Lágrimas passageiras

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Postado dia 04 de setembro de 2014 em Conversas paralelas
Sarita González

Sarita González

  Seria uma viagem de ônibus como todas as outras que faço depois da aula de francês, às segundas e quartas-feiras, à noite. Mas, naquele dia, minha viagem durou mais que o esperado. Levei os mesmos 50 minutos de sempre para chegar em casa, mas meu pensamento fez uma longa viagem em torno de uma mulher que chorava dentro do ônibus.

Fui andando pelo corredor rumo ao final do ônibus, quando vi a única passageira daquele ônibus, além de mim, chorando inconsolavelmente enquanto olhava o celular. Sentei-me no assento alto, uma fileira atrás dela, mas do outro lado, como se quisesse observá-la.

Vi que ela estava no bate-papo do Facebook trocando mensagens com alguém enquanto caía aos prantos. Levava a mão à cabeça e encostava a testa na janela do ônibus. Fiquei intrigada e profundamente mexida o ver aquilo. A moça, que parecia ter uns 30 anos, estava sofrendo por algum motivo e eu não sabia o que fazer.

Foram entrando outros passageiros, e todos os que passavam por ela reparavam. Comecei a pensar no que poderia ter acontecido a ela. “Será que alguém da família dela morreu?”, “Ou foi demitida do emprego?”, “Será que terminou com o (a) namorado (a)?”. Será que eu e os outros passageiros impressionados com todo aquele sofrimento, além de curiosidade, também teríamos coragem de oferecer ajuda a ela? Não tive.

Mais e mais passageiros entravam no ônibus, e, 20 minutos após o início daquela viagem, olhei exatamente para todos os assentos do ônibus e vi que o único desocupado ainda era o banco ao lado de onde estava aquela mulher. As pessoas ficavam receosas de se sentar ao lado dela. Medo de incomodar ou de fazer parte, de certa forma, de um momento tão íntimo daquela mulher, mesmo que manifestado em um transporte público.

Mas veio vindo pelo corredor do ônibus uma senhora que desacelerou o passo assim que viu e ouviu o choro da moça. Tenho certeza de que ela teria se sentado ao lado dela ainda que restassem 20 bancos vazios. Mesmo se houvesse uma área vip no ônibus com champagne só para ela. Mesmo se tivesse hemorroidas. Mesmo se qualquer coisa. Mesmo. Aquele banco esperava por aquela senhora, a melhor pessoa daquele ônibus para ajudar a moça inconsolável.

Assim que se sentou, a mulher olhou para a moça ao lado e percebeu o choro. Abriu a bolsa. Pensei, inocentemente, que seria um lenço ou algo assim. Coisas de que, quem chora, precisa. Mas, é claro, aquela mulher tentaria alcançar muito além das lágrimas da moça: o coração.

Tirou da bolsa o celular. Colocou carinhosamente a mão direita no ombro da moça que chorava, como se a conhecesse, chamando-a. Abriu uma imagem com um texto e entregou-lhe o celular, como se fosse um remédio. A moça finalmente reagiu. Enxugou brevemente as mãos molhadas de lágrimas na calça e aceitou o celular. Começou a ler. A senhora solidária ao lado olhou para frente, como se não quisesse pressioná-la a ler ou a esboçar uma reação. A expressão no olhar da moça foi mudando. Ela apertou os olhos e colocou o dedo indicador deitado abaixo do nariz como se quisesse se conter.

Abraçaram-se. Aquilo era tudo de que a moça precisava para se sentir um pouco melhor. Fiquei emocionada ao ver aquele gesto e a forma como ela conseguiu se acalmar diante daquilo. Nunca saberei o que dizia aquele texto milagroso. Nunca saberei o porquê daquele choro e se poderia ter lhe ajudado também. Mas sei que posso ao menos tentar, da próxima vez.

Deus e a cachaça no ônibus

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Postado dia 29 de julho de 2014 em Personagem da vez

Domingo de Páscoa, e o ônibus era só silêncio e sol. Tinha acabado de sair do plantão no jornal e estava em um assento perto do cobrador. A viagem seria breve. Em poucos minutos, na rodoviária do Plano Piloto, eu pegaria o ônibus que finalmente me levaria para casa. Sentei, exausta. Sequer tive coragem de tirar a mochila que carregava na parte da frente do corpo, como um canguru-bebê. Olhava para o nada. Seria apenas mais uma viagem de ônibus, mas não foi. Três minutos após minha entrada, a porta se abriu. Aquele silêncio de um domingo brasiliense iria embora para os passageiros daquela linha pelo resto da viagem.

Uma mulher subiu os degraus do coletivo pisando bem forte. Olhei da minha janela para o lado de fora, como se quisesse saber de onde ela vinha. Na grama perto de um prédio comercial, dois homens compartilhavam uma garrafa. “Moço, deixa eu passar e falar com os passageiros, por favor”, ela gritou para o cobrador logo na entrada. “Não, senhora”, ele respondeu, folheando o jornal do dia, como se não se importasse. “Cobrador, pelo amor de Deus. Deixa eu passar pela roleta, bater um papo com os passageiros, e depois eu te dou o dinheiro da passagem”, ela implorou. Liberada.

Ali, perto de mim e do cobrador, a mulher meio cambaleante iniciou um discurso bem diferente dos que eu já havia visto dentro de um ônibus. “Gente, eu preciso de dinheiro pra beber, pelo amor de Deus. Eu tô viciada em cachaça”, pediu, sinceramente. Deus e cachaça. Fiquei surpresa. Aquilo era bem diferente do que dizem algumas pessoas que entram no ônibus para falar sobre crença e fidelidade a Deus. Em seguida, costuma vir o “dízimo”. Subir no palco do ônibus e falar para desconhecidos não deixa, no entanto, de ser um ato de coragem.

Sem rodeios, aquela mulher havia deixado claro que queria dinheiro para tomar cachaça. Como ninguém se manifestou, ela insistiu: “Não é cerveja, minha gente. É cachaça. Eu preciso de cachaça. Por favor, alguém me ajuda com dois reais que o meu dinheiro acabou e meu corpo está pedindo cachaça”, implorou, chorando. Minha garganta deu um nó. O susto pela sinceridade da mulher se juntou à tristeza em vê-la dependente da bebida e implorando para que seu vício fosse sustentado. O cobrador se manifestou: “Larga de ser cara de pau e vai trabalhar, minha filha. Ficar pedindo dinheiro pra comprar cachaça… Tem vergonha não? E vê se paga o dinheiro da passagem que você prometeu”.

Talvez imaginando que fosse melhorar sua situação, a mulher disse, aos prantos: “Ninguém vai me ajudar, gente? Eu tô com fome! Não como desde ontem. Minha cabeça dói, estou passando mal”. Uma jovem que estava sentada perto de mim levou na direção da mulher um ovo de Páscoa pequeno, todo enfeitado e embalado, que parecia ter sido dado de presente a ela pouco antes de subir no ônibus. “Toma, moça, pode comer”, ofereceu para a mulher. Segurando com as duas mãos nas pilastras do ônibus, a mulher desviou o olhar e não respondeu nada para a jovem. “Gente, alguém me ajuda”, implorou. E então um homem que estava no fundo do ônibus gritou: “Você não disse que estava com fome? Por que não aceita o ovo de Páscoa da garota? Você quer é cachaça!”, disse, crucificando-a. A mulher, então, descontrolou-se e caminhou rapidamente para o meio do ônibus assumindo: “Eu preciso de cachaça. Meu corpo pede. Minha boca quer sangrar com o desejo de cachaça. Estou pedindo para que vocês me ajudem a alimentar meu vício, porque é isso. Estou viciada e preciso de dois reais para beber cachaça”.

Quatro pessoas se levantaram e entregaram moedas para ela, que as foi contando logo em seguida, uma a uma, desesperadamente. Eu não tinha dinheiro além do da passagem do ônibus seguinte. Ela separou três reais, o dinheiro da passagem daquela viagem, e estendeu o dinheiro ao cobrador, que fez o possível para não encostar na mão dela. O ônibus se aproximava da rodoviária. As pessoas começavam a se levantar para descer e eu continuava impressionada com aquela cena triste. A mulher desceu rapidamente do ônibus, como se já soubesse onde encontrar o que queria. Desci em seguida e fui para o outro ônibus pensando se eu teria dado dinheiro a ela, caso tivesse. Pensei que sim. E não que fosse meu desejo que ela se entregasse para o próprio vício. Mas é que eu também tenho os meus e sou tão humana quanto ela.