Deveria nunca ser tarde para voltar

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Postado dia 08 de março de 2016 em Eu na história
Foto: Sarita González

Foto: Sarita González

Mais cedo ou mais tarde, toda mulher se dá conta de que, para o mundo, seu próprio corpo não lhe pertence. Sinto-me privilegiada por nunca ter sido estuprada. Por ter um noivo feminista. Meu irmão nunca me fez achar que lavar louça era tarefa de mulher. Meu pai me mostrou que eu poderia ser quem eu quisesse. Minha mãe me inspira por tudo o que passou junto às mulheres de sua geração para lutar para que tivéssemos mais direitos hoje; minha irmã me mostrou, desde cedo, que eu não precisava usar sutiã se eu não estivesse com vontade. E me ensinou que lugar de mulher é onde ela quiser, mesmo. Diante das privações e atrocidades vividas por tantas mulheres, sim, me sinto privilegiada e até uma exceção.

Existe o dentro de casa, mas existe também o mundo lá fora. E, de tantas desigualdades que existem entre mulheres e homens, destaco o que deveria ser o “simples” direito de ir e vir. Andar na rua para onde quer que seja. Caminhar sozinha sem ter medo de ser assediada.

Dia desses encontrei uma amiga num bar da Asa Sul, em Brasília, à noite. Trocamos confidências e risos maravilhosos. Quando terminamos a última taça de sangria, fui para a parada esperar o ônibus que me levaria até a minha casa. Eram 23h. Machistas pensariam: “que absurdo uma mulher ficar sozinha na parada de ônibus, tarde da noite, após tomar três taças de vinho com uma amiga. Ela merece ser assediada.” Eu não quero que as minhas filhas, sobrinhas, netas vivam num mundo assim.

Na parada de ônibus, esperava o transporte em pé, obviamente olhando para a pista. Alguns minutos depois, chegaram quatro rapazes de mochila para esperar ônibus também. Pareciam ser colegas saindo de alguma aula. De costas para o grupo, ouvi um deles dizer: “ei, gostosa. Olha pra cá, não quer dar uma ideia pra gente, não?”. Virei-me com cara de reprovação e eles começaram a rir de mim. Achei que pararia por ali, mas não. Um deles disse para um dos colegas: “eu duvido, cara, que você tem coragem de chegar lá nela e mexer com ela de verdade”. E então o rapaz se aproximou de mim de forma nojenta e disse qualquer coisa desaforada perto do meu ouvido. Afastei-me dele, ele voltou para perto dos colegas. Fui tomada de raiva, meu corpo tremeu por inteiro. Depois, me senti um lixo. Olhei para eles enfurecida, novamente, como se quisesse reagir, e ouvi: “tá nervosinha, gatinha? Pode ficar que eu até prefiro assim.”

Murchei. Veio a terrível sensação de impotência. O medo de não saber o que aconteceria se eu continuasse lá, sozinha com eles. Minha ideia foi entrar no primeiro ônibus que passasse. Ou seja, mais uma vez fugir das consequências do olhar equivocado que grande parte dos homens tem sobre todas as mulheres. Quando veio o primeiro ônibus, certifiquei-me de que eles não o pegariam também, e entrei. A linha era para São Sebastião. Moro em Sobradinho. A liberdade de ir e vir que não existe para as mulheres.

Paguei R$ 4 de passagem para andar duas quadras e fugir do assédio daqueles homens. Não é por gastar dinheiro a indignação, vocês entendem? É por ser vista como um pedaço de carne. É por fugir sem ter feito nada de errado. Fugir do risco de ser destroçada de todas as formas. Por sentir que fugi de mim mesma. Passei pela roleta desse ônibus com um choro cáustico preso na garganta. Parecia ter tentado engolir um grosso pedaço de vidro que não desceria jamais. E os pontos do machucado do vidro cortando a minha garganta na caminhada pelo ônibus eu nunca tirei.

Desci em uma parada em que havia uma senhora. Ela estava morrendo de medo de estar ali. Ficamos juntas, conversamos. Compartilhamos as dores de sermos mulheres sozinhas em paradas de ônibus. Ela me contou que trabalha há 12 anos como empregada doméstica em uma residência perto dali, e que sempre espera o ônibus das onze da noite para Planaltina naquela parada. Outra mulher com medo. E novamente me senti privilegiada por não precisar pegar ônibus diariamente neste horário, e me pus a pensar em todas as mulheres que morrem de medo e que morrem de verdade ao esperar o transporte público. Meu ônibus chegou e meu coração partiu por ter de deixá-la lá. Era o último ônibus da noite para Sobradinho. Desejei-lhe sorte.

Contei essa história para homens e mulheres próximos a mim. Todos lamentaram, ficaram enfurecidos pelo risco que corri e pelo mundo ser como é. Mas de todos ouvi: “Sarita, infelizmente, acho melhor você deixar de pegar ônibus à noite. O mundo é terrível, mas o que você pode fazer?”.

Continuo voltando tarde. É que deveria nunca ser tarde para voltar para casa.

Foi por 25 centavos

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Postado dia 20 de março de 2015 em Micro-micos
Sarita González

Sarita González

Em um certo ponto da rotina, um acontecimento aparentemente inofensivo mudou o final do meu dia. Já aconteceu com você? Naquela quinta-feira, ao sair do trabalho para ir à aula de francês de ônibus, uma estagiária perguntou quem tinha 25 centavos para que ela pudesse inteirar sua passagem. Eu tinha, e dei a ela.

Depois da aula, fui encontrar uns amigos para a despedida de um deles, o Rafa. Ele partiria para o Canadá em 48 horas. Eu estava triste, feliz, e ansiosa, ao mesmo tempo. Além de um amigo especial, o Rafa é meu grande parceiro de paradas de ônibus em Brasília. Quando saíamos juntos, ele sempre ficava comigo no ponto até que meu ônibus chegasse.

Jantamos entre risos e picos de saudade antecipada com Síl, Bella e Giu. Foi daquelas noites em que sabemos que algo grande está para acontecer, mas tentamos não pensar muito a respeito. Quando saímos do restaurante, na Asa Sul, fui até a parada de ônibus com Rafa e Bella. Tiramos fotos, trocamos abraços, e ainda marcamos encontros que não aconteceram em 48 horas. O tempo.

Bella partiu para o Guará. Eram 23h, e Rafa continuava comigo na parada. Peguei minha carteira para separar o dinheiro da passagem e, quando viu, Rafa arregalou os olhos para mim: “Caraaaaaca! Agora que percebi! Estou sem dinheiro, só com cartão!”. Sem problemas, eu pagaria a dele. Comecei a contar, e: R$ 1, R$ 2, R$ 3, R$ 4, R$ 5… e 75 centavos! Precisávamos de R$ 6 para as passagens – R$ 3 para cada um. “E agora, Rafa? Só tenho R$ 5,75! Eu emprestei 25 centavos para uma estagiária mais cedo!”. “Putz, Sarita, você tinha que emprestar dinheiro pra estagiária justo hoje?!”, disse ele, morrendo de rir, assim como eu.

Veio vindo o ônibus. Demora tanto para chegar, e, quando chega, vem na hora mais complicada. Não tinha dado tempo de pensarmos no que fazer. Ficamos nervosos. Como íamos passar pela roleta sem a passagem completa? Subimos no ônibus lentamente, como se ainda desse tempo de pensar no que fazer. “Boa noite”, dissemos ao motorista e ao cobrador. O segundo não retribuiu. Rafa foi direto: “moço, deixa eu te falar, a gente só tem R$ 5,75. Estão faltando 25 centavos, sabe? Será que tem como quebrar esse galho, por favor?”. O cobrador foi sucinto: “tem não”. Rafa insistiu: “poxa, moço, só hoje. A gente acabou de se dar conta disso. Já são 23h30, como vamos voltar para casa?”. E o cobrador reforçou: “não, de jeito nenhum”. Fiquei mais envergonhada ainda quando vi que os passageiros do ônibus olhavam para a gente sem parar. E agora, vida?

O sofrimento durou pouco, e uma mulher generosa que estava sentada num dos primeiros assentos acompanhava a situação. Ela nos olhava com pena, e Rafa pediu a ela: “Moça, será que tem como você nos dar 25 centavos, por gentileza?”, suplicou. Eu complementei: “por favor, moça!”. “Mas é claro”, disse ela, separando duas moedas de 10 e outra de 5. Entregamos para o cobrador, que pareceu ter xingado a gente bem baixinho.

Quando nos sentamos, rimos de alívio e de nervosismo pela situação. Perto da gente, a mulher solidária disse: “Que coisa! O cobrador não liberou a passagem de vocês por 25 centavos! Minha Nossa Senhora, que absurdo!”. É claro que, na verdade, o cobrador estava certo. Se a passagem custa 3 reais, não pode liberar por R$ 2,75. Ele está fazendo o trabalho dele. Mas aqueles 25 centavos tinham ajudado outra pessoa mais cedo, a estagiária que também é gente passageira, né, Sarah? Imaginamos que o cobrador pudesse nos socorrer, mas seria injusto com ele e com outros passageiros. Que bom que uma desconhecida nos salvou. Parece até que a solidariedade vai se movimentando, como a vida.

O que eu aprendi dessa situação foi: se você é gente passageira, NÃO ANDE COM DINHEIRO CONTADO NA CARTEIRA. E confira o dinheiro antes de ir até a parada, né, Rafa?! E vamos parar de colocar a culpa no(a) estagiário(a), viu? Eu, hein!

Foi minha última viagem de ônibus com meu amado Rafa, desde então, e tinha que ser polêmica e saudosa como ele.