A calcinha de Tereza

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Postado dia 31 de outubro de 2014 em Você é o passageiro
Passageira da vez: Sarah Donato
Idade: 25 anos
Profissão: estudante
Paixão: meus gatos
Assento preferido: em pé, no último vagão
Livro de janela: putz, são tantos…
Pensamentos passageiros: por que as pessoas não liberam o lado esquerdo das escadas para passagem? Será que é tão difícil?
Linha mais esperada: Metrô para Estação Águas Claras
O que mais detesto em andar de metrô: nada! Adoro!
O que me faz amar ser gente passageira: coletivo! Estamos juntos no mesmo lugar e pelo mesmo motivo! Chegar!!
 
Sarah Donato

Sarah Donato

A calcinha de Tereza

“Mais do que gente passageira, sou gente viajante! Ando de metrô todos os dias, mas sempre com outro meio de transporte junto – um bom livro. Pois bem, peguei o metrô em Águas Claras. Era mais um dia de sol escaldante na minha linda Brasília e, como de costume, fui em pé no último vagão. Meu destino? Rodoviária do Plano Piloto. Encontrei um lugarzinho para me segurar, o que nem sempre é fácil. Peguei meu livro da vez: “A Insustentável Leveza do Ser”. Embarquei em outra viagem, acompanhada de Tereza, a personagem do livro.

Bom, eu dificilmente sento no metrô, mesmo quando há cadeiras vagas. Não sei ao certo quando comecei a pensar assim, mas parto sempre do pressuposto de que alguém mais cansado do que eu vai embarcar na próxima estação e aproveitar a viagem sentado melhor do que eu. Mas nesse dia eu estava especialmente cansada. Eis que um jovem levanta e eu não resisto! Ufa! Que delícia sentar! Meus joelhos agradeceram.

Aliviada e contente, reabri meu livro. Tereza resolvera visitar o apartamento de um desconhecido, que adrenalina! De repente, sinto um desconforto. Sabe quando você sente alguém te olhando? Um passageiro em pé, ao lado da minha cadeira com os olhos vibrantes na pobre Tereza. Não o culpo, mas ele tinha que ficar de olho justo agora? Justo na hora em que o desconhecido tirava a calcinha de Tereza? Fiquei desconsertada. Nossos olhares se cruzaram. Eu sabia que ele tinha lido e ele sabia que eu tinha percebido. O que ele estava pensando de mim? “Humm, danadinha”. Fechei o livro de tanta vergonha. Resultado: passei o dia pensando na calcinha de Tereza.

Fui para o estágio, depois para a faculdade e o diacho da calcinha de Tereza não me deixava. Ela deixaria o desconhecido despi-la? Eles dormiriam juntos? Mas e o Tomaz, seu marido? Ah! Tereza, por que fez isso comigo?

Saí da faculdade e fui em direção ao metrô, louca para chegar em casa depois de um super dia! Lá para as 23h o movimento é bem menor nas estações, então consegui um lugarzinho bem sossegado, longe dos olhos curiosos. Fiz o ritual. Abri a mochila, peguei o livro, fechei a mochila, coloquei de volta nas costas e fui, com muita sede desvendar os segredos de Tereza! Finalmente!”

Você é o passageiro – Jacqueline Saraiva

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Postado dia 18 de fevereiro de 2014 em Você é o passageiro
Arquivo Pessoal

Jacqueline Saraiva

Passageira da vez: Jacqueline Saraiva
Idade: 29 anos
Profissão: jornalista
Paixão: natureza
Assento preferido: “o que fica atrás da cadeira alta. Escondido, ótimo para uma soneca.”
Livro de janela: “nenhum, porque ler no busão me dá enjoo.”
Pensamentos passageiros: “Eu tenho um sonho. E nesse sonho todas as pessoas têm cadeira acolchoada para sentar, com descanso para cadeira e barra para apoio dos pés.”
Linha mais esperada: 810 (Recanto das Emas – Asa Norte)
O que mais detesto em andar de ônibus: “a falta de zelo que algumas pessoas têm com o próprio corpo. Ou seja: bafão, suvaqueira ardida, cabelo com cheiro de mofo (há de tudo nesses ônibus).”
O que me faz amar ser gente passageira: “não precisar procurar vaga em estacionamentos.”
 

Violência, tartarugas e a Kombi

“A onda de violência que tem sido noticiada nos últimos meses assusta, e como assusta, os moradores da nossa cidade. Depois da famosa “operação tartaruga”, parece que tudo piorou. Ninguém tem sossego, todos duvidam de todos, todos têm medo de tudo e assim caminha a humanidade brasiliense. Fui testemunha disso esses dias…

Era sexta-feira de sol (de muito sol mesmo) e estava eu indo para casa no coletivo nosso de cada dia. Como é de praxe, liguei o iPod para não ter que escutar o rap que o DJ do ônibus insistia em fazer todo mundo ouvir, além de disputar “sonoricamente” o espaço com o cara da Manassés vendendo canetas, sacolas ecologicamente corretas e adesivos para ajudar na luta contra as drogas.
 
O que sei é que acabei cochilando, como é de praxe também. Em determinado ponto do trajeto rumo ao local de repouso das Rhea americana (Recanto das Emas, em latim…rsrsrsrs), ouvem-se tiros em sequência. Imediatamente, como me contaram alguns passageiros depois (porque eu ainda dormia como a Bela Adormecida), mulheres gritaram e até o cobrador do ônibus soltou um “Jesuis, que é que tá acontecendo?”. “É tiro!!” bradou outro. No intervalo entre uma canção e outra da Beyoncé é que acabei acordando e vendo a cara aterrorizada dos passageiros. Ainda sonolenta, também ouvi outros tiros e comecei a cogitar o que estava acontecendo. Mas, em questão de segundos, o veículo que conduzia os temidos atiradores ultrapassou o ônibus: era uma Kombi, velhinha, coitada, que a cada acelerada do motorista dava um pipoco alto, como se realmente fosse um tiro. Acho que foi um alívio para todos, até para mim, que fui acordada pela iminência da criminalidade que toma conta da sociedade (by Gabriel, o Pensador). Acho que nunca ri tanto na minha vida…