De passagem no busão

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Postado dia 22 de fevereiro de 2016 em Micro-micos, Você é o passageiro
Giulia Batelli - Arquivo pessoal

Giulia Batelli – Arquivo pessoal

Passageira da vez: Giulia Batelli

Idade: 25 anos

Profissão: estudante

“Quase não ando de ônibus, mas, quando ando, meu maior prazer é puxar a cordinha para descer.”

“Saí da última aula do dia e mandei mensagem para o meu irmão, que iria me buscar. Estava sem carro e, como ele trabalha próximo à Universidade de Brasília, onde estudo, ofereceu carona e me pediu para esperar na parada de ônibus da lateral do ICC Norte, pois o trânsito que forma nos pavilhões é sempre intenso no fim das aulas. Caminhei em direção à parada e fiquei animada ao ver que estava vazia e eu teria um lugar para me sentar. Coloquei meu fone de ouvido e pus para tocar o novo CD da banda Passion Pit. Estava completamente entretida, quando um ônibus parou em frente a mim. Como só tinha eu na parada, olhei para o motorista e, instintivamente, sinalizei com as mãos que eu não iria embarcar e, ainda, sorri e agradeci levantando o polegar direito. Fiquei encantada com a atitude. Aliás, eu poderia ser uma pessoa desatenta à espera de um ônibus. Alguém que precisaria esperar mais algum tempo até que outro passasse. Mal me comuniquei com o motorista e a porta traseira abriu passagem para duas pessoas descerem. Sem graça, desviei o olhar e procurei agir com a maior naturalidade. Refletindo sobre a minha pouca experiência com ônibus, me lembrei de que quem sinaliza é o passageiro, e não o motorista.”

Lições de um passageiro mirim

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Postado dia 14 de julho de 2015 em Personagem da vez

Não fui dessas crianças que só andava de carro para cima e para baixo. Apesar de ter tido uma infância bastante confortável, meus pais sempre me mostraram o transporte público como uma opção. Lembro-me do quanto achava divertido, por exemplo, ter de passar por cima ou por baixo da roleta, acompanhada de minha mãe, além de ter tantas opções de assentos para escolher quando entrava no ônibus.

Mas nem sempre é legal andar de ônibus quando se é criança, sobretudo pelos problemas do transporte público. Outro dia vi uma cena de cortar o coração. Entrei no ônibus e sentei-me na poltrona abaixo de onde fica o cobrador. Quando o motorista começou a andar alguns metros em direção à parada seguinte, vi uma mulher segurando a mão de um menino de uns 6 anos. Mãe e filho. Eles estavam saindo de uma escolinha, onde a mãe busca a criança de ônibus todos os dias.

Ambos corriam muito. Além de se preocupar com o filho, a mãe ainda carregava uma mochilinha, uma pasta amarela infantil e a própria bolsa. O ônibus em que eu estava desacelerou na parada pretendida pelos dois, mas parecia que não daria tempo deles chegarem. Na parada, alguns passageiros começavam a subir no coletivo. Da janela, eu acompanhava a corrida dos dois. Gosto de janela de ônibus por isso. Ela me mostra o mundo, as pessoas, suas emoções. As minhas também. A mãe já estava descabelada, o garotinho com olhos arregalados, a alça da mochila caindo do ombro da mulher.

Quase todos os passageiros do ônibus já haviam terminado de subir. Fiquei nervosa. O motorista engatou a primeira marcha e pensei: “Não! Eles não podem perder o ônibus!”. Eles teriam de enfrentar uma longa espera pelo próximo. Perder ônibus é atraso de vida.

Quando o motorista começou a pisar no acelerador, vi que mãe e filho se aproximavam de minha janela. Finalmente eles apareceram na porta da frente. O motorista voltou atrás na partida e esperou que eles entrassem. Subiram os degraus ainda no clima daquela grande luta para chegar. Chegar: o grande desejo de quem enfrenta a rotina de ser passageiro de ônibus.

Com a respiração ofegante, a mãe levantou a criança, já grandinha para estar no colo, a fim de passá-la por cima da roleta. Tornou a equilibrar bolsa, mochila, pasta amarela, filho. E então o cobrador, muito simpático, cumprimentou mãe e filho, perguntando ao segundo: “E aí, garotinho?! Tudo bem com você?”. De repente, a criança, suada, começou a chorar desesperadamente. Pensando ter feito algo errado, o cobrador perguntou para a criança: “O que foi que aconteceu, rapaz?”. E, enquanto o pequeno soluçava de tanto chorar, o cobrador virou-se para a mãe em busca de respostas: “Está tudo bem com ele, moça? Ele se machucou?”. A mãe, com aparelho nos dentes, deu um sorriso sereno, como se já tivesse entendido o motivo do choro do filho. Mas o pequeno respondeu, passando a mãozinha esquerda nos olhos encharcados: “Fiquei com medo de perder o ônibus”.

Provavelmente, a mãe já devia ter falado ou demonstrado para a criança como é difícil depender de ônibus. Deve ter dito o quanto são cheios, demorados, com horários irregulares. Deve ter explicado ao garoto o que acontece quando se perde o horário do ônibus.

Achei aquilo tão verdadeiro. Foi quando entendi a correria do garoto com os olhinhos tão assustados. Vi o motivo do choro de alívio, de sossego no coração porque, a partir daquele momento, só faltava passar pela roleta com a mamãe e se sentar até chegar em casa.

Andar de ônibus também nos ensina. A gente aprende a ser mais responsável. Percebe que o mundo não gira em torno da gente, que é bom e saudável ceder o lugar para alguém. Descobre que é preciso respeitar horários (mesmo que não seja recíproco), que trata-se de algo coletivo. Vê que é preciso lutar muito para conseguir algo, por mais simples que seja. Meus filhos também vão andar de ônibus.