De passagem no busão

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Postado dia 22 de fevereiro de 2016 em Micro-micos, Você é o passageiro
Giulia Batelli - Arquivo pessoal

Giulia Batelli – Arquivo pessoal

Passageira da vez: Giulia Batelli

Idade: 25 anos

Profissão: estudante

“Quase não ando de ônibus, mas, quando ando, meu maior prazer é puxar a cordinha para descer.”

“Saí da última aula do dia e mandei mensagem para o meu irmão, que iria me buscar. Estava sem carro e, como ele trabalha próximo à Universidade de Brasília, onde estudo, ofereceu carona e me pediu para esperar na parada de ônibus da lateral do ICC Norte, pois o trânsito que forma nos pavilhões é sempre intenso no fim das aulas. Caminhei em direção à parada e fiquei animada ao ver que estava vazia e eu teria um lugar para me sentar. Coloquei meu fone de ouvido e pus para tocar o novo CD da banda Passion Pit. Estava completamente entretida, quando um ônibus parou em frente a mim. Como só tinha eu na parada, olhei para o motorista e, instintivamente, sinalizei com as mãos que eu não iria embarcar e, ainda, sorri e agradeci levantando o polegar direito. Fiquei encantada com a atitude. Aliás, eu poderia ser uma pessoa desatenta à espera de um ônibus. Alguém que precisaria esperar mais algum tempo até que outro passasse. Mal me comuniquei com o motorista e a porta traseira abriu passagem para duas pessoas descerem. Sem graça, desviei o olhar e procurei agir com a maior naturalidade. Refletindo sobre a minha pouca experiência com ônibus, me lembrei de que quem sinaliza é o passageiro, e não o motorista.”

Aniversário do Gente Passageira!

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Postado dia 21 de outubro de 2014 em Eu na história

Bolo comemorativo do blog

Vida é movimento, mesmo. Há dois anos, eu colocava no ar um blog de histórias de ônibus. A ideia finalmente saía do meu bloquinho de anotações e dos contos orais do dia a dia. Já fazia tempo que eu compartilhava vivências com colegas de trabalho, família, amigos e meu noivo. “Lá vem a Sarita com mais uma história de ônibus”, as pessoas diziam. É que eu realmente adorava vivê-las e, depois, contá-las.

Criar o Gente Passageira foi uma maneira que encontrei de eternizar essas histórias. Pensei em vários nomes para o blog: “Além da Roleta”, “Vida em Movimento”, “Histórias do Baú”… Nenhum me agradou o suficiente. Foi parar e pensar, afinal, do que se tratava o blog, que veio o acerto: gente. Tratava-se de contar histórias de gente, gente como eu e você, gente passageira. E então cheguei ao nome, e me pareceu que o blog começava a tomar forma.

Da ideia de abrir o blog até o lançamento foi muito trabalho, já que criar um site envolve um montão de coisas, como investir dinheiro e tempo, e contar com a ajuda de pessoas. Eu tenho um noivo chamado Klaus Schwietzer, somos casados há 12 anos e vamos namorar para sempre. Em resumo, é amor. O que eu quero dizer é que, sem ele, o blog não teria existido. Ele conheceu a ideia antes de todos e a definiu como sendo “simplesmente genial”.

Antes do lançamento, pedi ao Klaus que lesse todas as histórias de ônibus que eu havia escrito até então. Ele leu. Riu. Chorou. Teceu sinceros comentários. Disse: “amor, não sei criticar, assim, como um jornalista ou escritor”. E eu lhe respondi: “não se preocupe, minha vida. Não se trata necessariamente de saber escrever bem. Quero apenas tentar tocar o coração das pessoas”. Tocou o dele e eu tive certeza de que o blog nasceria. Além dele, minha família – meu porto seguro – sempre apoiou a ideia com muito, muito amor. E, meus amigos, ah, nem se fala! Sempre sensacionais e apostando na minha loucura.

Para fazer o blog, contei com a ajuda da gloriosa dona do Cupcakeando, Juliana Morgado, que me indicou as gauchíssimas designers e programadoras Bruna Filippozzi e Mariana Assmann. Nunca as vi pessoalmente, mas me apaixonei pelo trabalho delas. Depois de muito papo sobre cores, ilustrações, formas, fontes, conseguimos desenhar o Gente Passageira.

Sei que em dois anos não publiquei tantas histórias como gostaria. Mas sei também que cada história foi escrita com muita dedicação. Histórias tristes, como “João quer ser gente e “Vida e morte passageiras”. Outras com críticas ao transporte público, como “Os ônibus que aqui passeiam…” e “De carro ou de ônibus, eis a questão”. E, é claro, as engraçadas, como “O peru no colo do homem”, “Era uma vez um milk shake” e as mais acessadas até hoje “Toda cagada” e “Toda cagada – Parte 2”. É gostoso relembrar como cada uma delas aconteceu e como foi prazeroso tê-las escrito.

Em dois anos de blog, foram muitos os leitores que se deram ao trabalho de escrever suas próprias histórias vividas como gente passageira e mandar para o blog. Cada uma delas foi recebida de maneira especial, e nunca me sentia sozinha. Recentemente, pelo Instagram do Gente Passageira, passei a receber imagens de leitores que enviam fotos tiradas em ônibus mundo afora. Além de Brasília, já chegaram retratos de São Paulo, Paraná, Estocolmo, Paris, Viena, Londres… todos ajudando a contar por meio de breves relatos como é a vida de gente passageira por aí.

O Gente Passageira passou a integrar a iniciativa “Escritores em Brasília”, do jornalista e escritor Paulo Renato Souza Cunha, que teve a gentileza de divulgar meu trabalho ao lado dos de escritores de verdade. O Gente Passageira também virou reportagem do Correio Braziliense, carinhosamente idealizada pela jornalista Ana Sá e generosamente escrita pela querida Mariana Niederauer. O blog também despertou a atenção da dona do “Diário de uma Teimosa”, Vânia Romão, que descobriu o Gente Passageira lá na Suécia. O site também inspirou a fotógrafa Adriene Antunes a criar o ensaio fotográfico “Quotidien”, apresentado em São Paulo como trabalho de conclusão de curso de sua faculdade de fotografia. Sem contar as tantas pessoas desconhecidas que deixaram seus comentários e curtiram o blog sem nem me conhecer. Pessoas que adoravelmente compartilharam suas vivências pessoais e riram e choraram comigo. O Gente Passageira, um blog sobre gente, me deu o prazer de conhecer tanta gente especial.

As histórias que acontecem comigo e que são contadas no blog sempre tentam mostrar o lado doce da vida (a vida é ótima!). A ideia também é, claro, criticar o transporte público em nosso país (não é fácil ser gente passageira) e fazer pensar: “se fosse bom, eu deixaria meu carro em casa e passaria a andar de ônibus?”.

O ônibus é a minha segunda casa e um espaço mágico, onde tudo pode acontecer. No ônibus, há janelas em que me vejo de dentro pra fora, de fora pra dentro. E, para mim, os melhores livros viajam de ônibus. Não os de papel, mas os de carne e osso. As pessoas, portanto, são as leituras que mais me inquietam e atraem, sobretudo as anônimas. Foi andando de ônibus que eu aprendi a ser gente.

Vida longa ao Gente Passageira e aos leitores do blog. Obrigada a todos que fizeram o site chegar até aqui!