Era uma vez um milk-shake

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Postado dia 24 de abril de 2013 em Micro-micos

Há algumas semanas, contei aqui no blog sobre o dia em que fui chamada de demônio na parada de ônibus. Mesmo que você não tenha lido, dá para imaginar que não foi nada legal. Nessa mesma história, que faz parte da minha coleção de micos e constrangimentos em paradas de Brasília, lembrei-me do dia em que a exposição da minha figura envolveu um milk-shake. Isso mesmo, um milk-shake de Ovomaltine bem batido e você sabe de qual lanchonete.

Fui com uma grande amiga ao Pátio Brasil depois do trabalho. Lá é nosso ponto de encontro, nossa parada da amizade. Basicamente, a gente se senta para comer em um lugar qualquer do shopping ou vai entrando e saindo de lojas enquanto desempenhamos o que sabemos fazer muito bem: conversar. Como ambas somos passageiras de ônibus, nossos encontros semanais pela noite não duram tanto tempo. Sobretudo quando se trata da parada do Pátio Brasil. Quem já esperou coletivo por lá já deve ter presenciado assaltos, confusão entre suspeitos e polícia, barracos e por aí vai.

O relógio cravou 22h e era hora de irmos embora para nossas casas. Ela ficaria na parada em frente ao shopping e eu atravessaria a pista da W3 para ir para a do outro lado, já que moramos em regiões opostas. Mas, antes, passamos numa lanchonete que vende deliciosos milk-shakes de Ovomaltine para adoçar um pouco mais a nossa noite. Não sei o que tem naquele líquido, mas sempre me deixa de muito bem com a vida. Além disso, como ônibus para Sobradinho depois daquela hora é como um milagre, o milk-shake me faria inestimável companhia.

Chegamos à rua. Tchauzinho pra cá, beijinho pra lá. Como grandes amigas nunca se despedem realmente no momento anunciado, conversamos ainda qualquer abobrinha, contamos mais alguma breve história iniciada com “menina, rapidão, esqueci de contar” e, alguns minutos depois, finalmente nos separamos. Lembro-me de que o milk-shake dela já estava praticamente no fim e, enrolada para comer e beber que sou, mal tinha iniciado o meu. Nunca entendi a pressa das pessoas para ingerir as coisas. E não significa que não tenho sede de vida e que isso reflete no meu modo de me alimentar. É que eu prefiro degustar tudo com muito jeitinho. Em contrapartida, ninguém me entende. É o mundo contra Sarita.

Fui andando para a primeira faixa de pedestres que teria de atravessar e, no meio do caminho, senti uma mão desconhecida em meu ombro. “Ei, moça. Me arruma R$ 3,00 pra eu voltar pra Ceilândia?”, ouvi em seguida. Interrompi meu devaneio no canudinho do milk-shake e olhei para ele. O rapaz de 20 e poucos anos tinha cheiro forte de álcool e andava meio que dançando, no mesmo ritmo de sua fala, meio cantando.

Eu já estava com uma nota de R$ 20 separada na mão para pagar o ônibus que me levaria para casa – quem não tem experiência como gente passageira deve saber que é sempre bom fazer isso para evitar ficar abrindo bolsa e correr o risco de ser assaltado (a) – e era tudo o que eu tinha. “Poxa, cara, desculpa, mas não tenho”, declarei. Realmente não tinha os R$ 3 que ele queria e senti que não devia dar muito papo para ele porque seus olhos não paravam quietos no rosto. Tive medo de ele estar muito fora de si e fazer algo comigo. Segui em frente. Ele também.

Parei ao lado do semáforo no qual desejei ver o bonequinho verde do mesmo modo como desejara aquele milk-shake minutos antes. Nada de abrir o sinal. Olhava para a parada que me receberia dali a pouco para ver como estava o movimento e reparei que ali perto de mim, o rapaz que queria voltar para Ceilândia abordava outras pessoas. Olhei demais. Ele me olhou de volta como Lucas olhava para Jade nos desertos da novela “O Clone” e veio falar comigo novamente. “Hein, moça, é sério. Me dá aí R$ 3 porque eu tenho que voltar para Ceilândia”, ordenou. Eu me fiz de louca e falei qualquer coisa do tipo “hjklwosturi” e ele saiu. O bonequinho do semáforo ficou verde e eu apertei o passo para chegar do outro lado.

Já estava na parada de ônibus e tudo parecia tranquilo. Havia umas 11 ou 12 pessoas além de mim, mas nenhuma “polêmica”. Posicionei-me de modo a verificar se meu ônibus vinha e continuei tomando meu milk-shake como um bebê toma sua mamadeira: na santa paz de Deus.

Eis que sinto uma mão em meu ombro, mas, desta vez, ela já era familiar. Mordi forte o canudo como quem pensa “caramba, de novo esse cara!”, e me virei para ele. “Ei, moça, me dá um gole desse seu milk-shake aí?!”. Eu ainda não tinha chegado à metade daquele líquido dos deuses e teria de dar um gole para aquele cara que nem precisava entrar num ônibus para fazer uma viagem – seus olhos e voz denunciavam. “Oi?”, eu respondi. “Um gole, moça, desse seu Ovomaltine aí. Dá pra ser ou tá difícil? Três reais você não tem, mas tem um milk-shake gostosão aí, então me dá um gole que eu tô com sede”, apelou.

Entreguei a ele olhando para as pessoas que estavam na parada de ônibus. Uns me olhavam querendo rir, outros com cara de pena. Sempre assim. O rapaz arrancou o canudo do copo de 750 ml, levantou a tampa e bebeu um grande gole, deixando escorrer pelas beiradas da boca. Depois, colocou a tampa de volta, enfiou o canudinho de novo e apontou o copo para mim, me devolvendo. Eu estava, é claro, completamente pasma com aquela situação. “Toma, moça. VA-LEU”, ele disse. “Imagina, pode ficar, pode tomar tudo. Estou satisfeita”, falei, ligeiramente chocada. “Tá com nojinho, é, moça? Que mané satisfeita, tu tava com a maior cara de que tava curtindo o Ovomaltine quando eu te pedi. Foi só um gole, bebe o resto agora”, ele implicou. “VA-LEU”, debochei de volta, me virando para a frente para cortar de vez o contato com ele.

Olhei para a pista e, um segundo depois, o rapaz joga com toda a força do mundo o “nosso” milk-shake (pois é, passou a ser meu e dele) no meio do asfalto por onde passam os ônibus. “Não quer de volta, não quer. Tá com nojinho de mim, problema é seu”, disse ele gritando enquanto atravessava para o outro lado de onde havia surgido.

Diante dos espectadores na parada de ônibus, fiquei mais embaraçada do que meu cabelo depois de um banho de mar, mas depois comecei a rir da situação. Pobre milk-shake. Tão desejado – por mim, por minha amiga, pelo rapaz inconsequente e acredito que também pelo pessoal da parada de ônibus – e tão desperdiçado. Meu ônibus chegou logo em seguida e passou por cima daquela deliciosa lambança de Ovomaltine. Só me restou, no final das contas, olhar pela janela do coletivo nossa triste despedida.

Chuva de arroz na parada de ônibus

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Postado dia 15 de abril de 2013 em Micro-micos

Tomar café-da-manhã não é o meu forte. Eu sei, está errado. Mas é que, quando acordo, meu organismo demora a entender a necessidade de se alimentar. Se acordo cedo, então, pior ainda. Parece que tudo lá dentro continua dormindo por horas, sem acompanhar meu ritmo. Quanto mais cedo me levanto, maior é o meu mau humor. Tenho dó de quem começa o dia ao meu lado. Se bem que meu quadro até apresentou uma melhora nos últimos tempos. Mas ainda invejo pessoas como a minha mãe que, independentemente da hora em que despertou e do quanto dormiu, acorda arreganhando janelas e cantarolando como as princesas de contos de fadas para o sol e os pássaros. E é ela, minha mãe, quem entra nesta história.

Há quatro anos, quando eu trabalhava na Esplanada dos Ministérios, tinha de acordar às 5h54 para sair de casa às 6h18. Vinte e dois minutos para tomar café da manhã, lavar corpo e alma e me arrumar? Que nada. Era cedo demais para meu estômago aceitar qualquer comida; eu preferia tomar banho no dia anterior para economizar tempo e, ainda por cima, na maioria das vezes, eu já dormia com a roupa de trabalhar para não perder tempo me aprontando. Meio porquinha, eu sei, mas herdei a tradição dos tempos de escola, quando o sono prolongado após um dia de muito estudo (sim, eu era nerd) significava uma das coisas mais deliciosas da vida.

Estágio me esperando e eu tinha 22 minutos para acordar, desligar o despertador, ficar incrédula na cama por ter de me levantar tão cedo, fazer necessidades e pegar o café da manhã que minha mãe sempre deixava prontinho para mim na geladeira. Depois disso, era só ir rumo ao ônibus, que passava às 6h26. Era o único coletivo que me levava direto de Sobradinho para a Esplanada e, se perdesse, que fosse chorar sozinha no terminal solitário da cidade alta. Por 10 meses, foi assim todos os dias.

Meu estágio começava às 8h, mas meu ônibus chegava lá por volta das 7h15. Eu poderia muito bem subir se o ministério não fosse tão pontual. O que fazer em 45 minutos? Bem que eu sonhava, ainda na janela do ônibus, em transferi-los para o meu sono matinal. Por 10 meses, a parada de ônibus em frente ao Ministério do Planejamento foi minha “cabaninha” antes do expediente. Descia do coletivo e já ia me sentando lá, como se fosse minha segunda casa. Fazia muito frio naquele lugar e tão cedo da manhã, e as meias que eu usava sem me importar com o calçado não eram suficientes. Nem as luvas. Nem o cachecol. Frio e eu não flertamos nem por um assento de ônibus. Ali, naquela parada, batia um sol tímido, mas gostoso. Eu me sentava e começava a observar aquela esplanada cheia de prédios e sem quase ninguém. A alternância entre o silêncio do enorme gramado e os motores barulhentos dos carros parecia uma música para acordar. Era nesse momento que eu começava a perceber que estava viva e que, sim, inevitavelmente, começava mais um lindo dia.

Passageiros desciam naquela parada e davam de cara comigo sem entender o porquê de eu estar ali tão cedo, sentadinha, e tão parada. Sempre quando faltavam uns 25 minutos para subir e, finalmente, trabalhar, era hora de tomar o café da manhã que minha mãe mandara – geralmente uma fruta, um Toddynho e um pão com manteiga. Nesse meio tempo, já dava para ter companhia de algumas pessoas na parada – aquelas cujo término do expediente coincide com o sono de grande parte das pessoas. Eram desconhecidos, mas meus companheiros matinais de sempre.

Havia dois passageiros em pé na parada e uma sentada, como eu, na outra extremidade. Abri lentamente minha bolsa assobiando mentalmente como se fosse o anúncio para mais um café da manhã. Toda vez que iniciava este ritual, as pessoas começavam a me olhar – talvez porque a sacola e o pote da fruta faziam barulho ou porque simplesmente me achavam esquisita.

A fome que eu não sentia ao acordar porque não apetece a mim e ao meu estômago despertar cedo aparecia em grande estilo nesse momento e com direito a fundo musical de Eric Clapton. Dentro da sacola branca, só havia um pote da mesma cor e eu já me preparava para comer uma fruta. Todos na parada me olhando passar por aquela cerimônia e, de repente, a surpresa: ARROZ BRANCO. Sim, arroz cozido, branco, do dia anterior, todo socadinho no pote. As pessoas começaram a me encarar, certamente pensando “Caramba, hoje ela trouxe arroz para comer a essa hora? Que louca!” Pois é. Sou fã de arroz, mas realmente não como isso no café da manhã. No lugar de fechar o pote imediatamente e assobiar de verdade fingindo que ninguém tinha visto aquilo, minha reação foi disparar uma gargalhada que só pararia quando desse o horário de subir para minha sala. Disquei no celular o telefone da minha mãe, a pessoa mais de bem com a vida que conheço, para compartilhar com ela aquilo:

– Alô? Mãe? Hahahaha.
 
– Oi, Sara. O que foi?
 
– Hahahaha. Não consigo falar, mãe. É que, hahaha, é que…
 
– Diga, filha. Hahahaha.
 
(Ela começou a ter crise de riso também porque é de família)
 
– Sabe o pote que eu trouxe, mãe? Hahahaha. O pote…
 
– Hahahaha. O que é que tem, Sara?
 
– É arroz, mãe! AR-ROZ! Hahahaha.
 
– Hahahaha. Filha, você trocou o pote! O certo estava na prateleira de cima! Onde você está? Hahaha.
 
– Na parada de ônibus, mãe! Hahaha. E tem pessoas me olhando, achando que vou comer arroz às 7h30 da manhã! Hahaha.
 
– E o que você vai fazer, filha? Hahaha. Vai comer o arroz? Hahaha.
 
– Vou não, mãe! Vou terminar de gargalhar até a hora de subir e levar o arroz para comer em casa, no almoço. Hahahaha.
 

E desliguei olhando para as pessoas ao meu redor, que ouviram a conversa e passaram a rir junto comigo. Naquele momento, pensei em quão bom seria o meu dia porque começara com arroz, símbolo de prosperidade em casamentos. Fiquei a manhã toda sem comer, mas minha riqueza naquele dia foi entender porque minha mãe acorda todos os dias como as princesas de contos de fadas: a alegria é seu alimento.