltar para seu lugar no fundo do ônibus e, quando ele passou perto do meu banco e do da mulher, prontamente ela o puxou e disse: “Moço, eu já estava indo ajudar o garoto, mas você foi mais rápido do que eu! Olha, parabéns pela sua atitude, viu? De verdade. Vamos rachar a passagem dele, vou te dar a metade. Toma aqui seus R$ 1,50”, ela disse. Ao que ele respondeu: “Imagina, precisa não, sério mesmo”, respondeu ele, sorrindo. Ela insistiu e ele acabou aceitando, mas a história não termina aí.

Finalmente a mulher se sentou no banco ao lado do meu e, na parada seguinte, entrou pela porta de trás do coletivo um vendedor de balas. Aproveitando o curto tempo de viagem para a venda, ele já entrou falando todas as opções de doces que vendia. “Olha o Mentos, olha a jujuba, olha o amendoim, olha o Halls, olha a cocada…”. O vendedor se dirigiu para o início do corredor para começar as ofertas pelo cobrador. Uma jovem lá na frente foi a primeira a comprar. Entregou o dinheiro e ele agradeceu. Em seguida, outra jovem comprou um pacote de Mentos, e fiquei surpresa quando ela entregou a bala para o garoto que, minutos antes, havia ficado preso na roleta porque seu cartão não passara. Era como se ela tentasse minimizar o constrangimento dele, que ainda estava estampado em seu rosto. Ele aceitou e o abriu um largo sorriso.

Naquele momento, parecia que todo o ônibus se iluminava. As pessoas haviam sido contagiadas por um sentimento de solidariedade. Tudo aquilo também me contagiou. Quando o vendedor de balas passou do meu lado, tirei R$ 2 da bolsa e entreguei para ele pedindo dois pacotes de jujuba. Quando ele me deu as balas, nada pude fazer senão entregar um dos pacotes para aquela mulher que estava ao meu lado, e que havia demonstrado um sentimento tão generoso ao tentar ajudar o garoto na roleta minutos antes. “Toma, pra você, esse pacote de jujubas”, eu falei. “Ah, sério?! Vou aceitar como presente de Natal, então”, ela respondeu sorrindo. Eu sorri de volta.

Vi que ela tentava abrir o pacote de jujubas, mas não conseguia. “Moça, você pode abrir o saquinho pra mim? É que sofri um grave acidente há alguns meses e fiquei com as mãos um pouco comprometidas. As pernas também, mas elas estão se recuperando mais rapidamente”, ela revelou. Eu disse “claro que sim” e abri para ela. Até pensei em perguntar o que havia acontecido, como tinha sido o acidente, mas achei que o momento não era apropriado.

Ela puxou uma jujuba amarela e a levou até a boca. “Você quer uma?”, ela me perguntou brincando. Ela estava me oferecendo uma das jujubas do pacote que eu havia lhe dado. “Claro, obrigada”, eu disse, pegando uma jujuba vermelha, minha preferida, e esboçando um sorriso. E foi assim nos minutos seguintes. Ela comia uma jujuba e me oferecia outra. Ela dizia “Você quer?” e eu respondia “Claro que sim”. Jujubas são tão doces que você não come apenas uma e fecha o pacote. Você as mastiga todas em sequência, como se aquilo fosse uma lista de músicas preferidas. Ela comia uma e me oferecia outra. E trocávamos risos de quem acha que a vida é leve.

Quando o pacote de jujubas que eu havia dado para aquela mulher acabou, sosseguei o corpo novamente na cadeira e me deu vontade de colocar música nos ouvidos. “Tempo perdido”, do Legião Urbana, foi a que me seduziu, e apertei play no celular. Eu estava feliz com tudo aquilo, e ouvir aquela música era uma tentativa de fazer entrar ainda mais vida dentro de mim.

Com a música nos ouvidos, me pus a observar o vendedor de balas, que continuava seu trabalho pelo ônibus. Quase nenhum passageiro havia resistido ao que era vendido. Não sei se era vontade generalizada de doces ou se todos estavam mais sensíveis e generosos. Será que era o clima de Natal? Só sei que aquela mulher ao meu lado havia me dado uma lição naquela manhã doce de terça-feira. Sua dificuldade de se locomover lhe impediu de ajudar o garoto da roleta a tempo, mas ela não perdeu a chance de ajudar quem o havia conseguido ajudar, mesmo que com pouco dinheiro.

Na vida, por mais que não tenhamos tido tempo de fazer algo que gostaríamos, nunca é tarde. Se queremos muito, tiramos forças para concretizar aquilo que desejamos. E foi isso que aquela mulher fez naquele dia. “Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens”.