Toda cagada – Parte 2 – Tudo de uma só vez

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Postado dia 11 de setembro de 2014 em Eu na história
Sarita González

Sarita González

  9h15. Aconteceu de novo. Noivo me deixou na Rodoviária. No carro, já havia sentido trovoadas estomacais. Comentei com ele. Desabafo breve, apenas, não queria influenciar meu psicológico. Desci. “Beijo, tchau”. Lateral do Conjunto Nacional. Andaria até a “Rodô”. Andei, lentamente. Teria uma diarreia. Ignorei. Setembro em Brasília. Brasília em setembro. Quente. Comecei a passar mal. Muita, muita gente andava por lá. Gente passageira. Avistei os bonecos gigantes de dois candidatos ao governo. Outubro está próximo. Coloquei música no celular para me acalmar. Fez piorar. Comecei a suar frio. Caminhada não terminava. Andei até chegar à Rodoviária. Desci uma escada rolante. Desci duas. Barriga acalmou um pouco. Respirei fundo. Caminhei até o box da linha do Cruzeiro. Cheguei. Vinte e poucas pessoas na minha frente. O ônibus ainda não havia chegado. Mais trovoadas estomacais. Em Brasília, choveria no dia seguinte. Dentro de mim, a chuva de toddynho aconteceria a qualquer momento. Senti pontadas. Botei a culpa no suco de verduras que minha mãe fez para mim logo cedo. “Poxa, mãe”. Santa mãe. “Quer ir ao banheiro, não segure”, lembrei da regra familiar. Olhei para os lados. Vi dezenas de pessoas se movimentando. Minha cabeça girou. Piruetas. Cogitei o banheiro da “Rodô”. “Não, não é legal”, lembrei-me. “Calma, Sarita, se o ônibus chegar agora são poucos minutos até o trabalho”, imaginei. “Mas e se não chegar logo? Se tiver trânsito? Se eu me cagar todinha no ônibus?”. 9h27. Trovoadas estomacais malévolas e com alto grau de periculosidade. Não dava mais. “Em que banheiro ir?”. Conjunto Nacional. Voltei por onde vim. Bora que é urgente. Duas escadas rolantes. As duas quebradas. Sem surpresa. Senti perfurações na barriga. “Não, Deus não existe”, pensei. Primeira parte. Subi devagar. Segunda parte. Subi como uma grávida entrando em trabalho de parto. “O que haveria dentro de mim de tão avassalador?”. Senti a brisa no topo da “Rodô”. Mais milhões de passos para percorrer. “Calma, que a vida é ótima”. Faixa de pedestres. Sinal fechado. “De novo isso comigo, vida? É sério?”. Passarela do Conjunto. Vi a Torre de TV. Não a contemplei, como de costume. Só via sanitários em minha mente. Os bonecos gigantes dos políticos atrapalhavam meu trajeto. Quase fiquei presa num corredor de panfleteiros. Neguei todos. Desculpa, gente. Quente, muito quente em Brasília. Transpirava loucamente. Apertei o passo. O que havia dentro de mim me apertou. 9h36. Entrei no Conjunto. Morrerei sem descobrir onde ficam os banheiros de lá, afinal. Pensei em pedir informação. Minha voz não sairia. Desisti. Andei sem rumo. Parei, respirei e comecei a ler as placas. Subi uma escada rolante. “Muita gente no shopping essa hora”, pensei. Na verdade, não pensei isso na hora, só depois. Na hora, só pensava no vaso sanitário. Vi dezenas de vasos de planta espalhados pelo shopping também. Mas, pula essa parte. Eu não seria tão louca. Cheguei ao corredor de acesso ao banheiro. De longe, vi uma fila. “Não acredito que tem fila para entrar nesse banheiro!”, pensei. E pensei em como implorar para passar na frente, caso fosse. A fila era para usar o orelhão ao lado, percebi, mas ainda não entendi essa parte. Dei uma corridinha marota nos passos finais antes da porta do banheiro porque havia urgência. Entrei no banheiro. Uma moça organizava os papéis higiênicos num armário. Uma mulher passava maquiagem em frente ao espelho. Outras duas conversavam enquanto lavavam as mãos. Abri os braços. Deixei a mochila cair lentamente. Tudo em mim cairia lentamente em poucos segundos. Abri a porta da esperança. Tudo tão cheiroso e limpo. Sentei-me como se fosse ser coroada a rainha da “Rodô”. Ou do Conjunto. Ou do busão. Lo que sea. Sorri. Sorri muito. Deixei a vida me levar, vida leva eu. Vida levou tudo rapidamente. Parecia um fusca querendo arrancar. Culpa do suco. Que suco poderoso. Que vida maravilhosa. “Parece que Deus existe, pensei”. 9h52. Curti o momento. Saí do sanitário querendo abraçar a servente do banheiro e dançar uma valsa improvisada com ela. Apenas sorri para ela e ela entendeu. Lavei as mãos. Lavei o rosto e ela me olhou entendendo o porquê. Brasília é quente. O suco é potente. 10h00. 45 minutos de aventura. Pareceu um dia inteiro. Flutuei de volta até o ônibus, que me deixou no trabalho.

Leia mais: Toda cagada - Parte 1 – a primeira vez a gente nunca esquece

Lágrimas passageiras

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Postado dia 04 de setembro de 2014 em Conversas paralelas
Sarita González

Sarita González

  Seria uma viagem de ônibus como todas as outras que faço depois da aula de francês, às segundas e quartas-feiras, à noite. Mas, naquele dia, minha viagem durou mais que o esperado. Levei os mesmos 50 minutos de sempre para chegar em casa, mas meu pensamento fez uma longa viagem em torno de uma mulher que chorava dentro do ônibus.

Fui andando pelo corredor rumo ao final do ônibus, quando vi a única passageira daquele ônibus, além de mim, chorando inconsolavelmente enquanto olhava o celular. Sentei-me no assento alto, uma fileira atrás dela, mas do outro lado, como se quisesse observá-la.

Vi que ela estava no bate-papo do Facebook trocando mensagens com alguém enquanto caía aos prantos. Levava a mão à cabeça e encostava a testa na janela do ônibus. Fiquei intrigada e profundamente mexida o ver aquilo. A moça, que parecia ter uns 30 anos, estava sofrendo por algum motivo e eu não sabia o que fazer.

Foram entrando outros passageiros, e todos os que passavam por ela reparavam. Comecei a pensar no que poderia ter acontecido a ela. “Será que alguém da família dela morreu?”, “Ou foi demitida do emprego?”, “Será que terminou com o (a) namorado (a)?”. Será que eu e os outros passageiros impressionados com todo aquele sofrimento, além de curiosidade, também teríamos coragem de oferecer ajuda a ela? Não tive.

Mais e mais passageiros entravam no ônibus, e, 20 minutos após o início daquela viagem, olhei exatamente para todos os assentos do ônibus e vi que o único desocupado ainda era o banco ao lado de onde estava aquela mulher. As pessoas ficavam receosas de se sentar ao lado dela. Medo de incomodar ou de fazer parte, de certa forma, de um momento tão íntimo daquela mulher, mesmo que manifestado em um transporte público.

Mas veio vindo pelo corredor do ônibus uma senhora que desacelerou o passo assim que viu e ouviu o choro da moça. Tenho certeza de que ela teria se sentado ao lado dela ainda que restassem 20 bancos vazios. Mesmo se houvesse uma área vip no ônibus com champagne só para ela. Mesmo se tivesse hemorroidas. Mesmo se qualquer coisa. Mesmo. Aquele banco esperava por aquela senhora, a melhor pessoa daquele ônibus para ajudar a moça inconsolável.

Assim que se sentou, a mulher olhou para a moça ao lado e percebeu o choro. Abriu a bolsa. Pensei, inocentemente, que seria um lenço ou algo assim. Coisas de que, quem chora, precisa. Mas, é claro, aquela mulher tentaria alcançar muito além das lágrimas da moça: o coração.

Tirou da bolsa o celular. Colocou carinhosamente a mão direita no ombro da moça que chorava, como se a conhecesse, chamando-a. Abriu uma imagem com um texto e entregou-lhe o celular, como se fosse um remédio. A moça finalmente reagiu. Enxugou brevemente as mãos molhadas de lágrimas na calça e aceitou o celular. Começou a ler. A senhora solidária ao lado olhou para frente, como se não quisesse pressioná-la a ler ou a esboçar uma reação. A expressão no olhar da moça foi mudando. Ela apertou os olhos e colocou o dedo indicador deitado abaixo do nariz como se quisesse se conter.

Abraçaram-se. Aquilo era tudo de que a moça precisava para se sentir um pouco melhor. Fiquei emocionada ao ver aquele gesto e a forma como ela conseguiu se acalmar diante daquilo. Nunca saberei o que dizia aquele texto milagroso. Nunca saberei o porquê daquele choro e se poderia ter lhe ajudado também. Mas sei que posso ao menos tentar, da próxima vez.