E você? Será que…?

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Postado dia 17 de março de 2014 em Conversas paralelas
Sarita González

Sarita González

“Gentileza gera gentileza” foi a famosa frase que vi estampada em uma parada de ônibus outro dia. Apesar de o ditado não ter sido escrito de modo muito gentil no local, quando vi aquilo, comecei a refletir sobre como o ônibus pode ser um espaço de atitudes generosas, e me lembrei de situações gentis que já vivi como passageira.

Uma delas foi num dia comum, assim que entrei em um ônibus que circulava pela W3 Norte/Sul, depois do trabalho. Ele estava cheio, lotado, cabia mais ninguém. Subi carregando bolsa, casaco, pasta e uma sacolinha com frutas. Preciso nem dizer que meu destino seria ir em pé. Só consegui andar um pouquinho depois da roleta e tive que ficar quieta, lá no início do corredor mesmo. Acontece que faltavam mãos para segurar, em movimento, tudo aquilo que eu carregava. Mas, “tudo bem”, pensei. No picadeiro do baú, eu sou equilibrista.

É comum que passageiros em ônibus lotados se deparem com a seguinte situação: a pessoa que está sentada se sensibiliza com a que está em pé e carregando coisas na mão (mochila, edredom, compras do supermercado, o que for) e se oferece para levar. Geralmente a que está sentada sorri para a que está em pé e diz: “Oi. Quer que eu leve pra você?”. Na maioria das vezes a sugestão é aceita e ambas as partes ficam felizes. Mas nem sempre é assim. Há quem fique se esfregando na pessoa que está sentada para ver se ela prefere segurar os pertences da que está em pé a ter que continuar levando bolsada na cabeça.

Para quem está em pé, chega a ser uma ofensa que ninguém que esteja sentado se ofereça para segurar suas coisas. Eu mesma já passei por isso várias vezes. Parava perto de uma poltrona esperando que alguém sugerisse levar minha bolsa, e nada. Daí eu acionava meu radar da gentileza e ia andando pelo ônibus à procura de alguém solidário. Nada. Já cansei de chegar até o final do ônibus depois de várias tentativas, sem sucesso. Não é todo dia que existe gente gentil perto da gente.

Opa! Gentileza! Ouvi uma vez um educador falando em um programa de televisão que a palavra “gentileza” vem de “gente”. É sobre isso que eu vou falar. Nesse dia, que já comecei a contar, ali, perto da roleta, e com dificuldade de equilibrar minhas coisas, um homem que estava sentado perto de mim me olhou. Em seguida, ele tirou o fone dos ouvidos como se fosse falar algo, mas, sem dizer nada, estendeu suas mãos em minha direção querendo enunciar a frase mágica “Oi. Quer que eu leve pra você?”. Não pensei duas vezes e fui logo entregando para ele minhas coisas, uma por uma, porque realmente estava difícil carregar tudo aquilo em um ônibus tão cheio, e eu, em pé.

Mas meu espanto foi quando, ao meu lado, em pé, um outro homem, de camisa social rosa virou para mim e disse de uma vez: “Se eu estivesse sentado, como ele, cederia meu banco para você”. Eu sorri, meio sem graça, como se agradecesse. Alguém pode até achar que aquilo não passou de uma cantada do homem, mas, realmente, acredito que não. Eu mesma já abri mão do meu lugarzinho quentinho no ônibus para oferecê-lo para alguém que estava em pé. Sobretudo aquelas pessoas que moram longe do terminal de ônibus, por exemplo, e que estão fadadas a ir em pé para o trabalho todos os dias. Já até matutei na minha cabeça uma forma de fazer uma escala e distribuir melhor as pessoas que vão em pé ou sentadas.

Aquele homem que disse que cederia o lugar para mim caso fosse ele quem estivesse sentado foi, simplesmente, gentil. Entendi que o homem sentado que se ofereceu para levar minhas coisas também foi, mas, será que ele não poderia ter feito mais do que aquilo? Será que eu também não poderia me colocar mais no lugar dos outros e pensar no quão cansativo foi o dia da pessoa que está em pé ao meu lado, no ônibus, e ceder meu lugar mais vezes? Por mais que a pessoa recuse, será que não vale a tentativa? E você? Será que…?

Dia desses, esse assunto veio à tona numa conversa de trabalho com duas colegas. Contamos histórias que vivemos dentro de ônibus em torno desse assunto e acabamos debatendo sobre a questão de pessoas que estão sentadas oferecerem seu lugar para as que estão em pé. Acontece que uma disse achar que somente os homens devem se levantar para as mulheres. Já a outra acha que todo mundo deveria se levantar para todo mundo, não importa o gênero da pessoa. Enquanto a primeira argumenta que os homens são mais fortes do que as mulheres e, por isso, aguentariam melhor uma viagem de ônibus em pé, a outra considera que ambos são iguais e não se pode medir o cansaço ou fraqueza da outra pessoa. Sendo assim, mulheres também poderiam se levantar para homens dentro do ônibus.

Concordei com a segunda, mas sem querer me expressar demais durante o debate, pois queria ouvir as opiniões delas como passageiras. Enquanto falavam, pensava nesse post e em perguntar para você, leitor (a), o que acha disso. E aí? Vamos para a enquete? No ônibus, você acha que só os homens devem ceder o lugar para as mulheres? (responda no campo “Enquete”, no canto direito do site).

Termino dizendo que, para mim, um ato de gentileza vem do coração. É como deixar alguém passar na sua frente na fila do banco porque você sentiu vontade de ajudar a pessoa a resolver a pressa dela. É dar passagem para outro carro no trânsito porque ele pode estar mais em apuros do que você. Enfim, é colocar o outro na frente e querer que ele se sinta bem sem pensar no que você poderia receber em troca. É ser gentil. Ser gente. Gente, independente de ser homem ou mulher.

A vida é cheia de injustiças e decepções, infelizmente, mas continuo acreditando que, quando fazemos algo bom para outra pessoa com sinceridade, a vida sorri para nós. E, quando tal atitude ainda é vista, sem pretensão, por outras pessoas, elas se inspiram e tendem a repetir aquilo quando acontece com elas.

Torço por ônibus com mais passageiros que se ofereçam para levar as coisas de quem está em pé ou que até cedam seu lugar para um (a) desconhecido. Torço por um mundo com mais gentileza.

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  1. Camila
    18/03/2014

    Com todo respeito do mundo, mas a sua amiga está completamente equivocada em falar que homens devem ceder lugares para mulheres. Gente, todo mundo é igual. Cada pessoa é diferente uma da outra. Eu sei lá se esse cara trabalhou em pé o dia inteiro, tem um problema no joelho, ou algo do tipo… só por eu ser mulher, independente da circunstância, eu mereço esse lugar? Não. Não mesmo. Acho válido ceder lugar para algumas pessoas, não costumo fazer isso, a não ser que sente ‘ilegalmente’ no banco dos preferenciais e entre algum no ônibus. Mas gostei da reflexão sobre gentileza, Sarita. Bjs.

    • Camis!! Obrigada por deixar sua opinião, concordo com ela. Mas é interessante quando nos deparamos com pensamentos divergentes, pois eles ajudam a gerar discussões como esta, né? Adoro te ver por aqui! Beijos, linda!