Pés cansados, mãos unidas

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Postado dia 06 de junho de 2013 em Personagem da vez

O ônibus é uma das comunidades das quais faço parte. Tem a família, os amigos, o trabalho, o jornalismo… e tem o ônibus. Sou uma passageira fiel na comunidade ‘onibusística’ de Brasília e do planeta. Sou da tribo do ‘busão’. Pegar as mesmas linhas de ônibus nos mesmos horários todos os dias faz com que eu me sinta ainda mais parte dessa comunidade. Pessoas aparentemente desconhecidas não são apenas meus companheiros frequentes de viagem. São os outros membros dessa comunidade.

Na minha comunidade tem uma mulata linda com cabelo exuberante de uns 30 e poucos anos que sempre elogia meus sapatos. “E aí, filha?! Tá boa? Nossa, mas o ônibus demorou hoje, você não acha?”, ela costuma dizer. Tem o motorista gente boa que sempre me pega até mesmo fora da parada quando estou atrasada. Quando eu subo no ônibus, eu e ele sorrimos simultaneamente ao “bom dia” que trocamos. Eu de vergonha. Ele de “você se atrasou de novo, garota, mas tem nada não”.

Tem também a cobradora de óculos e cabelos bem pintados de preto que fica tricotando com os dedos e com a língua a viagem inteira junto com uma passageira. É que a filha mais velha dessa cobradora está grávida, que eu sei, e enquanto ela prepara as roupas da netinha, fala bem e mal a respeito. Tem, ainda, uma mulher bem baixinha a quem chamo na minha cabeça de “Dona Pequena”, com seus 1,40m e pouco de altura. Sempre pega o ônibus na minha parada e desce logo algumas quadras depois para entregar a marmita do marido no trabalho dele. “Hoje eu fiz dobradinha. Deu um trabalho, menina! Mas é que meu esposo é exigente. Não gosta da mesma comida todo dia, sabe como é?”, ela diz para quem quiser ou não ouvir.

Andar de ônibus é viver em comunidade e, por isso mesmo, você sempre vai se deparar com pessoas bem diferentes de você. E nunca pense que já conhece demais todos os membros. Aconteceu comigo outro dia. Eu estava dentro do ônibus, indo para o trabalho, sentada no banco logo abaixo da cobradora que tricota dos dois jeitos sem parar. Meu cabelo ainda estava meio molhado do banho que acabara de tomar, então me agradava o solzinho que batia na janela. Era um dia quente, daqueles em que parece que algo luminoso vai acontecer.

O ônibus estava quase chegando à saída de Sobradinho. Em uma das últimas paradas, estava uma mulher que sempre pega ônibus lá. Cabelo castanho e curto, uns 45 anos de idade, magra, olhos fundos e com cara de mal humorada. Infelizmente, ela parecia ser uma pessoa amarga e insensível. Mania que o ser humano tem de conjugar o julgar em todos os tempos. O que aconteceu naquele dia ajudou a tirar a impressão negativa que eu tinha dela e ainda me fez enxergar o ônibus, sim, como uma comunidade.

O veículo estava chegando à parada dela e a vi lá, em pé, segurando sua bolsa e franzindo a testa, como sempre. Sentado no banco da mesma parada, estava um senhor bem velhinho, de uns quase 90 anos. O motorista parou no ponto e a mulher foi logo se dirigindo à porta do coletivo para entrar. Ao mesmo tempo, mais atrás, o velhinho começou a se levantar lentamente para fazer o mesmo, mas estava com muita dificuldade. Não sei o que foi, mas, de repente, algo fez com que aquela mulher olhasse para trás e visse que aquele homem estava em apuros. Reparei de longe que ele segurava uma bengala e tinha uma sonda presa à parte de baixo do corpo. Ele começava a se levantar, mas parecia estar bastante limitado. Foi aí que a mulher recuou alguns passos e estendeu a mão para lhe ajudar. A expressão do rosto dela mudou para mim pela primeira vez.

O motorista olhava aquela cena através da porta de sua segunda casa bem seguro de que não engataria a primeira marcha até que aquele senhor conseguisse entrar no ônibus. Assim, o motorista gentil, a cobradora que tricota e todos os passageiros, inclusive eu, começamos a olhar para o que acontecia do lado de fora: passos extremamente lentos de um homem que já tinha caminhado muito ao longo da vida. Provavelmente, ele já foi um jovem que não sabia como é trabalhoso para o nosso corpo fazer toda essa estrutura andar. As pernas, os braços, o coração, o pensamento. Movimentos tão equilibrados que parecem a música mais linda do mundo ao tocar.

Esse homem já caminhou muito na vida, eu pensei. Parecia que, naquele momento, cada passo lento era árduo, mas necessário para honrar todos aqueles que já haviam sido dados. Estava difícil, mas ele não queria parar de tentar caminhar. Ele lutava. Passo a passo, como deve ser na vida. Passos muito curtinhos. Ao lado dele, a mulher ajudava. Segurava sua mão e envolvia suas costas com o outro braço, como se fosse uma enfermeira no corredor de um hospital. Como se fosse uma amiga de longa data. Aquele homem voltava então, para o tempo de bebê, quando ainda estava aprendendo a caminhar. A mulher ao lado parecia ser sua mãe ou pai, enquanto as pessoas dentro do ônibus eram como sua família celebrando seus tímidos passos. Membros de uma comunidade unidos pela luta de um de nós.

Quando ele finalmente chegou à porta do ônibus, todos temeram que ele não conseguisse subir. Ele parou. Repousou a bengala no chão. Parecia sentir dor. Respirou fundo algumas vezes. O motorista se adiantou e ficou na posição de dentro para puxá-lo. Enquanto isso, a mulher ficou por trás para lhe dar suporte caso ele caísse. Os dois degraus do ônibus foram um duro obstáculo, mas finalmente ele entrou no coletivo e se sentou logo no primeiro assento preferencial. Todos respiraram aliviados. “Conseguimos”, disse ele ao se acomodar no banco com riso na voz. “O senhor está bem?”, perguntou o motorista. “Agora, sim, estou bem. Obrigado, meu filho”, o velhinho respondeu.

Ainda faltava a mulher terminar de entrar no ônibus. Quando o fez, ela passou a mão suavamente no ombro do homem e sorriu, de cabeça baixa. Ele lhe agradeceu com os olhos, e isso bastava. Ao parar na roleta, diante de todos os passageiros orgulhosos dela, a mulher segurou o nariz para tentar conter um choro que todos no ônibus já haviam segurado. Acredito que os passageiros imaginaram aquele velhinho como seus pais, mães, avós, ou como eles mesmos, daqui a alguns anos. Todos sentiram a própria vida como um fio muito frágil. E eu também.

Não deu para segurar. Aquela mulher, que agora eu via de uma forma completamente diferente de antes, contou moedinha por moedinha com as mãos molhadas de lágrimas e olhos embaçados. Me emocionei junto com ela. Ela se sentou em um dos primeiros bancos e descansou a cabeça na janela de sol para que choro e pensamentos fluíssem.

Seguimos viagem – eu, o motorista gentil, a cobradora que tricota, o velhinho encantador, a mulher sensível e todos os passageiros – como uma comunidade. Foi um dia realmente luminoso.

Vida e morte passageiras

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Postado dia 22 de abril de 2013 em Histórias do baú, Personagem da vez

Se você me perguntar se tenho religião, direi que não. Entretanto, com o tempo, descobri que isso não me torna pior ou menos sensível do que quem tem. Cresci em uma família muito católica e segui tradições por anos – batizado, missa todo domingo, primeira comunhão, crisma, noites de terço e tudo o mais. Mas chegou um momento em que resolvi assumir para o mundo a minha verdade: nunca acreditara em nada daquilo. Nada havia sido feito com o coração. Estava cansada de brincar de ‘vivo ou morto’ na igreja durante a cerimônia do padre.

Descobri que sempre acreditei apenas na vida mesmo e está de bom tamanho. Entendi que posso fazer o bem para as pessoas por meio do meu trabalho, do meu otimismo e do modo como me relaciono. Concluí que a amizade e o amor verdadeiros são maiores do que uma oração decorada. Não tenho religião. Ainda assim, sou sensível, e às vezes recebo sinais da vida quando algo diferente – bom ou ruim – vai acontecer comigo. Nada disso tem a ver com religião. É questão de observar o mundo e as pessoas. É questão de acreditar na vida.

Era sexta-feira e eu tinha combinado com um grupo de amigos – ex-colegas de trabalho – uma noite de karaokê. Disse a eles que sairia do trabalho por volta das 20h e pegaria um ônibus até o local, na Asa Norte. Apesar de estar com o cartão na bolsa, antes de sair do prédio, algo me disse para passar no caixa eletrônico e sacar algum dinheiro. Lá fui eu. Pensei em pegar R$ 10 ou R$ 20, mas, quando me aproximei do caixa, fiquei paralisada. Senti que deveria sacar mais. Peguei R$ 50 e guardei o dinheiro. Em seguida, avisei para uma amiga que estava saindo do trabalho e que logo chegaria. Mas eu ainda demoraria um pouco para chegar.

Sempre vou para a mesma parada de ônibus, em frente ao meu prédio. Naquele dia, algo me puxou para outra parada, um pouco mais distante. Para chegar a ela, tive que andar o triplo de passos e fazer uma curva. Não sei o porquê, mas fui para lá. A vida me puxou. Cheguei à parada e fiquei à espera de um ônibus para a W3 Norte. Como sempre, reparei nos demais passageiros. Em pé, como eu, um jovem rapaz de mochila – que vim a conhecer melhor depois desse episódio – e uma mulher de uns 30 e poucos anos, cabelo no ombro e óculos. Só havia uma pessoa sentada: um homem que aparentava ter uns 40 anos, barba grande, cabelo preto, calça marrom e blusa cinza. Nunca vou me esquecer do rosto dele e de sua expressão.

Olhei para trás e vi que ele estava chorando. Chorava silenciosamente, como se estivesse sozinho. E estava. Ele olhava para um ponto fixo na pista onde passavam os veículos. Segurava um boné na mão direita. Fiquei assustada quando o vi. Virei os olhos para a pista novamente. De repente, ouvi sua voz desesperada, que disse: “Eu quero morrer”. Entendi claramente o que ele disse e engoli uma saliva pesada. “Vou me matar, minha gente. Vou me jogar na frente do primeiro ônibus que passar porque não aguento mais essa vida”, disse ele com a voz baixa.

Eu e os outros dois passageiros nos viramos para aquele homem. Eu, que esperava um ônibus para me levar para uma noite de mergulho na vida, cheguei mais perto dele disse: “Calma, moço. Vai ficar tudo bem. Não fale essas coisas”, como se pudesse me colocar no lugar dele. Não podia.

O ônibus do rapaz de mochila chegou e ele teve de ir, com o coração apertado. A mulher, que também estava na parada, se aproximou junto comigo daquele homem desesperado e perguntou o porquê de ele querer tirar a própria vida. “Eu não aguento mais. Tenho um filho com deficiência. Estou desempregado e minha mulher também. Meu dinheiro acabou. Não tenho coragem de chegar de novo em casa sem nada, sem esperança, sabe?”, respondeu ele, olhando para os nossos olhos com o rosto completamente encharcado de lágrimas. E continuou: “Eu tenho que levar leite e remédios para o meu filho. Não sei mais o que fazer”.

Engoli outra saliva pesada. De repente, ele se ajoelhou no chão, e disse: “Não quero mais essa vida, gente. Não tem jeito. Eu só queria pedir uma coisa a vocês. Rezem um Pai Nosso comigo antes disso para eu ir em paz?”, e estendeu as mãos para mim e para a mulher. Naquele momento, cada uma tinha uma mão de um ser humano desesperado para acolher. E demos as mãos. Lá estava eu, sem religião, rezando um Pai Nosso em voz alta com desconhecidos. Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida.

“(…) Amém”. E nos sentamos, puxando as mãos dele para que se sentasse novamente naquela parada de ônibus. Lembrei-me dos R$ 50 que havia sacado sem motivo. Retirei da bolsa e disse a ele: “Esqueça as coisas que você falou e tente recomeçar. Amanhã é um novo dia. Pegue isso aqui para te ajudar. Tirar sua vida não vai adiantar nada”. Ele me respondeu que não queria dinheiro, apenas leite e remédios para o filho. Coloquei o dinheiro na mão direita dele e a fechei, pedindo para que ele aceitasse o modo como eu podia ajudá-lo naquele momento. A mulher disse a ele: “Não tenho dinheiro aqui, mas vou entrar com você no ônibus que passar para a rodoviária e te levar para uma assistente social que sei que está lá agora. Ela vai te ajudar”. Ele olhou para ela e perguntou: “Você jura?”. Ela jurou. O homem virou para mim e disse que um dia me pagaria aquele dinheiro, apesar de não saber como. Eu disse a ele que não se preocupasse e que jurasse que não tiraria sua própria vida. Ele respondeu: “Eu juro”.

Juras trocadas e o ônibus para a rodoviária chegou. A mulher disse “vamos” para ele, que foi atrás dela como uma criança que encontra ajuda após ter se perdido da mãe. Ele olhou para mim mais uma vez e acenou com o boné, ainda com o rosto molhado, mas com olhos que agradeciam. Um vento forte adiantou minhas lágrimas e meu ônibus chegou em seguida. Entrei no coletivo aos prantos e o cobrador me perguntou se estava tudo bem. Não dei conta de responder.

Cheguei ao karaokê e contei a história aos amigos ainda chorando. Alguns me chamaram de “tolinha” por ter dado dinheiro àquele homem. Outros tiveram o brilho nos olhos reduzido após ouvir a história. Não importa o que pensam da gente. Vale mais entender o que sentimos em nossas experiências de vida. Aquele dia foi especial para mim. Era como se a vida tivesse mudado meu caminho para encontrar aquele homem na parada. Era como se a vida quisesse que eu e aquela mulher nos uníssemos para lhe fazer acreditar, mesmo que apenas por um dia, que não estamos sozinhos no mundo. Era como se aquela situação e aquelas pessoas tivessem me esperado a vida inteira. E eu por elas.

Naquela noite, antes de dormir, rezei por aquele homem e pela mulher que também o ajudou. Não foi um Pai Nosso, mas “rezei” do meu jeito. Pedi à vida para que fosse tão generosa com ele quanto tem sido comigo. Chorei mais uma vez e dormi com a certeza de que a vida é, sim, circular, e nos dá experiências para nos aproximarmos das pessoas e ajudá-las. A vida nada mais é do que o que ela é.