Passando uma tarde no Itapoã (por engano)

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Postado dia 13 de dezembro de 2012 em Micro-micos

Quem nunca pegou ônibus errado que atire a primeira pedra. Não sei se é a parada de ônibus que causa náuseas ou se é culpa dos deuses que controlam o fantástico mundo dos passageiros, mas acontece.

Há algum tempo, quando estagiava na Esplanada dos Ministérios, saí cansada do prédio onde trabalhava e fiquei esperando o ônibus que costumava passar ali na parada por volta de uma da tarde. Naquele dia, estava acontecendo uma manifestação perto do Congresso Nacional. A barulheira aumentou – e muito – a dor de cabeça e o cansaço que eu sentia por conta de noites mal dormidas.

Cheguei à parada entupida de gente. Os manifestantes faziam muito barulho, pessoas tropeçavam e outras atravessavam a rua de qualquer jeito. O caos instaurado por lá começou a habitar meu pequeno ser. Por sorte (ou não), veio vindo o que parecia ser o “meu” ônibus, que simplesmente contornaria a Esplanada para me levar até a Rodoviária do Plano Piloto. De lá, pegaria o segundo ônibus definitivamente para casa. Você que lê vai se/me perguntar o motivo de eu não ter ido andando mesmo, já que o trajeto é curto. Daí eu respondo que fiz isso durante meses debaixo do sol de uma da tarde e meus pés estão bronzeados até hoje, quatro anos depois. Além disso, foi nessa época que passei a ter chulé. Juro que não tinha, até então. Em resumo, valia a pena pagar a passagem para fazer um tão aparentemente curto caminho.

Voltemos à história. O ônibus era vermelho, assim como o que eu costumava pegar nesse horário, naquele local. Li no itinerário “ROD. PLAN. PIL.”. “Tudo certo, chegou meu santo ônibus de cada dia”, refleti. Ó, gente, a vida nunca é tão simples quanto parece. Nada é superficial. Os deuses não perdoam descuidos. Li o que li rapidamente e entrei toda linda à la luz na passarela que lá vem ela.

Entrei. Quando a gente costuma pegar uma determinada linha de ônibus todos os dias, no mesmo horário, é fácil reparar nas figurinhas repetidas dentro do coletivo. Aquele rapaz de regata que fica de fone de ouvido no fundo do ônibus, a tiazinha que faz crochê num paninho verde, as duas amigas que se sentam uma do lado da outra.

Passei pela roleta e fui notando que as pessoas que costumava ver todos os dias lá dentro não estavam. Tinham sido abduzidas, feito transplante facial ou se juntado aos manifestantes da Esplanada. Pensei em tudo isso, mas não tive a capacidade (ou coragem) de imaginar que tinha simplesmente entrado no ônibus errado. Quando um pouco depois o motorista virou para a direita e não para a esquerda, como “deveria”, caso o destino fosse realmente a rodoviária, pensei que ele pudesse estar fazendo um caminho alternativo por conta da manifestação ou que ele fosse deixar algum passageiro em estado de emergência num hospital antes de retomar o caminho certo. Pensei em tudo isso, mas não quis aceitar o iminente desastre.

Não sei bem o que é, mas algumas situações da vida deixam a gente simplesmente sem ação. Naquela tarde, já estava tão cansada, havia me estressado com a loucura da manifestação, estava pegando ônibus… ter cometido um grande engano já era demais para a minha cabeça. O que eu fiz? Mesmo sabendo disso, resolvi permanecer sentadinha, sem perguntar nada a qualquer ser humano e esperei para ver. Comecei a pensar para onde iria, afinal, aquele ônibus. Sim, poderiam ser muitos lugares. Decidi curtir aquela emoção idiota de estar fazendo algo sem ter a menor ideia de como acabaria. Era a mesma coisa de levar crianças para a missa de domingo. A gente nunca sabe se elas vão se jogar na pia batismal ou puxar o cadarço do sapato do padre. Mas a vida, por si só, não é assim? A gente sabe que acaba, só não sabe como. Paguei pra ver. Comecei a admirar o que via pela janela, prestava atenção numa conversa aqui e outra ali. Parecia ter graça. Até que não teve mais.

A viagem estava demorando. Uma hora aquele trajeto teria de ter um ponto final. E teve. Antes disso, percebi que estava chovendo. “Vai passar”, imaginei. Que nada. E, pra piorar, depois de já ter passado mais de 40 minutos naquele ônibus sem quase ninguém descer, vi que a maioria começava a se mexer. Notei também que o ônibus já andava mais devagar e parava em quase todas os pontos, bem típico de quando se chega ao destino. Já chovia demais e havia muita lama lá fora. O ônibus dava voltas e voltas naquele lugar que eu desconhecia. Todo mundo estava descendo.

Bateu o desespero. Só restavam duas pessoas além de mim. Vi que havia chegado a hora de ser humilde e menos louca e perguntar ‘onde estou, quem sou eu’ para o cobrador. “Moço, esse ônibus vai pra onde mesmo?”, perguntei como uma maluca que acabara de perder a memória ao bater a cabeça na janela do ônibus. “Uai, moça. Pegou o ônibus errado? A gente tá no Itapoã. Você quer ir pra onde?”, retrucou ele fazendo transbordar a vergonha dentro de mim. “Sobradinho”, eu disse. “Vixi, então senta mais um pouquinho aí que daqui a pouco a gente chega na rodoviária do Paranoá e você vê o que faz”, ele respondeu. “Toma, Sarita. Bem feito! E agora?”, veio a pergunta.

O ônibus finalmente saiu do Itapoã. Minutos depois, lá estava eu na rodoviária do Paranoá à espera de um milagre. Desci rapidamente do ônibus e pensei positivo. Paranoá é perto de Sobradinho, rapidinho chego em casa. Desci e perguntei para uns motoristas reunidos num banco. “Oi, gente.  Vocês sabem em que lugar daqui eu pego ônibus para Sobradinho?”, perguntei. “Sobradinho? Aqui não tem ônibus pra lá não, moça. A não ser que você atravesse o Paranoá. Lá tem”, explicou o mais gentil deles.

Que beleza. Que chuva naquela hora! O que eu fiz foi, como um cão abandonado e arrependido, pegar lá mesmo o primeiro ônibus de volta para a rodoviária do Plano Piloto, meu primeiro destino, cujo foco eu nunca deveria ter perdido, e fazer tudo de novo, dessa vez certo.

No fim das contas, a confusão que fiz com o itinerário foi porque só li o “ROD. PLAN. PIL” que, tempos depois, descobri que vinha sucedido de “ITAPOÔ. “A pressa é inimiga da perfeição”, já diz o ditado.

Foi uma tarde e tanto – não tão bela como a música de título parecido – e ficou o aprendizado para toda a vida: a gente escolhe nossas batalhas.

O peru no colo do homem

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Postado dia 23 de novembro de 2012 em Micro-micos

Esse dia já faz uns dois anos. Naquela época, grande parte da minha vida estava no Plano Piloto, a 25 km de onde eu moro. Um dia antes dessa história acontecer, havia recebido dois perus de Natal como cortesia para os funcionários da empresa na qual ainda trabalho. Na época eu era estagiária, e fiquei toda empolgada quando vi o caminhão de entrega no estacionamento da empresa. Logo me disseram: “Ei, hoje é dia de entregar o peru de Natal”. Quem é que não gosta de ganhar presente?

Após deixar minha bolsa na sala onde trabalhava, fui com outras estagiárias até uma fila que se formara para receber os tais perus natalinos. Bastava mostrar o crachá, agradecer e retirar o presente. Comemorei e saí com as duas mãos ocupadas com quilos de comidas bem congeladas. Mas, antes, um aviso do entregador: “Olha só, moça. Esses alimentos só podem ficar até 12 horas fora da geladeira, ok?” Concordei. O que eu poderia dizer? Acontece que, naquele dia, eu já tinha combinado com as outras estagiárias, minhas amigas até hoje, que, após o expediente, dormiríamos na casa de uma delas após uma noite de produção e festa de um prêmio de jornalismo. Aqueles perus, portanto, que estavam sob minha guarda, começaram a me preocupar. Porém, assim que cheguei na casa da amiga, fui logo guardando os perus, juntamente com os que elas tinham ganhado, no congelador. Queria me certificar de que eles ficariam bem geladinhos e conservados.

Nos arrumamos como três peruas, fomos para a festa e nos divertimos como jovens pré-adultas merecedoras de vida. No início da manhã do dia seguinte, carreguei os perus comigo e fomos de carro para mais um dia de estágio. Assim que cheguei na minha mesa, repousei as sacolas térmicas com os ditos cujos no chão e trabalhei normalmente. Havíamos dormido muito pouco, os efeitos das bebidinhas falavam alto e eu não via a hora de chegar em casa e dormir como se não houvesse amanhã.

Ok, mas o que essa história toda tem a ver com ônibus? Lá vem: saí do trabalho carregando guarda-chuva, pasta, bolsa e, é claro, os perus nas mãos. Como se não bastasse, ainda levava no meu corpo um cansaço jamais antes sentido e comecei a idealizar a poltrona do ônibus. Na parada, as pessoas me olhavam estranhamente, afinal, não é todo dia que se vê pessoas carregando perus em sacolas vermelhas por aí. Eu lutava por eles, pois queria aproveitar aquele presente tão irreverente.

Chegou o coletivo. Não perdi muito tempo escolhendo onde me sentar, então fui logo para o lugar que fica abaixo do cobrador, lado da janela. Repousei no meu colo todas as tralhas que carregava e tive o maior cuidado com os perus, é claro, que ganharam lugar especial nas minhas pernas. O ônibus andou poucas paradas até que entrou um homem de calça e jaqueta jeans que se sentou do meu lado após, gentilmente, pedir licença. Essa é a última lembrança que tenho antes do desfecho trágico.

Não costuma acontecer comigo, mas, quem aí nunca babou no ombro de um desconhecido no ônibus? Nesse dia, fiz pior. Estava tão cansada dos dias anteriores extremamente movimentados que simplesmente havia apagado de tanto sono. Acordei assustada e, quando dei conta de mim mesma, estava praticamente abraçando o cara com visual de Roberto Carlos à la Jeans Forever. Olhei para ele, nossos olhares se cruzaram, mas vi que seu rosto guardava um pouco de desconforto. Resolvi acordar de vez, ajeitei a postura, mas o pior ainda estava por vir. Olhei para o meu colo e um dos perus não estava mais lá. “Minha Nossa Senhora”, falei em voz alta. Lembrei o que o entregador do caminhão de perus natalinos havia me alertado sobre o descongelamento do bicho e, imediatamente, olhei para a calça jeans do homem que estava simplesmente EN-CHAR-CA-DA com a água do peru. Não exatamente do peru, mas do gelo da bolsa térmica que o conservava. Peguei rapidamente o peru no colo do homem (não é nada disso que vocês estão pensando), o peru certo, o meu peru (de Natal) e o transferi para o meu colo. A perna direita do homem estava molhada e eu, completamente sem graça. Olhei para ele e só saiu um “Meu Deus, me desculpa, eu dormi”. Para mim, era o fim do mundo. “Fala sério, Sara! Além de dormir no ombro do cara, ainda derruba uma cachoeira na perna dele?!”, queixei comigo mesma. Inacreditavelmente, fui correspondida com um “Eu vi. Não quis te acordar e, chegando em casa, já vou trocar de roupa mesmo…”. E sorriu, surpreendentemente.

Não sei se era a magia do Natal chegando, mas fiquei tão aliviada com aquela gentileza que os perus podiam até não suportar o descongelamento. O importante foi que brindamos com sorrisos de quem vê a vida com leveza mesmo quando se destrói icebergs.