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De passagem no busão

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Postado dia 22 de fevereiro de 2016 em Micro-micos, Você é o passageiro
Giulia Batelli - Arquivo pessoal

Giulia Batelli – Arquivo pessoal

Passageira da vez: Giulia Batelli

Idade: 25 anos

Profissão: estudante

“Quase não ando de ônibus, mas, quando ando, meu maior prazer é puxar a cordinha para descer.”

“Saí da última aula do dia e mandei mensagem para o meu irmão, que iria me buscar. Estava sem carro e, como ele trabalha próximo à Universidade de Brasília, onde estudo, ofereceu carona e me pediu para esperar na parada de ônibus da lateral do ICC Norte, pois o trânsito que forma nos pavilhões é sempre intenso no fim das aulas. Caminhei em direção à parada e fiquei animada ao ver que estava vazia e eu teria um lugar para me sentar. Coloquei meu fone de ouvido e pus para tocar o novo CD da banda Passion Pit. Estava completamente entretida, quando um ônibus parou em frente a mim. Como só tinha eu na parada, olhei para o motorista e, instintivamente, sinalizei com as mãos que eu não iria embarcar e, ainda, sorri e agradeci levantando o polegar direito. Fiquei encantada com a atitude. Aliás, eu poderia ser uma pessoa desatenta à espera de um ônibus. Alguém que precisaria esperar mais algum tempo até que outro passasse. Mal me comuniquei com o motorista e a porta traseira abriu passagem para duas pessoas descerem. Sem graça, desviei o olhar e procurei agir com a maior naturalidade. Refletindo sobre a minha pouca experiência com ônibus, me lembrei de que quem sinaliza é o passageiro, e não o motorista.”

As várias janelas do ônibus

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Postado dia 01 de fevereiro de 2016 em Eu na história
Crédito: Sarita González

Crédito: Sarita González

Andar de ônibus é uma viagem solitária e coletiva. Se sozinho (a), há a janela para repousar a cabeça, que deixa entrar pensamentos, ideias e lembranças. Tenho uma relação íntima com a janela do ônibus, de modo que tomei muitas das maiores decisões da vida com a cabeça encostada nela: pedir perdão para uma amiga; trocar de curso; sair do emprego; terminar um longo namoro; mudar de ideia e dizer ‘volta para mim, só posso amar você’. Eu e a janela do ônibus: a gente. Ela me mostra o mundo lá fora, e também a mim mesma.

Mesmo quando estou em pé no ônibus, com as mãos firmes nas barras superiores ou nos encostos dos bancos, acabo me encontrando com a janela. Ela não foge de mim, nem eu dela. Lá estou eu, outra vez, sozinha, me olhando. Tento reparar nos prédios, nas árvores, nas paradas de ônibus lá fora que passam rapidamente pelos meus olhos. Mas, no meio da contemplação, o reflexo me mostra para mim mesma e me dou conta de que estou lá. Meu corpo, meus cabelos. Minhas fraquezas e finitude. E então volto meu olhar para os passageiros. Sempre achei que me enxergo melhor observando os outros. Afinal, olhar ao redor é o que revela os sentimentos mais bonitos que guardo dentro de mim.

Quando se anda de ônibus de forma verdadeiramente coletiva, o fascínio é ter passe livre para observar não mais a si mesmo (a), mas todo o tipo de gente. Histórias que se revelam sem qualquer esforço. E a solidariedade que há entre os passageiros! Sentir-se parte de algo, aquilo que se busca o tempo todo na vida. No ônibus, há uma coisa linda de se ver: a cumplicidade entre as pessoas. Parece haver um sentimento coletivo de gente que anda de ônibus. Uma solidariedade entre pessoas que pagam o mesmo valor da passagem, mas que viajam em dois times: o dos que vão sentados e o dos que ficam em pé, a depender da sorte do dia. E então, quando o passageiro que não conseguiu se sentar se aproxima de outro que tem um lugar, presencia-se um momento em que o mais sortudo pergunta para o outro: “Quer que eu leve suas coisas?”. Pode parecer besteira, mas não é. As pessoas geralmente estão cansadas do dia cheio de trabalho e estudo. Ter alguém que ajude a carregar seus pertences certamente melhora a rotina. E então a pessoa responde “sim, muito obrigada”, acompanhado de um sorriso sutil.

Mas o que mais me encanta nesta troca é a intimidade do momento. Outro dia eu estava sentada no ônibus e me ofereci para segurar a bolsa de uma mulher que estava em pé. Assim que peguei a bolsa, já não parecíamos ser totalmente estranhas uma para a outra. Fiquei pensando sobre a origem daquele objeto. Pode ter sido um presente muito especial do (a) namorado (a). Ou ela pode ter juntado dinheiro para comprá-la depois de muito esforço. E comecei a imaginar o que havia dentro dela. Os documentos que contam a história daquela mulher. O dinheiro suado para pagar o aluguel e comprar comida para as crianças. Um amuleto, talvez. A foto 3×4 de alguém especial naquele bolso pequeno da carteira. Um papel dobrado com um segredo. O telefone que ela usa para conversar com as pessoas que ama. Quando chegou a hora de ela descer do ônibus e me disse “obrigada”, reparei que, inevitavelmente sua mão encostou em mim. E então eu senti o calor de uma pele que não a minha. Outra textura. Outro aspecto. E pensei que aquela pele faz parte de uma pessoa cheia de histórias, de experiências, de sofrimentos, de virtudes, de paixões. E quando lhe devolvi a bolsa entreguei também um sorriso dizendo “de nada”, e pensando no quão sortuda eu sou ao andar de ônibus e conhecer pessoas diferentes todos os dias. Sortuda por senti-las e por ter janelas de vidro e janelas de almas. E sortuda por fazer parte dessa experiência de viajar, ao mesmo tempo, sozinha e coletivamente.