Lições de um passageiro mirim

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Postado dia 14 de julho de 2015 em Personagem da vez

Não fui dessas crianças que só andava de carro para cima e para baixo. Apesar de ter tido uma infância bastante confortável, meus pais sempre me mostraram o transporte público como uma opção. Lembro-me do quanto achava divertido, por exemplo, ter de passar por cima ou por baixo da roleta, acompanhada de minha mãe, além de ter tantas opções de assentos para escolher quando entrava no ônibus.

Mas nem sempre é legal andar de ônibus quando se é criança, sobretudo pelos problemas do transporte público. Outro dia vi uma cena de cortar o coração. Entrei no ônibus e sentei-me na poltrona abaixo de onde fica o cobrador. Quando o motorista começou a andar alguns metros em direção à parada seguinte, vi uma mulher segurando a mão de um menino de uns 6 anos. Mãe e filho. Eles estavam saindo de uma escolinha, onde a mãe busca a criança de ônibus todos os dias.

Ambos corriam muito. Além de se preocupar com o filho, a mãe ainda carregava uma mochilinha, uma pasta amarela infantil e a própria bolsa. O ônibus em que eu estava desacelerou na parada pretendida pelos dois, mas parecia que não daria tempo deles chegarem. Na parada, alguns passageiros começavam a subir no coletivo. Da janela, eu acompanhava a corrida dos dois. Gosto de janela de ônibus por isso. Ela me mostra o mundo, as pessoas, suas emoções. As minhas também. A mãe já estava descabelada, o garotinho com olhos arregalados, a alça da mochila caindo do ombro da mulher.

Quase todos os passageiros do ônibus já haviam terminado de subir. Fiquei nervosa. O motorista engatou a primeira marcha e pensei: “Não! Eles não podem perder o ônibus!”. Eles teriam de enfrentar uma longa espera pelo próximo. Perder ônibus é atraso de vida.

Quando o motorista começou a pisar no acelerador, vi que mãe e filho se aproximavam de minha janela. Finalmente eles apareceram na porta da frente. O motorista voltou atrás na partida e esperou que eles entrassem. Subiram os degraus ainda no clima daquela grande luta para chegar. Chegar: o grande desejo de quem enfrenta a rotina de ser passageiro de ônibus.

Com a respiração ofegante, a mãe levantou a criança, já grandinha para estar no colo, a fim de passá-la por cima da roleta. Tornou a equilibrar bolsa, mochila, pasta amarela, filho. E então o cobrador, muito simpático, cumprimentou mãe e filho, perguntando ao segundo: “E aí, garotinho?! Tudo bem com você?”. De repente, a criança, suada, começou a chorar desesperadamente. Pensando ter feito algo errado, o cobrador perguntou para a criança: “O que foi que aconteceu, rapaz?”. E, enquanto o pequeno soluçava de tanto chorar, o cobrador virou-se para a mãe em busca de respostas: “Está tudo bem com ele, moça? Ele se machucou?”. A mãe, com aparelho nos dentes, deu um sorriso sereno, como se já tivesse entendido o motivo do choro do filho. Mas o pequeno respondeu, passando a mãozinha esquerda nos olhos encharcados: “Fiquei com medo de perder o ônibus”.

Provavelmente, a mãe já devia ter falado ou demonstrado para a criança como é difícil depender de ônibus. Deve ter dito o quanto são cheios, demorados, com horários irregulares. Deve ter explicado ao garoto o que acontece quando se perde o horário do ônibus.

Achei aquilo tão verdadeiro. Foi quando entendi a correria do garoto com os olhinhos tão assustados. Vi o motivo do choro de alívio, de sossego no coração porque, a partir daquele momento, só faltava passar pela roleta com a mamãe e se sentar até chegar em casa.

Andar de ônibus também nos ensina. A gente aprende a ser mais responsável. Percebe que o mundo não gira em torno da gente, que é bom e saudável ceder o lugar para alguém. Descobre que é preciso respeitar horários (mesmo que não seja recíproco), que trata-se de algo coletivo. Vê que é preciso lutar muito para conseguir algo, por mais simples que seja. Meus filhos também vão andar de ônibus.

Corra, mulher, corra

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Postado dia 03 de março de 2015 em Eu na história, Micro-micos

A rotina nunca pode ser tão tensa que nada possa quebrá-la com uma gargalhada. Que assim seja. Naquele dia, eu acordei atrasada para ir ao trabalho, e tive de descer minha rua às pressas para ir até a parada de ônibus. Estava meio frio, meio querendo chover. Coisas de Brasília. Para me prevenir, peguei no armário um casaco branco bem quente e pesado, com zíperes dourados, e o carreguei em meu braço direito. Era um casaco de capuz, mas tirei-o. Também não era para tanto.

Desci correndo. Praticamente saltei um quebra-molas. Não contemplei a inocência das crianças que brincam na escolinha que fica na minha rua, como de costume. Cheguei ao ponto de atravessar a pista, então olhei para um lado e para outro a fim de seguir com a caminhada que me levaria até a parada de ônibus.

Dali até a tal parada são uns 30 ou 40 passos. Acontece que, quando cheguei no início dessa caminhada em linha reta pela calçada com graminha, vi que o ônibus virava a curva lá do terminal, que fica depois da parada. Eita, que nessas horas a gente só pensa em “run, baby, ruuuuun”. E dá-lhe Sarita começando a correr desesperadamente para pegar o ônibus parado. Carregava uma bolsa no ombro esquerdo e, no meu braço direito, ainda estava meu casaco branco e pesado, e que virou a polêmica dessa história.

O que tem de polêmico um casaco carregado no braço? É que, no momento em que tirei o capuz dele, a parte da gola do tal casaco fez um desenho perfeito de uma cabeça, bem contornadinha. E o casaco era pesado. Era branco. E eu o levava no meu braço direito. Bem, olhem só o que aconteceu: corri, corri, corri… Vi que o ônibus ia parando na desejada parada. Pensei: “ok, não vou pegá-lo na parada, mas, de longe, o motorista deve estar vendo meu desempenho na corrida, minha dedicação. Não é possível que não pare para mim!”

Ainda faltavam alguns passos, e eis que vem vindo em minha direção uma mulher de uns 40 e muitos anos. Ela vinha andando, mas, em algum momento, veio correndo até mim com a testa franzida e cara de desesperada. Não tive tempo de pensar nada a respeito disso, pois meu foco era “corra, lola, corra”. E, então, a mulher veio ao meu encontro gritando “calma, moça, calma”. Olhei para trás para ver se não era comigo, mas era comigo, mesmo. Parei de correr, assustada. Ela estava a poucos passos de mim, foi desacelerando, colocou a mão em meu casaco, suspirou, parou também e disse: “NOSSA, MOÇA, QUE SUSTO! ACHEI QUE VOCÊ ESTIVESSE CARREGANDO UM BEBEZINHO NO BRAÇO E CORRENDO ASSIM, COMO UMA LOUCA!”.

Eu queria tanto pegar aquele ônibus, que só pude dizer rapidamente “né bebê não, senhora. É meu casaco”. O ônibus se aproximou, o motorista teve pena de mim, e parei de correr. Eu ainda estava séria, suando, bolsa e casaco nas mãos. Entrei, dei “bom dia” e “muito obrigada, motorista”. Sentei-me em meu assento favorito. Não pude conter uma longa gargalhada, incrédula daquela abordagem de uma desconhecida. Uma mulher que me fez parar de correr porque achou que eu carregava um bebê no colo perigosamente. Bem, depois percebi que parecia, mesmo. Que legal da parte dela, pensei. E que loucura. Mas ai dela se eu tivesse perdido aquele ônibus. Até parece.

A propósito, minha filha vai se chamar “Lola”. E tomara que ela nunca tenha que correr tão desesperadamente quanto eu naquele dia ou como a Lola do filme. Mas espero que ela sempre tenha sorrisos inesperados para quebrar qualquer rotina.