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Corra, mulher, corra

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Postado dia 03 de março de 2015 em Eu na história, Micro-micos

A rotina nunca pode ser tão tensa que nada possa quebrá-la com uma gargalhada. Que assim seja. Naquele dia, eu acordei atrasada para ir ao trabalho, e tive de descer minha rua às pressas para ir até a parada de ônibus. Estava meio frio, meio querendo chover. Coisas de Brasília. Para me prevenir, peguei no armário um casaco branco bem quente e pesado, com zíperes dourados, e o carreguei em meu braço direito. Era um casaco de capuz, mas tirei-o. Também não era para tanto.

Desci correndo. Praticamente saltei um quebra-molas. Não contemplei a inocência das crianças que brincam na escolinha que fica na minha rua, como de costume. Cheguei ao ponto de atravessar a pista, então olhei para um lado e para outro a fim de seguir com a caminhada que me levaria até a parada de ônibus.

Dali até a tal parada são uns 30 ou 40 passos. Acontece que, quando cheguei no início dessa caminhada em linha reta pela calçada com graminha, vi que o ônibus virava a curva lá do terminal, que fica depois da parada. Eita, que nessas horas a gente só pensa em “run, baby, ruuuuun”. E dá-lhe Sarita começando a correr desesperadamente para pegar o ônibus parado. Carregava uma bolsa no ombro esquerdo e, no meu braço direito, ainda estava meu casaco branco e pesado, e que virou a polêmica dessa história.

O que tem de polêmico um casaco carregado no braço? É que, no momento em que tirei o capuz dele, a parte da gola do tal casaco fez um desenho perfeito de uma cabeça, bem contornadinha. E o casaco era pesado. Era branco. E eu o levava no meu braço direito. Bem, olhem só o que aconteceu: corri, corri, corri… Vi que o ônibus ia parando na desejada parada. Pensei: “ok, não vou pegá-lo na parada, mas, de longe, o motorista deve estar vendo meu desempenho na corrida, minha dedicação. Não é possível que não pare para mim!”

Ainda faltavam alguns passos, e eis que vem vindo em minha direção uma mulher de uns 40 e muitos anos. Ela vinha andando, mas, em algum momento, veio correndo até mim com a testa franzida e cara de desesperada. Não tive tempo de pensar nada a respeito disso, pois meu foco era “corra, lola, corra”. E, então, a mulher veio ao meu encontro gritando “calma, moça, calma”. Olhei para trás para ver se não era comigo, mas era comigo, mesmo. Parei de correr, assustada. Ela estava a poucos passos de mim, foi desacelerando, colocou a mão em meu casaco, suspirou, parou também e disse: “NOSSA, MOÇA, QUE SUSTO! ACHEI QUE VOCÊ ESTIVESSE CARREGANDO UM BEBEZINHO NO BRAÇO E CORRENDO ASSIM, COMO UMA LOUCA!”.

Eu queria tanto pegar aquele ônibus, que só pude dizer rapidamente “né bebê não, senhora. É meu casaco”. O ônibus se aproximou, o motorista teve pena de mim, e parei de correr. Eu ainda estava séria, suando, bolsa e casaco nas mãos. Entrei, dei “bom dia” e “muito obrigada, motorista”. Sentei-me em meu assento favorito. Não pude conter uma longa gargalhada, incrédula daquela abordagem de uma desconhecida. Uma mulher que me fez parar de correr porque achou que eu carregava um bebê no colo perigosamente. Bem, depois percebi que parecia, mesmo. Que legal da parte dela, pensei. E que loucura. Mas ai dela se eu tivesse perdido aquele ônibus. Até parece.

A propósito, minha filha vai se chamar “Lola”. E tomara que ela nunca tenha que correr tão desesperadamente quanto eu naquele dia ou como a Lola do filme. Mas espero que ela sempre tenha sorrisos inesperados para quebrar qualquer rotina.

Derretida pela Promessa no ônibus

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Postado dia 25 de fevereiro de 2015 em Conversas paralelas, Você é o passageiro
Iasminny Thábata

Iasminny Thábata

Passageira da vez: Iasminny Thábata
Idade: ​24​ anos
Profissão: ​analista de BI, Jornalista freelancer.​
Paixão: ​viagens, livros e boas histórias​.
Assento preferido: ​na primeira cadeira atrás do banco alto, no fundo do ônibus, ao lado da porta de saída.​
Livro de janela: O atual​ – Meio Intelectual, Meio de Esquerda, dAntônio Prata. ​​
Linha mais esperada: ​306, Taguatinga Sul – Rodoviária do Plano Piloto.
O que mais detesto em andar de ônibus:​ a espera e a incerteza constante de que ele vai passar, e se vai passar na hora. Na chuva, o clima denso e abafado dentro do busão.
O que me faz amar ser gente passageira:​ o tempo para pensar na vida, nos problemas, ler e fazer anotações.

“Hoje, chorei. Primeiro por dentro, depois, derretida – enquanto o ônibus atravessava a Estrutural, a 80 quilômetros por hora, sem me deixar ver direito o motorista do carro ao lado. ​Tentei focar a visão para dentro do coletivo e não pude realmente entender o gosto da balinha vendida, nem o discurso das doenças e das dificuldades de saúde da esposa do vendedor. Filha? Era manhã, mas nublavam-se o céu, e meus olhos.

O motivo era o Prata, como usual nos últimos dias.

​Em formato de presente com dedicatória de um eterno amigo, o Antônio do livro foi o escolhido para me acompanhar nas viagens da semana. O selecionado dentre o calhamaço de opções literárias: deixei Tolstói de lado por ele, e no meu banco predileto, ao lado da porta traseira, sozinha, chorei. ​

Pelas linhas da ‘Promessa’ – este é o nome da crônica, eu me alimentei de cada sílaba com muita imaginação e respeito, e com muito carinho pela situação tão corriqueira daquelas linhas – um encontro num bar como aquele que tive semana passada com amigos tão semelhantes aos descritos. Não é um texto triste, portanto, mas muito poderoso por avisar aos leitores desavisados que a felicidade – tão querida e almejada, não acontece apenas porque chegamos em algum ponto.

Nem a felicidade, nem o amor.

A promessa, a expectativa e a busca corrente são as únicas coisas que podemos esperar e ter como certas. Não é simplesmente irônico isso? Ter a certeza apenas de que nada passa de promessa. É quase antagônico entender esse enlace de opostos, a certeza de uma promessa.

Não houve beijos, nem despedidas que justificassem racionalmente minha lagrimazinha no fundo do ônibus, mas ao ler um agradecimento à Vida ao que não passava de um “presente ambíguo: uma possibilidade de amar”, entendi que dentre as vírgulas que costumo rascunhar, a Vida é linda, gente.

Sentada, confortavelmente como dava, com o transporte com lugares vazios, fechei o livro ainda marcando a página com os dedos. Prata me dizia claramente (inspirado por Caio Fernando Abreu) que a ‘única felicidade possível é a promessa de felicidade’, a promessa de quando conhecemos alguém ao virar a esquina. Da promessa do inesperado – que é certo, eu adicionaria.

Daí veio a onda quentinha sob o óculos. Primeiro interna, com o caso de amor contado; depois na pálpebra, ao reler a perda de fome descrita pelo narrador ao final; e, ainda após: racional, ao voltar naquele parágrafo que diz como a gente comumente ‘inflaciona a felicidade em outdoors e campanhas…’ E me ocorreu, secando com indicador o choro teimoso e fino, que a vida apenas pode entregar possibilidades de inquestionável potencial. Inquestionável poder enquanto viajamos menos velozes que os carros. E daí chorei, derretida.”

Iasminny Thábata