Precisamos falar sobre assédio no ônibus

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Postado dia 09 de setembro de 2013 em Você é o passageiro
Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

Quem conta a história desta vez: Isabella Corrêa
“As pessoas me conhecem como Isa, mas também sou Isabella Cristina Nascimento Corrêa. Tenho 23 anos, dos quais, boa parte levada pra lá e pra cá pelos ônibus da vida. Quando fiz 18, achei que finalmente poderia dirigir e esquecer as andanças embaladas pelos sacolejos dos coletivos. Mas, o medo do trânsito arrastou esse destino até… Hoje! Yey! Tirei a carteira de motorista! Porém, estou bem longe da independência que o carro proporciona porque o documento ainda não é o passaporte da alegria. Há muito caminho para superar até chegar lá. Além das viagens sobre rodas, me dedico ao jornalismo, ao desenho, à corrida e à vida.” Para conhecer melhor a Bella, navegue pelo Comer, correr, amar
Muitas coisas engraçadas já aconteceram comigo dentro de ônibus. Quando paro para falar sobre o que já passei nessas viagens da vida, sempre ouço histórias ainda mais loucas. Tem coisas que as pessoas contam que nem dá para acreditar. Já chorei de tanto rir com casos em transportes públicos. Hoje, no entanto, eu gostaria de falar de um assunto bem sério!

Um certo dia, há uns quatro meses, peguei um ônibus apressada, logo depois de sair da academia. Havia esquecido que precisava levar um contrato para ser assinado no meu novo local de trabalho. Entrei no coletivo toda afobada por quase tê-lo perdido, tentando guardar todas as coisas que ainda estavam em minhas mãos.

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Passei todo o trajeto escutando música e lendo um livro. Como de costume, me distraí e quase perdi a parada que deveria descer. Quando percebi que já estava chegando, novamente, me levantei apressada, procurando a cordinha para dar sinal ao motorista. Várias pessoas desceram comigo. Fui a última a sair. No exato momento em que descia, passou por mim um homem, que parecia ter lá seus 45 anos, vestido com uma roupa semelhante a dos empregados da própria empresa de ônibus. Enquanto o homem subia, nos cruzamos e ele disparou uma declaração constrangedora cheia de termos pornográficos. Fiquei tão estupefata que só consegui xingar quando o coletivo já estava longe, quase sumindo de vista. Depois pensei melhor e percebi que ele fez o tal comentário absurdo porque eu estava usando legging.

O que gostaria de falar é que, realmente, os ônibus são ótimos lugares para aprender, socializar, refletir, dormir, entre outras atividades, mas não devemos nos esquecer de que, infelizmente, ainda é um local considerado propício por muitas pessoas para cometer algum tipo de assédio sexual.

E a realidade pode ser ainda pior. Não consigo nem detalhar situações mais constrangedoras e tensas. Uma vez precisei encarar todo o trajeto de volta para casa com um cara se masturbando no último banco do ônibus.

Mas o que fazer? Se privar? É o que minha mãe e minhas amigas sempre falam: “não senta no fundo do ônibus”, “não vai voltar tarde”. O pior, além de tudo, é precisar pensar duas vezes antes de usar um tipo específico de roupa. “Vou voltar tarde e de ônibus, então nada de saia ou vestido”. Depois do episódio que relatei, nunca mais saí livremente de legging. Hoje, uso a peça, mas sempre com um short por cima ou com uma camiseta maior.

Todos sabem que esse tipo de situação acontece, e muito. O mais comum é quando o ônibus está lotado e muitas pessoas se aproveitam da situação para passar uma mãozinha boba ou roçar as pernas e otras cositas más nos corpos alheios. Acho que muitas pessoas fingem que não veem. Naquele dia, me senti meio sozinha e sem causa porque ninguém falou nada, ninguém viu nada.

Nesse momento, não consigo pensar em medidas para me proteger sem diminuir a minha própria liberdade. Se ainda não há nada que possa ser feito para que esse tipo de coisa pare de acontecer, que pelo menos paremos para pensar um pouco nisso. Acho que nada evolui muito bem sem debate e sem reflexão. Então, bom, vamos puxar umas cadeiras e falar mais sobre isso, que o assunto é longo e sério.”

** Para quem quer saber mais a respeito do assunto, Isabella (ou Bella) recomenda aos leitores a campanha “Chega de fiu-fiu”, que pretende combater o assédio sexual em espaços públicos. Ficou com vontade de conhecer? Acesse: http://thinkolga.com/chega-de-fiu-fiu/

E você? Já compartilhou sua história de ônibus? Escreva para o e-mail: gentepassageira@gmail.com

O peito do pé do Pedro está preto! E o meu também…

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Postado dia 15 de janeiro de 2013 em Você é o passageiro

…mas por que mesmo?

Quem conta a história desta vez: Hara Alcântara

“Minha vida é andar (de ônibus) por esse país”, cantarola Hara Alcântara, 21 anos, ao se descrever para sua história de ônibus. A jornalista é moradora da “bucólica” cidade de Luziânia e, segundo ela, busóloga por motivos de força maior. “Podia ter feitos muitas coisas da vida, mas decidi que queria ser jornalista. Nem a Viação Anapolina me fez mudar de ideia”, conta.

“E depois de um dia cansativo, chega o tão aguardado momento do banho…e, o meu peito do pé tá preto, mas por que mesmo?!

(Balão de flashback no ar…)

São 11h30 da manhã, preciso chegar ao estágio na Esplanada ao meio-dia. Atravesso a passarela que separa a Facitec da parada de ônibus do outro lado do Pistão Sul, em Taguatinga. Ando calmamente olhando a paisagem, estou exatamente no meio da pista e, “ai, meu Deus, o ônibus! CORREEEE!!!!!!”

♪tan, tan, tan tan tan tan, tan tan, tan tan tan♪

Musiquinha da São Silvestre de fundo e lá vou eu em direção ao ônibus coletivo parado logo ali. A fila está tão grande que sinto que vai dar tempo de chegar e embarcar. O outro deve chegar em dez minutos, mas já estou mais do que atrasada.

Corre, corre, corre, parada lotada em horário de pico. Estou quase lá, faltam exatos três passos para alcançar o ônibus e, [quase que em câmera lenta] eu dou mais um passo e sinto algo diferente vindo do chão. Meu pé direito está estranho, parece que está mais quente que o normal, eu olho…OMG (oh my god) isso é ASFALTO!!!!

Meu pé foi, mas o sapato ficou a dois passos atrás. O ônibus arranca, a fila já tá acabando. Pensa rápido: o sapato ou o ônibus, “ai, meu Deus, não dá para trabalhar descalço!”. Pega o SAPAAATOOO!

Volto disfarçadamente, seguro o sapato com a mão, viro a cara para o outro lado, [corre perigo de alguém me reconhecer no outro dia], vou correndo-mancando, mancando-correndo, [agora sei como os piratas se sentem]. A fila acabou, só três passos, o ônibus arranca novamente, faço sinal com o sapato na mão, a porta se abre. Entrei, que alívio!

Estou eu, encostada na porta, suada, cabelo despenteado, um sapato no pé, outro na mão, um livro na mão, um pé descalço, bolsa a tira colo, com casaco pendurado. Sinto o cheiro da marmita subindo [agora sei como fazer um bom fast food, ou seria fast foot?!], o motorista me olha com desdém, mas calço meu sapato, humildemente, e passo a roleta na santa paz do Senhor e torcendo para que ninguém me reconheça no dia seguinte.

… Algumas horas depois… Hum, agora lembrei por que o peito do pé está preto!

Quer mandar a sua história de ônibus? Escreva para gentepassageira@gmail.com