Humilhada na chuva, a caminho da parada

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Postado dia 06 de novembro de 2013 em Micro-micos
Sarita González

Sarita González

Sempre que chega a época de chuva eu me lembro desse episódio. Não sou muito fã de esportes e, por mais que já tenha me esforçado para isso, estou longe de me tornar uma atleta. Mas, para pegar ônibus, não tem jeito. Sou profissional na categoria 300 metros ladeira abaixo rumo à parada. Quando estou atrasada, a corrida se intensifica e me sinto numa verdadeira prova das Olimpíadas. Os ponteiros confusos dos motoristas de ônibus – sei que a culpa também é do trânsito – aliados à confusão que eu mesma faço de vez em quando na hora de sair de casa me colocam no grupo dos passageiros retardatários que existem por aí. Vira e mexe é possível ver da janela um ou outro atrasadinho dando a vida para que o motorista espere. De vez em quando, eu também sou assim e, enquanto desço minha rua desesperada para chegar a tempo, fixo os olhos no relógio fingindo que um minuto, na verdade, dura três.

Antes de avistar a longa pista que traz meu ônibus, imagino algumas situações: primeiro, torço para que ele ainda esteja descendo do terminal que antecede a parada de ônibus da minha quadra. Se isso não for possível, imploro pelo amor de qualquer coisa para que ele esteja pelo menos alguns metros antes do ponto em que eu posso atravessar a pista e suplicar ao motorista que tenha piedade de mim e pare o ônibus para eu subir.

Acontece que alguns motoristas param, outros não. Acho que todo mundo deveria ser pontual e pronto – motoristas, passageiros, salários, Deus, a comida do restaurante, o amor -, mas concordo que, nesse jogo de vida de ônibus, fica difícil achar mocinhos e vilões. É uma dinâmica tão complexa que resulta em um salve-se quem puder. Se é que me fiz entender, acho que não custa nada compreender um atraso de minutinhos do motorista, assim como não custa nada parar para um passageiro retardatário fora da parada, principalmente se porque ele ficou confuso com a própria confusão desses horários de ônibus que nunca se cumprem em Brasília.

Aproveito o post para agradecer e mandar beijos para todos os motoristas de ônibus que já pararam para mim fora da parada e que ainda sorriram quando eu entrei. Aos que não pararam, tudo bem, acho que vocês tiveram os motivos de vocês. No dia em que aconteceu o que será contado agora no blog, o motorista não só não parou, como me humilhou em praça pública. Agora a gente ri, é claro, mas no dia eu quis muito chorar de tanta raiva.

Naquele dia, enquanto bebia o leite na cozinha de casa, vi da janela que chovia forte e eu precisaria de um guarda-chuva. Não encontrei nenhum, mas minha mãe gritou lá de dentro que havia uma sombrinha em cima do sofá e que eu poderia usá-la. Olhei para o relógio e, se eu não saísse exatamente naquele minuto, eu veria de cima da minha rua a triste cena do ônibus passando lá embaixo todo se achando para quem o perdera. Peguei a sombrinha, dei tchau para minha mãe e segui em frente. Enquanto descia a rua, tentava administrar o uso da sombrinha com a caminhada e isso me atrasou ainda mais: eu tentava não me molhar, não molhar demais a bolsa, olhava para minha sapatilha mudando de cor por causa da água da chuva, desviava das poças perto das calçadas, protegia os olhos dos pingos insistentes vindos da chuva de vento. Apressei o passo para tentar concluir a descida e, quando cheguei no final da rua, vi à minha direita na longa pista que o ônibus já estava pegando os passageiros na parada, logo ali. Olhei para os dois lados e atravessei correndo. Entretanto, nesse momento, as coisas ficaram mais difíceis. O vento se enfureceu e, consequentemente, minha sombrinha cedeu. Como um gato eriçado ao tomar banho, as pontas dela se viraram para cima e eu comecei uma luta sem fim para tentar retomá-la ao estado original. Apontei a sombrinha para baixo, inclinei um pouco para um lado, tentei com a mão, mas nada dava jeito. Enquanto isso, o ônibus vinha em minha direção, ainda antes do quebra-mola daquele retão asfaltado e eu só queria consertar a tal da sombrinha para não me molhar tanto. Só queria que a sombrinha se comportasse para que eu não fosse a retardatária do dia. Resolvi apontá-la para frente como se tivesse sido atingida por uma lança na barriga e comecei a correr em direção ao ônibus para conseguir pegá-lo. Enquanto isso, naquela posição, a sombrinha poderia decidir se voltava a ser o que era.

Veio vindo o ônibus. O motorista passou maciamente pelo quebra-molas e continuou com a velocidade reduzida no trajeto. Enquanto isso, eu não parava de correr. Comemorei por dentro, mas não parei a corrida a fim de que o homem visse meu esforço para tentar entrar naquele ônibus. Mesmo toda molhada, despenteada e com uma sombrinha rebelde. Ele foi diminuindo ainda mais a velocidade e, naquele momento, eu disse ‘yes, que cara legal’ por dentro e já fui me posicionando para entrar no ônibus. Estranhei porque ele estava mais longe da calçada do que deveria e, quando a porta se abriu, eu ouvi daquele homem ruim de uma só vez: “Iiiiiiiiiiu! Bem feito, guria! Se lascou, tá toda doida aí com a sobrinha quebrada, hahaha, se deu mal”. E a porta da esperança se fechou rapidamente. O ônibus foi embora. Fiquei parada sem querer acreditar que aquilo era real. O motorista não me deixou entrar no ônibus (não, ele realmente não era obrigado porque eu estava fora da parada), mas parou o veículo só para rir da minha cara e deixar meu dia ainda mais cinza e chuvoso. “Que vergonha”, eu pensei. Todo mundo de dentro do ônibus tinha visto, as pessoas que passavam apressadas na rua também… Joguei a sombrinha com força na calçada de tanta raiva e a recolhi em seguida porque não adiantaria nada e segui em frente até a parada de ônibus, onde eu deveria ter chegado pelo menos dez minutos antes de tudo aquilo para ter uma viagem tranquila.

O ônibus seguinte chegou 40 minutos depois e, nesse intervalo, tive tempo de sobra para me secar e refletir sobre como evitar situações desagradáveis no meio do caminho se a gente dança conforme a música ou de que forma podemos reagir se o disco arranha. Concluí também que, infelizmente, há muitas pessoas que não fazem questão de ajudar as outras e que se deleitam com a desgraça alheia.

Depois desse dia, continuo me atrasando de vez em quando na hora de pegar ônibus, mas tento, ao máximo, evitar. Quando isso acontece, há portas que se abrem, outras que permanecem fechadas. No fundo, todos os dias, percebo que a vida realmente circula melhor quando todo mundo faz a sua parte.

Veja mais micos em:

O peru no colo do homem
A caminho da parada, maçãzada na cabeça
Era uma vez um milk-shake
Passando uma tarde no Itapoã (por engano)
Chuva de arroz na parada de ônibus

Chuva de arroz na parada de ônibus

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Postado dia 15 de abril de 2013 em Micro-micos

Tomar café-da-manhã não é o meu forte. Eu sei, está errado. Mas é que, quando acordo, meu organismo demora a entender a necessidade de se alimentar. Se acordo cedo, então, pior ainda. Parece que tudo lá dentro continua dormindo por horas, sem acompanhar meu ritmo. Quanto mais cedo me levanto, maior é o meu mau humor. Tenho dó de quem começa o dia ao meu lado. Se bem que meu quadro até apresentou uma melhora nos últimos tempos. Mas ainda invejo pessoas como a minha mãe que, independentemente da hora em que despertou e do quanto dormiu, acorda arreganhando janelas e cantarolando como as princesas de contos de fadas para o sol e os pássaros. E é ela, minha mãe, quem entra nesta história.

Há quatro anos, quando eu trabalhava na Esplanada dos Ministérios, tinha de acordar às 5h54 para sair de casa às 6h18. Vinte e dois minutos para tomar café da manhã, lavar corpo e alma e me arrumar? Que nada. Era cedo demais para meu estômago aceitar qualquer comida; eu preferia tomar banho no dia anterior para economizar tempo e, ainda por cima, na maioria das vezes, eu já dormia com a roupa de trabalhar para não perder tempo me aprontando. Meio porquinha, eu sei, mas herdei a tradição dos tempos de escola, quando o sono prolongado após um dia de muito estudo (sim, eu era nerd) significava uma das coisas mais deliciosas da vida.

Estágio me esperando e eu tinha 22 minutos para acordar, desligar o despertador, ficar incrédula na cama por ter de me levantar tão cedo, fazer necessidades e pegar o café da manhã que minha mãe sempre deixava prontinho para mim na geladeira. Depois disso, era só ir rumo ao ônibus, que passava às 6h26. Era o único coletivo que me levava direto de Sobradinho para a Esplanada e, se perdesse, que fosse chorar sozinha no terminal solitário da cidade alta. Por 10 meses, foi assim todos os dias.

Meu estágio começava às 8h, mas meu ônibus chegava lá por volta das 7h15. Eu poderia muito bem subir se o ministério não fosse tão pontual. O que fazer em 45 minutos? Bem que eu sonhava, ainda na janela do ônibus, em transferi-los para o meu sono matinal. Por 10 meses, a parada de ônibus em frente ao Ministério do Planejamento foi minha “cabaninha” antes do expediente. Descia do coletivo e já ia me sentando lá, como se fosse minha segunda casa. Fazia muito frio naquele lugar e tão cedo da manhã, e as meias que eu usava sem me importar com o calçado não eram suficientes. Nem as luvas. Nem o cachecol. Frio e eu não flertamos nem por um assento de ônibus. Ali, naquela parada, batia um sol tímido, mas gostoso. Eu me sentava e começava a observar aquela esplanada cheia de prédios e sem quase ninguém. A alternância entre o silêncio do enorme gramado e os motores barulhentos dos carros parecia uma música para acordar. Era nesse momento que eu começava a perceber que estava viva e que, sim, inevitavelmente, começava mais um lindo dia.

Passageiros desciam naquela parada e davam de cara comigo sem entender o porquê de eu estar ali tão cedo, sentadinha, e tão parada. Sempre quando faltavam uns 25 minutos para subir e, finalmente, trabalhar, era hora de tomar o café da manhã que minha mãe mandara – geralmente uma fruta, um Toddynho e um pão com manteiga. Nesse meio tempo, já dava para ter companhia de algumas pessoas na parada – aquelas cujo término do expediente coincide com o sono de grande parte das pessoas. Eram desconhecidos, mas meus companheiros matinais de sempre.

Havia dois passageiros em pé na parada e uma sentada, como eu, na outra extremidade. Abri lentamente minha bolsa assobiando mentalmente como se fosse o anúncio para mais um café da manhã. Toda vez que iniciava este ritual, as pessoas começavam a me olhar – talvez porque a sacola e o pote da fruta faziam barulho ou porque simplesmente me achavam esquisita.

A fome que eu não sentia ao acordar porque não apetece a mim e ao meu estômago despertar cedo aparecia em grande estilo nesse momento e com direito a fundo musical de Eric Clapton. Dentro da sacola branca, só havia um pote da mesma cor e eu já me preparava para comer uma fruta. Todos na parada me olhando passar por aquela cerimônia e, de repente, a surpresa: ARROZ BRANCO. Sim, arroz cozido, branco, do dia anterior, todo socadinho no pote. As pessoas começaram a me encarar, certamente pensando “Caramba, hoje ela trouxe arroz para comer a essa hora? Que louca!” Pois é. Sou fã de arroz, mas realmente não como isso no café da manhã. No lugar de fechar o pote imediatamente e assobiar de verdade fingindo que ninguém tinha visto aquilo, minha reação foi disparar uma gargalhada que só pararia quando desse o horário de subir para minha sala. Disquei no celular o telefone da minha mãe, a pessoa mais de bem com a vida que conheço, para compartilhar com ela aquilo:

– Alô? Mãe? Hahahaha.
 
– Oi, Sara. O que foi?
 
– Hahahaha. Não consigo falar, mãe. É que, hahaha, é que…
 
– Diga, filha. Hahahaha.
 
(Ela começou a ter crise de riso também porque é de família)
 
– Sabe o pote que eu trouxe, mãe? Hahahaha. O pote…
 
– Hahahaha. O que é que tem, Sara?
 
– É arroz, mãe! AR-ROZ! Hahahaha.
 
– Hahahaha. Filha, você trocou o pote! O certo estava na prateleira de cima! Onde você está? Hahaha.
 
– Na parada de ônibus, mãe! Hahaha. E tem pessoas me olhando, achando que vou comer arroz às 7h30 da manhã! Hahaha.
 
– E o que você vai fazer, filha? Hahaha. Vai comer o arroz? Hahaha.
 
– Vou não, mãe! Vou terminar de gargalhar até a hora de subir e levar o arroz para comer em casa, no almoço. Hahahaha.
 

E desliguei olhando para as pessoas ao meu redor, que ouviram a conversa e passaram a rir junto comigo. Naquele momento, pensei em quão bom seria o meu dia porque começara com arroz, símbolo de prosperidade em casamentos. Fiquei a manhã toda sem comer, mas minha riqueza naquele dia foi entender porque minha mãe acorda todos os dias como as princesas de contos de fadas: a alegria é seu alimento.