Você é o passageiro – “Autocarro”

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Postado dia 22 de setembro de 2015 em Conversas paralelas
Arte sobre foto Mr Old Writer

Arte sobre foto Mr Old Writer

Passageiro da vez: Mathias Zangado.

Idade: “29 (quase trinta) voltas ao redor do sol”.

Profissão: “escrevente”.

Paixão: “bebidas alcoólicas”.

Assento preferido no ônibus: “à janelinha, sempre”.

Livro de janela: “O homem ao lado, Sérgio Porto”.

Linha esperada: “Linha 100, ao Terminal Rodoviário João Goulart (Rio-Niterói)”.

O que mais detesto em ônibus: “quando há ser humano que se acha disc jockey do mundo”.

Amo ser gente passageira para: “observar a cidade sem as preocupações do volante”.

 

“Fui ao dentista de ônibus porque não aguento mais dirigir, não aguento mais o meu automóvel, pisar no acelerador, freio, embreagem… Maldito carro. Antes de entrar no ônibus, verifico se tem cadeira vazia perto da janela — se não tiver, esquece!, aguardo o próximo. Saio cedo de casa, então tem lugar perto da janela, eu me sento e observo o desespero humano. Pois andar de ônibus só parece charmoso quando no estrangeiro. A filhota classe média que vai passar temporada na França e publica em redes sociais uma penca de fotografias (selfies) dela perambulando de autobus nas ruelas de Paris, mas quando a dama volta para o Brasil só passeia de carro, porque papai não a deixa andar no busão brasileiro, acha perigoso. Daí que estou num coletivo nacional, sentado meio que no fundo deste monstro barulhento e poluidor atmosférico fabricado pela Marcopolo. Vejo muitas cabeças que balançam de acordo com as vontades das curvas. Todas essas cabeças, o que estariam pensando? Que logo mais chegarão ao trabalho, emprego hostil, chefes safados, funcionários estúpidos, computador não funciona, patroa na TPM, esqueceram de depositar o salário do mês, e como se vive sem o dinheiro?, banco vai cobrar juros, sim, é claro que vai, cada centavo, será que coloquei a comida na geladeira?… O prédio grande e feio dentro do qual está localizado o consultório do meu dentista aparece na moldura da janela. Puxo a cordinha, desço e observo a fumaça do ônibus ir embora, levando consigo os meus devaneios.”

Quer conhecer melhor o Mathias Zangado? Corre lá no tumblr dele!

Os anjos, o inferno e a cadeira alta

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Postado dia 30 de outubro de 2012 em Você é o passageiro
Quem conta a história desta vez: Jacqueline Saraiva 
 
Jacqueline é uma jornalista de 28 anos, libriana, aventureira e apaixonada pela natureza. Segundo ela, antes de superar o medo de dirigir, aproveita para curtir a vida a pé e é passageira frequente nos ônibus de Brasília. Twitter: @jacquesaraiva 
 
“Você entra no ônibus correndo, volta à infância, e senta no lugar mais perfeito do ônibus: a cadeira alta. Por muitas vezes tive esse pensamento tolo ao encontrar o coletivo vazio. Entrava meio desanimada, achando que ia ter que dividir a cadeira com algum homem folgado (que deita e abre as pernas) ou alguma mulher avantajada ou com muitas sacolas ou com aquela cambada de meninos barulhentos. Ao passar a roleta, um mundo novo se abria e anjos luzentes rodeavam o santuário tocando pequenas harpas douradas… A CADEIRA ALTA!!! Ahhhh, nada me impediria de aproveitar os longos minutos de viagem naquele lugar privilegiado, mais alto que os demais, com o vento no rosto, como se estivesse em uma montanha-russa…

Só que o sonho virou pesadelo… Descobri, infelizmente, as mazelas de sentar na cadeira alta. E a revelação veio às 5h30 quando a medonha entrou no ônibus. Chegou cambaleando, a cara amassada, cabelo desgrenhado e jeito de quem acordou atrasada, vestiu uma roupa e saiu correndo atrás do busão. Não bastasse o desengonço para atravessar o coletivo, incomodando os demais passageiros, ela reconhece a “colega” de trabalho… ao meu lado… pensei: “Senhor, porque me abandonaste?”. A luz se apagou, os anjos luzentes recolheram suas harpas e se mandaram.

Já na primeira frase, minha vontade foi de enfiar a cara em um buraco, de preferência com um frasco de Gleid… Aquela boca não via uma escova de dente há séculos, indaguei-me. Pensei na notícia veiculada em jornais na semana passada: “Há 27 milhões de brasileiros que nunca foram a um dentista… E essa mulher é a primeira da lista”… Cada palavra dela soava como uma trombeta do apocalipse, anunciando o fim do mundo… E, sério, pedi pelo fim do mundo. Pedi para que pelo menos um buraco se abrisse ao meu lado e ela fosse sugada… Na cadeira alta do ônibus, a boca dela era um esgoto rente ao meu pobre e indefeso nariz. Naquele momento eu odiei a cadeira alta. De refúgio divertido, a cadeira alta se tornou minha inimiga.

Depois de uma conversa de 15 minutos, ela diz que vai descer. Dei saltinhos de alegria em meu pensamento… a tortura teria fim, os anjos talvez voltassem e eu, quem sabe, sobreviveria… Quando ela deu sinal, me senti como um réu absolvido do mensalão… tô livre…. ela se foi, essa foi por pouco… O dia recomeçou para mim. Pude trabalhar, mas com o estômago revirado. Na volta para casa, a cadeira alta estava lá, vazia. Mas preferi escolher outro assento. A cadeira alta agora era só um lugar solitário, como tantos outros no ônibus, onde nem anjos nem montanhas-russas conseguem me animar.”

Quer mandar a sua? Escreva para o e-mail: gentepassageira@gmail.com