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Aniversário do Gente Passageira!

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Postado dia 21 de outubro de 2014 em Eu na história

Bolo comemorativo do blog

Vida é movimento, mesmo. Há dois anos, eu colocava no ar um blog de histórias de ônibus. A ideia finalmente saía do meu bloquinho de anotações e dos contos orais do dia a dia. Já fazia tempo que eu compartilhava vivências com colegas de trabalho, família, amigos e meu noivo. “Lá vem a Sarita com mais uma história de ônibus”, as pessoas diziam. É que eu realmente adorava vivê-las e, depois, contá-las.

Criar o Gente Passageira foi uma maneira que encontrei de eternizar essas histórias. Pensei em vários nomes para o blog: “Além da Roleta”, “Vida em Movimento”, “Histórias do Baú”… Nenhum me agradou o suficiente. Foi parar e pensar, afinal, do que se tratava o blog, que veio o acerto: gente. Tratava-se de contar histórias de gente, gente como eu e você, gente passageira. E então cheguei ao nome, e me pareceu que o blog começava a tomar forma.

Da ideia de abrir o blog até o lançamento foi muito trabalho, já que criar um site envolve um montão de coisas, como investir dinheiro e tempo, e contar com a ajuda de pessoas. Eu tenho um noivo chamado Klaus Schwietzer, somos casados há 12 anos e vamos namorar para sempre. Em resumo, é amor. O que eu quero dizer é que, sem ele, o blog não teria existido. Ele conheceu a ideia antes de todos e a definiu como sendo “simplesmente genial”.

Antes do lançamento, pedi ao Klaus que lesse todas as histórias de ônibus que eu havia escrito até então. Ele leu. Riu. Chorou. Teceu sinceros comentários. Disse: “amor, não sei criticar, assim, como um jornalista ou escritor”. E eu lhe respondi: “não se preocupe, minha vida. Não se trata necessariamente de saber escrever bem. Quero apenas tentar tocar o coração das pessoas”. Tocou o dele e eu tive certeza de que o blog nasceria. Além dele, minha família – meu porto seguro – sempre apoiou a ideia com muito, muito amor. E, meus amigos, ah, nem se fala! Sempre sensacionais e apostando na minha loucura.

Para fazer o blog, contei com a ajuda da gloriosa dona do Cupcakeando, Juliana Morgado, que me indicou as gauchíssimas designers e programadoras Bruna Filippozzi e Mariana Assmann. Nunca as vi pessoalmente, mas me apaixonei pelo trabalho delas. Depois de muito papo sobre cores, ilustrações, formas, fontes, conseguimos desenhar o Gente Passageira.

Sei que em dois anos não publiquei tantas histórias como gostaria. Mas sei também que cada história foi escrita com muita dedicação. Histórias tristes, como “João quer ser gente e “Vida e morte passageiras”. Outras com críticas ao transporte público, como “Os ônibus que aqui passeiam…” e “De carro ou de ônibus, eis a questão”. E, é claro, as engraçadas, como “O peru no colo do homem”, “Era uma vez um milk shake” e as mais acessadas até hoje “Toda cagada” e “Toda cagada – Parte 2”. É gostoso relembrar como cada uma delas aconteceu e como foi prazeroso tê-las escrito.

Em dois anos de blog, foram muitos os leitores que se deram ao trabalho de escrever suas próprias histórias vividas como gente passageira e mandar para o blog. Cada uma delas foi recebida de maneira especial, e nunca me sentia sozinha. Recentemente, pelo Instagram do Gente Passageira, passei a receber imagens de leitores que enviam fotos tiradas em ônibus mundo afora. Além de Brasília, já chegaram retratos de São Paulo, Paraná, Estocolmo, Paris, Viena, Londres… todos ajudando a contar por meio de breves relatos como é a vida de gente passageira por aí.

O Gente Passageira passou a integrar a iniciativa “Escritores em Brasília”, do jornalista e escritor Paulo Renato Souza Cunha, que teve a gentileza de divulgar meu trabalho ao lado dos de escritores de verdade. O Gente Passageira também virou reportagem do Correio Braziliense, carinhosamente idealizada pela jornalista Ana Sá e generosamente escrita pela querida Mariana Niederauer. O blog também despertou a atenção da dona do “Diário de uma Teimosa”, Vânia Romão, que descobriu o Gente Passageira lá na Suécia. O site também inspirou a fotógrafa Adriene Antunes a criar o ensaio fotográfico “Quotidien”, apresentado em São Paulo como trabalho de conclusão de curso de sua faculdade de fotografia. Sem contar as tantas pessoas desconhecidas que deixaram seus comentários e curtiram o blog sem nem me conhecer. Pessoas que adoravelmente compartilharam suas vivências pessoais e riram e choraram comigo. O Gente Passageira, um blog sobre gente, me deu o prazer de conhecer tanta gente especial.

As histórias que acontecem comigo e que são contadas no blog sempre tentam mostrar o lado doce da vida (a vida é ótima!). A ideia também é, claro, criticar o transporte público em nosso país (não é fácil ser gente passageira) e fazer pensar: “se fosse bom, eu deixaria meu carro em casa e passaria a andar de ônibus?”.

O ônibus é a minha segunda casa e um espaço mágico, onde tudo pode acontecer. No ônibus, há janelas em que me vejo de dentro pra fora, de fora pra dentro. E, para mim, os melhores livros viajam de ônibus. Não os de papel, mas os de carne e osso. As pessoas, portanto, são as leituras que mais me inquietam e atraem, sobretudo as anônimas. Foi andando de ônibus que eu aprendi a ser gente.

Vida longa ao Gente Passageira e aos leitores do blog. Obrigada a todos que fizeram o site chegar até aqui!

Toda cagada – Parte 2 – Tudo de uma só vez

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Postado dia 11 de setembro de 2014 em Eu na história
Sarita González

Sarita González

  9h15. Aconteceu de novo. Noivo me deixou na Rodoviária. No carro, já havia sentido trovoadas estomacais. Comentei com ele. Desabafo breve, apenas, não queria influenciar meu psicológico. Desci. “Beijo, tchau”. Lateral do Conjunto Nacional. Andaria até a “Rodô”. Andei, lentamente. Teria uma diarreia. Ignorei. Setembro em Brasília. Brasília em setembro. Quente. Comecei a passar mal. Muita, muita gente andava por lá. Gente passageira. Avistei os bonecos gigantes de dois candidatos ao governo. Outubro está próximo. Coloquei música no celular para me acalmar. Fez piorar. Comecei a suar frio. Caminhada não terminava. Andei até chegar à Rodoviária. Desci uma escada rolante. Desci duas. Barriga acalmou um pouco. Respirei fundo. Caminhei até o box da linha do Cruzeiro. Cheguei. Vinte e poucas pessoas na minha frente. O ônibus ainda não havia chegado. Mais trovoadas estomacais. Em Brasília, choveria no dia seguinte. Dentro de mim, a chuva de toddynho aconteceria a qualquer momento. Senti pontadas. Botei a culpa no suco de verduras que minha mãe fez para mim logo cedo. “Poxa, mãe”. Santa mãe. “Quer ir ao banheiro, não segure”, lembrei da regra familiar. Olhei para os lados. Vi dezenas de pessoas se movimentando. Minha cabeça girou. Piruetas. Cogitei o banheiro da “Rodô”. “Não, não é legal”, lembrei-me. “Calma, Sarita, se o ônibus chegar agora são poucos minutos até o trabalho”, imaginei. “Mas e se não chegar logo? Se tiver trânsito? Se eu me cagar todinha no ônibus?”. 9h27. Trovoadas estomacais malévolas e com alto grau de periculosidade. Não dava mais. “Em que banheiro ir?”. Conjunto Nacional. Voltei por onde vim. Bora que é urgente. Duas escadas rolantes. As duas quebradas. Sem surpresa. Senti perfurações na barriga. “Não, Deus não existe”, pensei. Primeira parte. Subi devagar. Segunda parte. Subi como uma grávida entrando em trabalho de parto. “O que haveria dentro de mim de tão avassalador?”. Senti a brisa no topo da “Rodô”. Mais milhões de passos para percorrer. “Calma, que a vida é ótima”. Faixa de pedestres. Sinal fechado. “De novo isso comigo, vida? É sério?”. Passarela do Conjunto. Vi a Torre de TV. Não a contemplei, como de costume. Só via sanitários em minha mente. Os bonecos gigantes dos políticos atrapalhavam meu trajeto. Quase fiquei presa num corredor de panfleteiros. Neguei todos. Desculpa, gente. Quente, muito quente em Brasília. Transpirava loucamente. Apertei o passo. O que havia dentro de mim me apertou. 9h36. Entrei no Conjunto. Morrerei sem descobrir onde ficam os banheiros de lá, afinal. Pensei em pedir informação. Minha voz não sairia. Desisti. Andei sem rumo. Parei, respirei e comecei a ler as placas. Subi uma escada rolante. “Muita gente no shopping essa hora”, pensei. Na verdade, não pensei isso na hora, só depois. Na hora, só pensava no vaso sanitário. Vi dezenas de vasos de planta espalhados pelo shopping também. Mas, pula essa parte. Eu não seria tão louca. Cheguei ao corredor de acesso ao banheiro. De longe, vi uma fila. “Não acredito que tem fila para entrar nesse banheiro!”, pensei. E pensei em como implorar para passar na frente, caso fosse. A fila era para usar o orelhão ao lado, percebi, mas ainda não entendi essa parte. Dei uma corridinha marota nos passos finais antes da porta do banheiro porque havia urgência. Entrei no banheiro. Uma moça organizava os papéis higiênicos num armário. Uma mulher passava maquiagem em frente ao espelho. Outras duas conversavam enquanto lavavam as mãos. Abri os braços. Deixei a mochila cair lentamente. Tudo em mim cairia lentamente em poucos segundos. Abri a porta da esperança. Tudo tão cheiroso e limpo. Sentei-me como se fosse ser coroada a rainha da “Rodô”. Ou do Conjunto. Ou do busão. Lo que sea. Sorri. Sorri muito. Deixei a vida me levar, vida leva eu. Vida levou tudo rapidamente. Parecia um fusca querendo arrancar. Culpa do suco. Que suco poderoso. Que vida maravilhosa. “Parece que Deus existe, pensei”. 9h52. Curti o momento. Saí do sanitário querendo abraçar a servente do banheiro e dançar uma valsa improvisada com ela. Apenas sorri para ela e ela entendeu. Lavei as mãos. Lavei o rosto e ela me olhou entendendo o porquê. Brasília é quente. O suco é potente. 10h00. 45 minutos de aventura. Pareceu um dia inteiro. Flutuei de volta até o ônibus, que me deixou no trabalho.

Leia mais: Toda cagada - Parte 1 – a primeira vez a gente nunca esquece