O peru no colo do homem

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Postado dia 23 de novembro de 2012 em Micro-micos

Esse dia já faz uns dois anos. Naquela época, grande parte da minha vida estava no Plano Piloto, a 25 km de onde eu moro. Um dia antes dessa história acontecer, havia recebido dois perus de Natal como cortesia para os funcionários da empresa na qual ainda trabalho. Na época eu era estagiária, e fiquei toda empolgada quando vi o caminhão de entrega no estacionamento da empresa. Logo me disseram: “Ei, hoje é dia de entregar o peru de Natal”. Quem é que não gosta de ganhar presente?

Após deixar minha bolsa na sala onde trabalhava, fui com outras estagiárias até uma fila que se formara para receber os tais perus natalinos. Bastava mostrar o crachá, agradecer e retirar o presente. Comemorei e saí com as duas mãos ocupadas com quilos de comidas bem congeladas. Mas, antes, um aviso do entregador: “Olha só, moça. Esses alimentos só podem ficar até 12 horas fora da geladeira, ok?” Concordei. O que eu poderia dizer? Acontece que, naquele dia, eu já tinha combinado com as outras estagiárias, minhas amigas até hoje, que, após o expediente, dormiríamos na casa de uma delas após uma noite de produção e festa de um prêmio de jornalismo. Aqueles perus, portanto, que estavam sob minha guarda, começaram a me preocupar. Porém, assim que cheguei na casa da amiga, fui logo guardando os perus, juntamente com os que elas tinham ganhado, no congelador. Queria me certificar de que eles ficariam bem geladinhos e conservados.

Nos arrumamos como três peruas, fomos para a festa e nos divertimos como jovens pré-adultas merecedoras de vida. No início da manhã do dia seguinte, carreguei os perus comigo e fomos de carro para mais um dia de estágio. Assim que cheguei na minha mesa, repousei as sacolas térmicas com os ditos cujos no chão e trabalhei normalmente. Havíamos dormido muito pouco, os efeitos das bebidinhas falavam alto e eu não via a hora de chegar em casa e dormir como se não houvesse amanhã.

Ok, mas o que essa história toda tem a ver com ônibus? Lá vem: saí do trabalho carregando guarda-chuva, pasta, bolsa e, é claro, os perus nas mãos. Como se não bastasse, ainda levava no meu corpo um cansaço jamais antes sentido e comecei a idealizar a poltrona do ônibus. Na parada, as pessoas me olhavam estranhamente, afinal, não é todo dia que se vê pessoas carregando perus em sacolas vermelhas por aí. Eu lutava por eles, pois queria aproveitar aquele presente tão irreverente.

Chegou o coletivo. Não perdi muito tempo escolhendo onde me sentar, então fui logo para o lugar que fica abaixo do cobrador, lado da janela. Repousei no meu colo todas as tralhas que carregava e tive o maior cuidado com os perus, é claro, que ganharam lugar especial nas minhas pernas. O ônibus andou poucas paradas até que entrou um homem de calça e jaqueta jeans que se sentou do meu lado após, gentilmente, pedir licença. Essa é a última lembrança que tenho antes do desfecho trágico.

Não costuma acontecer comigo, mas, quem aí nunca babou no ombro de um desconhecido no ônibus? Nesse dia, fiz pior. Estava tão cansada dos dias anteriores extremamente movimentados que simplesmente havia apagado de tanto sono. Acordei assustada e, quando dei conta de mim mesma, estava praticamente abraçando o cara com visual de Roberto Carlos à la Jeans Forever. Olhei para ele, nossos olhares se cruzaram, mas vi que seu rosto guardava um pouco de desconforto. Resolvi acordar de vez, ajeitei a postura, mas o pior ainda estava por vir. Olhei para o meu colo e um dos perus não estava mais lá. “Minha Nossa Senhora”, falei em voz alta. Lembrei o que o entregador do caminhão de perus natalinos havia me alertado sobre o descongelamento do bicho e, imediatamente, olhei para a calça jeans do homem que estava simplesmente EN-CHAR-CA-DA com a água do peru. Não exatamente do peru, mas do gelo da bolsa térmica que o conservava. Peguei rapidamente o peru no colo do homem (não é nada disso que vocês estão pensando), o peru certo, o meu peru (de Natal) e o transferi para o meu colo. A perna direita do homem estava molhada e eu, completamente sem graça. Olhei para ele e só saiu um “Meu Deus, me desculpa, eu dormi”. Para mim, era o fim do mundo. “Fala sério, Sara! Além de dormir no ombro do cara, ainda derruba uma cachoeira na perna dele?!”, queixei comigo mesma. Inacreditavelmente, fui correspondida com um “Eu vi. Não quis te acordar e, chegando em casa, já vou trocar de roupa mesmo…”. E sorriu, surpreendentemente.

Não sei se era a magia do Natal chegando, mas fiquei tão aliviada com aquela gentileza que os perus podiam até não suportar o descongelamento. O importante foi que brindamos com sorrisos de quem vê a vida com leveza mesmo quando se destrói icebergs.

Deixe um comentário em "O peru no colo do homem"
  1. Hellen Leite
    23/11/2012

    hahahahahaha
    Ótima história Saritaa!!

  2. Fernanda Faleiro
    23/11/2012

    Sarita, nem te conheço mas me divirto MUITO com as suas histórias!!!

    • Eba, Fernanda! Sério? Se você anda de ônibus, manda suas histórias pra cá também! Feliz que tenha gostado!

  3. Camila Griguc
    23/11/2012

    HAHAHAHAHAHAHAHA gente legal atrai gente legal. Com certeza eu na sua situação teria levado um soco na cara Sarita! Obrigada por me lembrar de pedir pro meu pai me buscar no dia da cesta de natal aqui da empresa, linda! <3

  4. VÉI. SIMPLESMENTE A-M-E-I!!!!! Você me passou a impressão de que foi uma época muito tranquila e divertida. Espero que tenha sido mesmo! Amei kkkkkkkkkk!

    Só uma observação: aqui seria “cara”? “estava praticamente abraçando o caro com visual de Roberto Carlos à la Jeans Forever”

    BJO LINDA

    • Isso, Bebella! Valeu! Já corrigi lá, muito obrigada! O teclado do meu pc é meio machista, ele sai trocando “a” por “o” sem mais nem menos. Tu se atentou por causa do “Esse cara sou eu” do Roberto Carlos, né, bandidinha? Hahaahahaha. Beijos, gatona!

  5. Lucas
    28/01/2013

    Parabéns “Clarita”. Você é ótima para contar histórias. Dou boas risadas no seu site.

    • Que bacana, Lucas! Fico muito feliz em saber! Continue acompanhando e rindo sempre! =D