Boa educação

3
Postado dia 18 de dezembro de 2012 em Você é o passageiro

Quem conta a história desta vez: Andréia Oliveira

Andréia Oliveira tem 25 anos e é uma professora que ama crianças, livros, filmes e doces. Ela conta que já anda de ônibus – quase diariamente – há 13 anos. “Essa realidade está longe de mudar, pois já fui reprovada na prova prática da autoescola três vezes”, revela. Para Andréia, andar de coletivo é um momento em que ela tem com ela mesma, com o próximo, com o diferente, com o encantador e até mesmo com o bizarro. “Andar de ônibus é tempero para a vida!”, vibra.

“Pelo fato de a minha turma apresentar na noite de segunda, minha chefe acabou me liberando para chegar um pouquinho mais tarde. Ótimo, pois só assim poderia arrumar o cabelo de forma diferente, ir à manicure e poder fazer uma maquiagem legal. Vi tudo isso indo por água abaixo quando um pé d’água resolveu cair do céu.

Saí de casa e foi uma verdadeira corrida com obstáculos até chegar ao ponto de ônibus. Não lembro de cor quantas poças de água eu tive que pular e desviar. Até dobrei a calça jeans pra amenizar os possíveis estragos.

Quando consegui finalmente chegar à parada, o ônibus apareceu no horizonte. Que alegria!

Bem, a alegria acabou rapidamente, pois o ônibus resolveu parar em um local que eu só conseguiria pegá-lo se eu nadasse. Fiquei vermelha e com as bochechas queimando de raiva, afinal, existe um lugar para que os ônibus parem justamente quando está chovendo.

Olhei para o motorista e perguntei em forma de gestos “e agora?” Aí ele apontou mais para frente, indicando que tentaria parar em um lugar melhor. Ele andou, andou e andou. Palavrões passavam pela minha cabeça. Quando ele finalmente parou, ainda fiquei pensando se eu me prestaria ao papel de andar tudo aquilo por um erro dele. Fui porque eu estava muito atrasada e pensei em já entrar no ônibus pagando um sapo, mas na hora que subi e olhei pra ele, as palavras não saíram, mas fiz questão de olhá-lo com aquele olhar que fuzila, sabe? O risinho de lado que estava no rosto dele sumiu instantaneamente!

O cobrador, que também compartilhava um riso amarelado, também foi vitima do meu olhar. Ficou um climão ali na frente! Enfim, eu ia passar toda “posuda” aquela roleta e ia ficar por isso mesmo, mas nada aconteceu como eu planejei.

Faço questão de arrumar minha bolsa todos os dias: organizá-la, limpá-la e repor algo que falta. Mas, surpreendentemente, meu Cartão Fácil não tinha saldo. Então tá, pego o dinheiro na carteira, mas…. Cadê a carteira? Esqueci em casa! Putz… Já era tarde para voltar pra casa e a chuva também não estava colaborando.

Então eu vi uma senhora que me observava e resolvi perguntar na maior cara de pau se ela poderia passar o cartão pra mim. Ela não usava cartão, só dinheiro, e pareceu que ela não tinha interesse em ajudar. Então resolvi falar de forma mais alta para as pessoas que estavam no ônibus (umas oito, mais ou menos), pois eu mesma já passei o cartão para algumas pessoas que pediram ajuda.

Quando levantei a voz, o cobrador falou o seguinte: “Ei, moça, quando chegar sua parada você desce pela frente”. Na hora me bateu uma vergonha tão grande. Poxa, eu fui tão grosseira… Fiquei feliz por ele não ter guardado rancor da minha cara feia, mas envergonhada por ter agido de forma tão arrogante.

Quando eu tive que descer, agradeci a gentileza com o sorriso que eu não dei ao entrar.

Quer mandar a sua história de ônibus? Escreva para gentepassageira@gmail.com