Queda no zebrinha e as inevitáveis freadas da vida

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Postado dia 19 de fevereiro de 2013 em Micro-micos

Sarita González

A vida é uma sequencia de quedas. Todo dia a gente cai, e cabe a nós mesmos decidir se vamos nos levantar ou não. Na vida de passageiro(a) de ônibus, acontece da mesma forma. O ônibus quebrou no meio da BR? Encare a longa espera de outro para seguir viagem. Afinal, você não pode simplesmente desistir de chegar ao seu destino. Entrou no ônibus e não restava sequer um lugarzinho para você se sentar? Posicione-se alegremente, por mais que doa, em frente à janela que possa te mostrar o melhor que há lá fora. Caso contrário, será tempo desperdiçado reclamando da má sorte por ter de ir em pé. Sim, a vida tem seus obstáculos onde tropeçamos todos os dias. Os ônibus também têm.

Era sexta-feira e eu tinha acabado de sair do trabalho, lá por volta das 20h30, com uma amiga. Como de costume quando se trata desse dia da semana, a rua estava bem deserta. Na cidade, as pessoas deviam estar se arrumando para ir a festas, shows, bares, cinema ou qualquer lugar divertido. Pra mim, o ponto alto daquela sexta-feira seria chegar em casa, fazer uma comidinha gostosa e ficar com as pessoas que amo em clima de tranquilidade. Era tudo o que eu queria e pensava não estar exigindo demais. Estava rindo e conversando com minha amiga e atravessamos lentamente duas pistas para chegarmos até a parada de ônibus. Pegaríamos coletivos diferentes, e achei uma delícia ter companhia para esperar o coletivo. Assim que chegamos, em questão de segundos, veio vindo o zebrinha que me levaria até a W3 Sul para que eu pegasse o segundo ônibus da noite.

Lembro-me de que ria por dentro na esperança de que aquela semana cansativa de trabalho chegaria ao fim. Para melhorar a situação, eu não estava de plantão no sábado e domingo seguintes. Tudo estava perfeito. Mas foi o que eu disse. Pra vida, não tem tempo ruim. Aliás, quando o tempo está bom, aí é que ela te puxa, te sacode e te mostra “ei, as coisas não são tão equilibradas e tranquilas como parecem”. E foi o que aconteceu. Acenei para o zebrinha, dei um beijo de tchau na minha amiga e me posicionei para entrar no coletivo. Que venham os parênteses: (Eu odeio zebrinhas. Assumidamente, odeio zebrinhas. Poderia muito bem mandar fazer uma camiseta com essa frase escrita. Poderia fazer campanha nas redes sociais pelo fim dos zebrinhas porque acho que eles colocam em risco a paz de passageiros, motoristas e do trânsito. Para quem não sabe ou nunca andou de zebrinha, esse coletivo típico de Brasília dispensa cobrador. Por isso mesmo, o motorista do zebrinha tem que se desdobrar em mil para dar conta de tudo. Chegou na parada, ele espera o passageiro entrar, recebe o dinheiro da passagem – que custa R$ 2 -, libera a roleta e volta a dirigir. Acontece que tem passageiro que dá nota de R$ 20, por exemplo, um dos motivos para confusão. E quando entra um montão de gente no zebrinha ao mesmo tempo em que tem um montão de gente tentando sair? Só uma porta, gente. Daí, os passageiros incomodados que evitem).

Se eu odeio tanto zebrinhas, então por que entrei? É difícil encontrar ônibus na sexta-feira de noite, em Brasília. Não dê sorte ao azar, portanto. Era a minha intenção. Mas meu destino já estava selado, não teve jeito. Entrei. “Boa noite, tudo bem?”, disse para o motorista-faz-tudo. “Boa noite pra você também, moça”, ele retribuiu alegrinho. Tinha acabado de tirar o dinheiro da carteira, que estava meio aberta e me posicionei na roleta para a travessia do sucesso. Olhei nos olhos de umas sete ou oito pessoas que estavam sentadas nos bancos daquele coletivo e o motorista arrancou. Foi a última imagem antes da inevitável tragédia. Não havia dado tempo para passar pela roleta e, de repente, uma freada brusca: “YIIIIIIAAAR, PUF!” (bela onomatopeia).

Pausa dramática.: “Onde estou? Quem sou eu? Por que comigo?” foram as perguntas que passaram pela minha cabeça repousada no chão. Sim, eu caí. Caí feio que nem uma estátua com a cabeça no motor do zebrinha. Caí retinha, retinha, retinha, com as costas no chão. Minha carteira foi parar lá no pé do motorista. “Que beleza, Sarita. Que noite linda, era tudo o que eu queria”, refleti, indignada. “Moça do céu, você tá bem? Quer ajuda? ÊÊêêê, filho da p…, seu barbeiro!”, foi o que eu ouvi do motorista em meio a buzinadas dele e do motorista do carro que fez barbeiragem logo ali. “Peraí, moça. Vou te ajudar, tá? Ô, gente! Olha só o que aconteceu..! Ai, a gente tenta dirigir certinho, respeitando todo mundo, daí vem um babaca desse e invade meu lado… Você me desculpa, moça? Tive que frear daquele jeito pra evitar algo pior..!” Eu parecia uma planta. Estava difícil de me mexer. Sentia o cóccix e a cabeça doendo. “Quer que eu te leve para o hospital? Só vou deixar essas pessoas no Pátio Brasil e te levo”, ele disse. Achei bacana a atenção dele comigo e a vontade de ajudar. “De boa, motorista. Tá tudo bem. Já vou me levantar.” E foi o que eu fiz, em câmera lenta. Quando o corpo se alongou por inteiro, pensei: “Caramba, que dor!”.

Catei minha bolsa e minha carteira, me posicionei na roleta e quase voltei a me deitar no chão quando olhei para a cara dos passageiros que estavam depois dela. Uns estavam com cara de preocupados, outros com pena. Alguns esboçavam um risinho inevitável. Outros sequer me olhavam para não cair na gargalhada. “Que droga! Que vergonha! Será que quebrei alguma coisa?”, pensei. E fui logo tratando de me sentar ali na frente para evitar maiores constrangimentos. Quando sentei, quase pensei em ficar em pé novamente. É que a dor era tão forte que o bumbum parecia não aceitar muito bem o banco.

De lá, ainda fui para outra parada e peguei ônibus para Sobradinho. Uma hora depois, eu estava em casa. Diferentemente do que eu havia programado, a noite terminou no hospital, onde tive de fazer exames e tomar umas injeções. Nada grave, apenas um grande susto.

Pois é. Vida de passageiro tem dessas coisas. Se você der mole, pode perder a viagem. Menos mal que é como na vida: sempre vai ter alguém para te estender o braço nem que seja para te deixar um pouco melhor e você saberá, mais cedo ou mais tarde, como arrancar forças para se levantar de novo.

Veja outro episódio em que me machuquei em:

- “A caminho da parada, maçãzada na cabeça”

Deixe um comentário em "Queda no zebrinha e as inevitáveis freadas da vida"
  1. Camila Griguc
    19/02/2013

    Ai que alegria, meu bloguinho do coração voltou. Demorou viu? Haha. E eu também odeio zebrinhas. Acho que pessoas grandes, altas demais ou gordinhas se sentem extremamente desconfortáveis lá dentro! E eu nunca tenho dois reais trocados. Enfim, não curti esse post, achei ruim você caindo… mas acontece, né? Beijos.

  2. Pili
    19/02/2013

    Linda!!! Como você escreve bem :D Adorei as analogias hehehe Amo você, maninha! :**

  3. FADA BELLA
    01/03/2013

    Tirando o desfecho, adorei tudo. “Lembro-me de que ria por dentro na esperança de que aquela semana cansativa de trabalho chegaria ao fim”

    que nostálgico <3

    • Que linda, você! Lembra desse dia, né, Bella? O tombo foi tão ridículo! Ainda bem que você não viu da parada. Impossível não rir! Hahahaha! <3

  4. Hara Alcantara
    13/03/2013

    Nossa, Sarita, também odeio zebrinhas, o pior eh que nunca sei pra onde elas vão. A ideia da camiseta eh interessante, hahaha #apoiado. Pra vc não se sentir triste sozinha, tbm já levei um tombo no ônibus uma vez. Fui pegar um ônibus pra faculdade depois do trabalho. O uniforme da empresa exigia o uso de salto alto. Daí estava eu dentro do ônibus, com 1,72m de altura, mais um salto de uns 10cm, somados a minha falta de desenvoltura…me encostei na roleta pra pagar a passagem (não sei se sabe, mas em um país chamado Goiás as catracas não têm travas…), estava puxando assunto com o cobrador quando o motorista arrancou…só senti o chão do meio do ônibus no meu rosto. O cobrador foi me ajudar, sentei num cantinho e fiquei até a hora de descer, nem olhei pra trás. A sensação de cair como uma planta eh única, me senti uma palmeira no desmatamento… Pouco tempo depois repensei minha vida, pedi demissão e nunca mais peguei esse ônibus…hahaha #comoetristeavidadopobre…

    • Caramba, Hara! Que história maluca! Vai ver, não era pra ser. Há tombos que vêm para o bem! =D