Na parada errada, lições gratuitas de sabedoria

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Postado dia 17 de janeiro de 2013 em Personagem da vez

Achei que esse dia só completaria minha coleção de enganos ao pegar ônibus na cidade, assim como no dia em que passei uma tarde no Itapoã. Dessa vez era noite e, quando o zebrinha passou na parada em frente ao meu trabalho, achei que seu itinerário dizia ‘Pátio Brasil’, para onde eu gostaria de ir e comprar umas coisas. Não sei como, mas, na verdade, ele ia para a Esplanada dos Ministérios. Fui parar lá. Ao perceber a curva do engano, notei que chuviscava lá fora. Só me restava decidir em qual parada e de qual ministério eu pararia. Conheço todas elas muito bem, pois, há quatro anos, trabalhei no do bloco “C”, mas não gostava de esperar o ônibus no mesmo lugar todos os dias. Sendo assim, durante 10 meses, quase que diariamente, eu descia do prédio e andava até a parada que mais me atraía para ali esperar o ônibus que me levaria até a Rodoviária. Sentia uma alegria dentro de mim agindo dessa maneira. Adorava perceber como tinha gente diferente em cada uma delas e, como cada pessoa, no fundo, era tão igual. Era como se eu quisesse fazer a minha Esplanada das Paradas de Brasília.

Lá estava eu, na Esplanada real, quando decidi parar em frente ao Ministério das Relações Exteriores. Desci e iniciei a espera pelo primeiro ônibus que me levasse finalmente até a W3 Sul. Estava escuro e havia três ou quatro pessoas além de mim naquela parada. Ao meu lado, uma senhora com casaco de lã marrom, estilo sobretudo  e cabelo curto. Enquanto os passageiros que ali em pé contemplavam o caminho por onde o ônibus viria ao mesmo tempo em que provavelmente faziam reflexões de todo o tipo, aquela mulher manifestava suas emoções típicas de quem aguarda um coletivo por muito tempo. “W3 Norte, esse? Será? Ah, não. Não é não. Mas é verde, achei que fosse”, cochichava consigo mesma. “Ai, gente. Que noite bonita”, prosseguiu, espiando os prédios da Esplanada. Enquanto eu reparava com graça no jeito dela, dava continuidade à minha própria reflexão que havia começado no primeiro ônibus daquela noite. Naquele dia, uma sexta-feira, havia presenciado situações que me fizeram questionar a profissão que escolhi, e que tanto amo. Desanimada, foi como me senti.

Eis que, como um anjo, a senhora de casaco sobretudo que esperava o ônibus se virou para mim e deu início a uma conversa que parecia ter de acontecer de qualquer jeito, como uma determinação divina. “Mocinha, você também está esperando ônibus para a W3 Norte?”, perguntou sorrindo, encostando o queixo no peito. “Não, para a W3 Sul”, respondi com sorriso meio nervoso causado pela surpresa da pergunta. “Você está saindo do estágio só agora, é? Em plena sexta… Te seguraram muito, foi?”, insistiu no diálogo. “Não, senhora. Na verdade, nem trabalho por aqui. Trabalho lá no SIG, mas dei bobeira, peguei o ônibus errado e vim para cá”, respondi espiando o relógio no celular. Ela continuou: “Nossa, me desculpa. Você já trabalha? Te achei tão novinha que pensei que fosse estagiária. Quantos anos você tem?”. Disse, rindo: “Nossa, que legal! Tenho 23”. Ela perguntou ainda mais: “E você trabalha com o que, minha filha?” Revelei: “Jornalismo, senhora”. “Nossa, que profissão linda. Muito linda”, ela constatou.

“Vinte e três anos. O tempo passa rápido demais, moça. Outro dia eu tinha 23 anos. Agora em junho, eu faço 60. O tempo voou, minha filha. E hoje, quando eu olho para trás, dói um pouco rever as decisões que tomei na minha vida. É… Eu não sou daqui não. Sou do Rio de Janeiro. Mas já estou aqui em Brasília há um bom tempo. Quando fiz 18 anos, resolvi prestar concurso público, e acabei me mudando pra cá. Casei um tempinho depois. Casei com a pessoa errada, diga-se de passagem. É… Fiquei 12 anos casada com essa pessoa. Fui feliz na minha carreira, sabe? Digo que fui porque logo logo vou me aposentar. E já estou cansada também. No meio do caminho, tomei umas decisões erradas, como esse casamento. Doze anos de sofrimento, de angústia, de problemas. E que não duraram apenas 12 anos. É que, a cada decisão errada, você toma pra você vários anos de sofrimento que só serão sentidos depois. Sofro até hoje. Dediquei muito da minha vida à carreira, sabe? Viajei muito, trabalhei muito a serviço do que deveria servir de verdade, mudei coisas ao meu redor. Talvez tivesse sido até melhor se eu não tivesse perdido o foco por conta desse casamento, por exemplo. Tá na moda essa palavra, né? Foco. Parece bobagem ou coisa de revista de empreendedorismo, mas é verdade. Tem que ter foco. Porque se você não tem foco ou se perde o foco, independente para o que seja, isso representa vários anos da sua vida perdidos. E eu estou te dizendo isso porque vou fazer 60 anos, então já dá pra enxergar uma longa estrada, sabe como é? Eu sou feliz, sabe? Meio solitária, mas feliz. Talvez se tivesse me casado com outra pessoa… Ou se tivesse arriscado me casar de novo… Vou me aposentar e ainda não sei o que me restou para o fim da vida. Por isso que eu digo pra você, sabe? Não perca o foco. Você é jornalista e quer fazer o bem à sociedade por meio do seu trabalho? Então siga em frente com foco. Mesmo com os problemas que toda profissão tem, não desanime. Algum cara te ama muito e te faz feliz? Então não perca o foco nem ele de vista. E ouse, minha filha, abrace o mundo mesmo, ame as pessoas. Não perca o foco, independente pro que seja. É… o foco. Mas sou feliz, minha filha. É… sou feliz. Só acho, às vezes, que o foco que perdi acabou levando os meus sonhos embora”, disse ela de uma vez só enquanto eu a ouvia com olhos brilhantes. Não a interrompi sequer por um segundo. Quis ter uma atitude sábia de quem sabe ouvir gente sábia de verdade.

Meu ônibus chegou antes do dela, talvez porque os céus soubessem que ela teria mais paciência do que eu para seguir aguardando. Subi no coletivo, após acenar para ela e dizer “muito prazer, senhora, muito obrigada pelos conselhos”, com sorriso de moça que sonha, e prometendo pra mim mesma que não perderia meu foco: de alguma forma, ainda vou transformar o mundo.

Declaração de amor no ônibus – De mãe para filha

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Postado dia 07 de janeiro de 2013 em Personagem da vez

Era um daqueles “dias mais quentes do ano”.  Imagino que, no calendário brasiliense, as datas fiquem sempre competindo entre si para ver quem ganha. Quem perde são as pessoas, é claro, a não ser que estejam em agências bancárias, shoppings e coisas do tipo que tenham ar-condicionado. Nesse dia, eu estava no ônibus. Um pouco antes, vale contar, esperei pelo meu por uns 33 minutos numa parada cheia, o que me impediu de me proteger do sol, que parecia mais caliente do que o normal. Quando o coletivo chegou, sentei logo. Tudo o que eu queria era descansar um pouco e esfriar corpo e cabeça.

É muito comum que, em dias muito quentes, passageiros de ônibus já entrem no coletivo perguntando ao cobrador ou fazendo suas próprias análises a respeito de que lado do veículo o sol vai bater. “O sol tá de que lado, cobrador?”, todos querem saber. Percebi que havia me sentado na fileira certa, pois havia mais pessoas, que também fugiam do sol. Após me sentar, pedi para a moça que estava ao meu lado abrir mais a janela, por gentileza, pra curtir o ventinho que logo viria quando o ônibus pegasse certa velocidade. Ela aceitou sem comentários, então estiquei um pouco as pernas, desci os quadris e comecei a esvaziar a cabeça para apenas relaxar. Observava as paradas de ônibus no ritmo do veículo, enquanto imaginava a vida das pessoas que nelas estavam. Naquele dia, achei que apenas contemplaria as particularidades das pessoas na rua, sem que necessariamente acontecesse algo que pudesse me chamar a atenção. Foi quando, na parada de ônibus em frente a um hospital, vi mãe e filha acenando para que o ônibus em que eu estava parasse.

Entraram. A menina, de uns 8 ou 9 anos de idade, era bem esperta. Tinha uma boca grande na qual trazia um sorriso largo e olhos de criança feliz, com aquele brilho de quem ainda não viu quase nada das dores que a vida pode causar. Passou na frente da mãe – que vinha atrás carregando umas 300 sacolas, guarda-chuva, mochila de criança e bolsa – e perguntou bem alto: “Mamãe, posso passar por cima da roleta? É tão legal!”, e já foi subindo e mostrando seu sorriso – com a boca e com os olhos – para todos os passageiros do ônibus. A mãe olhou para o cobrador e fez a pergunta, um pouco constrangida: “Ela pode, moço? Nem estou com tanto dinheiro mesmo…”,  seguida de um sorriso tímido. “Tudo bem”, ele disse. Restavam poucos lugares no ônibus, e estes eram todos do lado onde batia sol. A mãe, uma linda morena de uns 30 e poucos anos de idade, tinha um sorriso tão bonito quanto o da filha. Seu cabelo, que mesmo amarrado parecia ser estonteante, lamentava por estar naquela condição porque realmente o calor era demais.

Sentaram-se. A menina foi para o lado da janela, como manda o costume das crianças felizes. A mãe começou a procurar espaço para acomodar suas sacolas e milhões de outras coisas para facilitar um pouco aquela viagem quente. Por sua vez, a menina encostou a cabeça na parede abaixo da janela com a mãozinha protegendo-a e disse com sorriso singelo: “A gente cansou hoje, hein, mãe?!”, e fechou os olhinhos em câmera lenta. Vi que a mãe concordou com a cabeça e um sorriso de volta enquanto terminava de arrumar suas coisas na poltrona. Em seguida, ela disse para a criança: “Filha, aí tá quente demais, deixe a mamãe colocar a sua mochila para você apoiar a cabeça”, disse ao mesmo tempo em que já fazia o planejado. Após aceitar a ideia, a filha fechou os olhos novamente, mas percebi que ainda estava ruim para a mãe ver a criança desconfortável para dormir.

Aquela mãe não se deu por satisfeita e vi uma das cenas mais inusitadas e doces dentro de um ônibus em toda a minha vida passageira de passageira. Sem a menor cerimônia, a mulher abriu seu guarda-chuva e o encaixou atrás da mochila de borboletas onde repousava a cabeça da filha para protegê-la do sol que invadia a janela. A criança abriu os olhos e perguntou: “Tem certeza, mamãe?”. “Claro, meu bem”, respondeu a mulher, finalizando um diálogo que parecia não ter acontecido pela primeira vez. A menina começou a dormir profundamente e a mãe se colocou a segurar o cabo daquele guarda-chuva alguns centímetros à frente de sua testa com olhos de determinação. Lembrei-me, automaticamente, da minha maravilhosa mãe.

Não resisti e olhei para aquela mulher querendo que ela me olhasse de volta. Ela me viu, e então eu sorri para ela com olhos de aprovação, que diziam: “Que mulher ótima você é”. Ela sorriu de volta com olhos de amor de mãe, que foram capazes de contagiar quem estava ali na frente. O cobrador ficou admirando aquela imagem por longos segundos e esboçou um sorriso, mesmo de boca fechada, orgulhoso de si mesmo por ter deixado a criança passar por cima da roleta minutos antes. No ônibus, já não fazia tanto calor: a ternura da cena levou uma brisa agradável para dentro do coletivo.

Durante aquela viagem, a mulher mal se mexia para evitar que o guarda-chuva deitado que ela segurava tão firmemente balançasse e atrapalhasse o sono da filha. Flagrei, algumas vezes, aquela mulher quase caindo no sono, o que não foi possível porque a magia da maternidade, que ela provavelmente adquiriu logo quando descobriu que estava grávida, lhe acordava a cada cinco segundos para que ela conferisse se estava tudo perfeitamente bem com a filha. É claro que estava.

Quarenta minutos se passaram e, então, desci do ônibus. A linda imagem de amor entre mãe e filha, que parecia uma pintura ensolarada de Monet, refletiu em mim ainda intacta. Caminhei pela calçada com um sentimento luminoso no coração e o desejo de ser, um dia, uma grande mãe como aquela.