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Ouvindo Chrystian & Ralf com um estranho

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Postado dia 04 de dezembro de 2014 em Histórias do baú, Micro-micos
Sarita González

Sarita González

  Morro de ansiedade pelo momento de entrar no ônibus. Chego a ficar contrariada quando alguém me oferece carona se eu desejei o dia inteiro passar pela roleta e aguardar uma surpresa da vida, ver passageiros diferentes ou simplesmente deixar o pensamento fluir na janela. Acontece sempre, mas, nesse dia, tudo o que eu queria era ser teletransportada para casa o mais rápido possível. De ônibus, seria difícil.

Era sexta-feira. Eu realmente estava muito cansada e comemorei quando meu noivo me ligou oferecendo carona para voltar para casa. Mas não consegui sair do trabalho a tempo e acabei tendo de recusar minutos depois. De fato, naquele dia, preferia ter ido de carro, mas sou gente passageira e não posso fugir disso, pensei.

Caminhei sem pressa até a parada, como se esperasse uma nuvenzinha do Mário Kart me ajudar. Quando finalmente o ônibus chegou, quase chorei de tristeza ao ver que ele estava lotado. LO-TA-DO. Paguei a passagem e me posicionei ao lado de uma passageira sentada logo abaixo do cobrador. Ela se ofereceu para carregar minha mochila pesada e isso já estava de bom tamanho.

Foi o tempo de o ônibus andar duas quadras na W3 Norte para eu agradecer aos céus e às nuvens solidárias do Mário Kart pelo fato de ter perdido a carona do meu noivo mais cedo. Sentados perto de onde eu estava, um homem magro, de camisa rosa choque, e uma mulher de olhos verdes se acabavam de tanto rir durante a viagem. Ele não parava de lhe contar piadas. Pareciam ser muito amigos. Durante a viagem, conversaram e até tentaram fotografar a lua cheia, lá fora, mas não conseguiram.

Gaiato, o homem comia um biscoito que se esfarelava. De repente, o ônibus deu uma freada brusca e a comida dele foi parar no meu pé. Nesse momento, olhei para ele, ele olhou para mim. Foi nosso primeiro contato visual. Também gaiata, sorri. Ele devolveu. Comecei a escutar as conversas aleatórias dos dois, e me divertia com aquilo. Quando a amiga do homem sorridente desceu do ônibus, o lugar ficou vago e eu, que estava em pé, agradeci à moça que segurava gentilmente minha mochila e me sentei ao lado dele, que pulou para o assento da janela. Fiquei no banco do corredor.

Sorridente, gaiato, inquieto. Com as pernas balançando ligeiramente como se estivesse prestes a começar uma difícil prova de física 2, ele cantava uma música bem baixinho enquanto olhava para vários lados do ônibus. “Nossa, querida, sabe essa música que eu tô cantando? É do Chrystian & Ralf”, abordou-me. Sorri, como se dissesse “que legal”. Continuou inquieto, cantando. “Seu celular tem internet? Hein? Tem?”, perguntou-me. Não tinha a mínima ideia da relação entre uma coisa e outra, mas ele disse em seguida: “Vou te mostrar que música é essa que eu tô cantando. É a minha música preferida na vida. Coloque aí no seu celular. Abre o YouTube e digita ‘Esta noite eu queria que o mundo acabasse‘, do Chrystian & Ralf””. Fui na onda: coloquei a senha do meu celular, abri o YouTube e escrevi o nome da música. A princípio, achei que ele quisesse só me mostrar, mesmo. Ele disse: “dá play, vai”. Sorri para ele e disse “tá bom”. Abri o bolso da frente da mochila para pegar meu fone de ouvido, como se fosse ouvir só para mim, mas ele pediu: “quero ouvir também, gata, aumenta o volume. No máximo!”. Pensei: “gente do céu, eu sempre julgo quem coloca música alta no ônibus porque ninguém é obrigado…”. Pois foi minha primeira vez.

Lá estava eu ouvindo “Esta noite eu queria que o mundo acabasse” no volume máximo, com um estranho, no ônibus. “Não acredito que você não conhecesse essa música, moça!”, ele espantou-se. Eu disse que não, mesmo, mas que agora estava tendo a oportunidade. “Você não parece gostar muito de sertanejo, né?”, ele me perguntou. Eu disse que não muito, mas que de algumas, sim, nada contra. “Gosto de tudo um pouco, sabe?”, disse a ele a verdade. Tentei fortalecer a amizade enquanto ouvíamos a música e comentei: “eles se separaram recentemente, né, Chrystian & Ralf?”. “Tá loucaaaaaa?”, me atacou. “Você deve estar falando do Gian & Giovani, isso sim. Chrystian & Ralf são inseparáveis, gata!”. Uma jornalista mal informada sobre o mundo sertanejo e ainda ofendendo fãs, pensei.

O ônibus estava se aproximando da Rodoviária de Sobradinho, onde os motoristas fazem uma breve parada. A música já estava em sua segunda reprodução e eu estava feliz com tudo aquilo. Contente por estar fazendo algo diferente e rindo, por dentro, de mim mesma. Conversa vai, conversa vem, comecei a me apegar à figuraça que era aquele homem totalmente despojado e simplesmente feliz. Quando tive a chance de perguntar o nome dele, alguém de fora do ônibus gritou “ei, vem cá”, e ele saiu quase que atropelando assentos para descer do coletivo. Achei que ele fosse voltar. Não voltou. O motorista retornou do cafezinho, engatou a primeira marcha e o ônibus começou a sair. Grudei o rosto na janela procurando aquele homem que havia transformado a minha noite, mas não o encontrei. Nunca mais. Talvez um dia a vida nos una novamente para ouvirmos um sertanejo em alto e bom som no busão, sem vergonha, porque a vida é ótima.

Valeu ter perdido a carona. Valeu mais um cansaço. Mais uma vez, agradeci por ter andado de ônibus e ter conhecido uma pessoa tão legal e divertida e por ter feito algo que ainda não havia experimentado. Agradeci por ter perdido mais uma vergonha e por ter sido feliz dentro de um ônibus. Ao contrário da música de Chrystian e Ralf, aquela noite, eu queria que o mundo não acabasse.

A calcinha de Tereza

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Postado dia 31 de outubro de 2014 em Você é o passageiro
Passageira da vez: Sarah Donato
Idade: 25 anos
Profissão: estudante
Paixão: meus gatos
Assento preferido: em pé, no último vagão
Livro de janela: putz, são tantos…
Pensamentos passageiros: por que as pessoas não liberam o lado esquerdo das escadas para passagem? Será que é tão difícil?
Linha mais esperada: Metrô para Estação Águas Claras
O que mais detesto em andar de metrô: nada! Adoro!
O que me faz amar ser gente passageira: coletivo! Estamos juntos no mesmo lugar e pelo mesmo motivo! Chegar!!
 
Sarah Donato

Sarah Donato

A calcinha de Tereza

“Mais do que gente passageira, sou gente viajante! Ando de metrô todos os dias, mas sempre com outro meio de transporte junto – um bom livro. Pois bem, peguei o metrô em Águas Claras. Era mais um dia de sol escaldante na minha linda Brasília e, como de costume, fui em pé no último vagão. Meu destino? Rodoviária do Plano Piloto. Encontrei um lugarzinho para me segurar, o que nem sempre é fácil. Peguei meu livro da vez: “A Insustentável Leveza do Ser”. Embarquei em outra viagem, acompanhada de Tereza, a personagem do livro.

Bom, eu dificilmente sento no metrô, mesmo quando há cadeiras vagas. Não sei ao certo quando comecei a pensar assim, mas parto sempre do pressuposto de que alguém mais cansado do que eu vai embarcar na próxima estação e aproveitar a viagem sentado melhor do que eu. Mas nesse dia eu estava especialmente cansada. Eis que um jovem levanta e eu não resisto! Ufa! Que delícia sentar! Meus joelhos agradeceram.

Aliviada e contente, reabri meu livro. Tereza resolvera visitar o apartamento de um desconhecido, que adrenalina! De repente, sinto um desconforto. Sabe quando você sente alguém te olhando? Um passageiro em pé, ao lado da minha cadeira com os olhos vibrantes na pobre Tereza. Não o culpo, mas ele tinha que ficar de olho justo agora? Justo na hora em que o desconhecido tirava a calcinha de Tereza? Fiquei desconsertada. Nossos olhares se cruzaram. Eu sabia que ele tinha lido e ele sabia que eu tinha percebido. O que ele estava pensando de mim? “Humm, danadinha”. Fechei o livro de tanta vergonha. Resultado: passei o dia pensando na calcinha de Tereza.

Fui para o estágio, depois para a faculdade e o diacho da calcinha de Tereza não me deixava. Ela deixaria o desconhecido despi-la? Eles dormiriam juntos? Mas e o Tomaz, seu marido? Ah! Tereza, por que fez isso comigo?

Saí da faculdade e fui em direção ao metrô, louca para chegar em casa depois de um super dia! Lá para as 23h o movimento é bem menor nas estações, então consegui um lugarzinho bem sossegado, longe dos olhos curiosos. Fiz o ritual. Abri a mochila, peguei o livro, fechei a mochila, coloquei de volta nas costas e fui, com muita sede desvendar os segredos de Tereza! Finalmente!”