Eu não sabia que não estava grávida

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Postado dia 30 de janeiro de 2014 em Micro-micos

Não tem nada a ver com aquele programa transmitido na TV por assinatura que mostra casos de mulheres que descobriram que esperavam um bebê aos 45 minutos do segundo tempo da gestação. Essa é mais uma história de um mico cometido por mim num desses ônibus de Brasília. Quem é passageiro deve concordar que sonecas tiradas durante viagens de ônibus estão entre as mais gostosas do mundo. Mas, para você dormir no ônibus, vai depender do espaço que ocupa dentro do coletivo. Quem tem o privilégio de sentar-se na poltrona do cantinho, por exemplo, costuma encostar a cabeça na janela e deixar a preguiça entrar suavemente.

Já se você se senta no lugar próximo ao corredor, deve tomar um pouco mais de cuidado, pois há grandes chances de o sono estar tão profundo que te leva a acomodar sem querer a cabeça no ombro do passageiro ao lado ou de fazer algo até pior, como no dia em que meu peru de Natal foi parar no colo de um homem.

Se você entrou no ônibus depois que ele já estava cheio e o jeito é ir em pé, há duas opções: segurar o sono com todas as forças ou segurar firme onde puder para não cair (de sono, literalmente). Prefiro não dormir no ônibus (apesar de adorar), para não perder as histórias que são contadas aqui. Mas tem vezes que simplesmente não dá, e, ainda assim, rende uma história para contar.

Não sei você, mas, quando eu entro exausta no ônibus depois de um dia cansativo ou para dar continuidade a um sono malsucedido da manhã, tenho certeza de qual é o meu lugar preferido para tirar o descanso dos deuses. Abaixo de onde se senta o(a) cobrador(a) do ônibus, existe um lugar em que o sono parece ficar melhor. E olha que eu já dormi em todos os lugares possíveis do coletivo e de todas as formas que descrevi anteriormente. Mas, de tanto experimentar, decidi que aquele seria eternamente meu lugar preferido para dormir (no ônibus, é claro). Acho que é porque lá posso esticar minhas pernas e acomodar meu corpo de um jeito que o líquido do sono desce melhor. Sendo assim, quando já na parada de ônibus sei que vou entrar no veículo para dormir, ao entrar, fico chateada quando vejo que aquele lugar já está ocupado. Sei lá, fico com ciúmes. Até ter sonhos naquele lugar eu já tive. Mas a história que eu vou contar agora, quando aconteceu, pareceu mais um pesadelo.

Havia entrado no ônibus por volta das oito e meia da noite, depois de um dia cheio. Um dia bom, mas com várias coisas para resolver, muito trabalho, compromissos, ligações, e, desde o momento em que cheguei à parada, tive certeza de que dormiria assim que me sentasse. Foi o que aconteceu. Por sorte, ainda pude me sentar no meu lugar preferido, e não faltava nada para que eu fosse feliz até chegar em casa. Dormi, dormi e dormi. Dormir no ônibus já é um mico em si, pois o corpo relaxa de tal forma que você sempre acorda de um jeito polêmico, seja com a boca mais-que-aberta, seja todo(a) descabelado(a). Naquele dia, acordei com um grande susto. Minutos antes, quando havia entrado no ônibus, ele estava vazio. Não é à toa que até pude escolher onde me sentar.

Depois de algum tempo de sono, quando abri metade de um olho, observei em câmera lenta, seguindo a letargia do momento, que o ônibus estava lotado. Mas, em seguida, meus dois olhos se abriram completamente e vi uma mulher em pé, do meu lado, segurando na barra de ferro próxima ao meu cabelo. Quando a vi, ali bem perto de mim, a primeira coisa que achei foi que ela estivesse grávida. É que sua barriga realmente estava um pouco elevada e com um formato que parecia guardar um neném ali dentro. Gente, nada contra o peso de ninguém, quem sou eu para falar qualquer coisa. Mas, naquele momento, após despertar assustada de um sono e, reparando rapidamente, realmente achei o que achei. E o motivo do meu susto foi ter me sentido culpada por estar sentada e ela, para mim uma gestante, estar em pé passando sufoco. Assim que a vi, levantei rápido como nunca do meu lugar. Foi quase um duplo twist carpado, um movimento muito louco que eu nunca tinha feito, mas foi como meu corpo se manifestou diante daquela imagem. Levantei já dizendo para ela: “Moça, moça, sinto muito. Eu estava dormindo esse tempo todo. Cansada, sabe? Realmente não te vi, não sabia que você estava aqui do meu lado, em pé! Nossa, me desculpa! Mesmo! Você, grávida, e em pé. Ninguém merece”. E apontei para o meu lugar indicando que ela se sentasse. “Senta aqui, vai”, disse sorrindo. Durante todo o meu falatório ela olhava muito fixamente nos meus olhos como quem não entendia o que estava acontecendo. Já eu, não entendia o olhar dela, mesmo depois de tudo o que eu falei. “Ei, eu não estou grávida”, ela resumiu. Arregalei os olhos e espiei rapidamente as pessoas que estavam por perto, visivelmente me julgando ou querendo rir da situação. Quando ouvi aquilo, parecia que um líquido quente e ardido, totalmente diferente do líquido do sono, começava a circular no meu corpo. Eu estava simplesmente morta de vergonha. Fiquei tão chocada com aquilo que minha reação naquele momento (devo dizer, minhas reações diante de situações inesperadas e constrangedoras como esta não são muito normais) foi me sentar rapidamente (mais rápido do que quando me levantei) na mesma poltrona e fechar os olhos.

Não sei que reação foi aquela, nem coragem de pedir desculpas eu tive. Talvez tenha sido uma vontade de fingir que aquela minha atitude fazia parte de um pesadelo meu, que havia começado desde o primeiro momento em que eu fechei os olhos para dormir naquele ônibus. E então mantive os olhos fechados por todo o resto da viagem e com o pensamento a mil depois de tanto constrangimento. De olhos fechados, mas mais acordada do que nunca.

Nem foi tempo perdido

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Postado dia 17 de dezembro de 2013 em Eu na história

Era para ser um dia normal, mas foi uma terça-feira doce de dezembro. Eu estava sentada em um dos pares de poltronas altas do ônibus quando, ao mesmo tempo, entraram um garoto de mochila e uma mulher de uns quarenta e poucos anos, aparentemente com dificuldade de se locomover. Próximos da roleta, ele a deixou, gentilmente, passar primeiro. Passou. Eu estava lá no meu lugar sentada, de um jeito meio jogada, como de costume, observando a cena. Era um dia frio, daqueles que te dão certeza de que na noite anterior choveu.

Depois que a mulher passou pela roleta, ela veio em minha direção como se eu a esperasse para escrever essa história. Eu estava na poltrona perto do corredor, então, virei-me de lado para que ela entrasse naquela dupla de bancos e se sentasse próximo da janela. Depois que ela se sentou ao meu lado, vi que o garoto que havia entrado ao mesmo tempo que ela no ônibus ainda estava posicionado na roleta tentando insistentemente passar o cartão na catraca. Alguma coisa dava errado e não o deixava passar. Vi no rosto dele uma expressão de constrangimento e de dúvida a respeito do que poderia fazer.

Quando viu aquilo, com dificuldade, a mulher ao meu lado se levantou do banco colado no meu, com o ônibus em movimento, e mostrou que queria ajudar o garoto. “Peraí, jovem. Vou levar dinheiro para você. Espere um pouco”, ela disse. O barulho do motor do ônibus era tão alto que quase ninguém deve ter ouvido aquilo, além de mim.

E então surgiu um rapaz do fundo do ônibus, que havia me chamado a atenção no início da viagem quando, ainda na rodoviária de Sobradinho, entrou no ônibus. Cabelo cacheado e um pouco grande, aparentemente com gel nas pontas; lápis nos olhos; e jaqueta de couro vermelha, a cara do Michael Jackson.

Ele não era Michael Jackson, mas, sim, mais um passageiro generoso. Ao mesmo tempo em que a mulher com dificuldade de andar e que estava ao meu lado se pronunciou querendo ajudar o garoto de mochila preso na roleta, esse outro surgiu do fundo do ônibus muito rapidamente e andou em direção ao início do corredor. Ele pagou a passagem do garoto de mochila, que finalmente poderia andar de ônibus como todos os outros passageiros. Durante todo esse tempo, a mulher ao meu lado permaneceu em pé, como se quisesse participar de tudo aquilo.

Veio vindo de volta pelo corredor o sósia do Michael Jackson para voltar para seu lugar no fundo do ônibus e, quando ele passou perto do meu banco e do da mulher, prontamente ela o puxou e disse: “Moço, eu já estava indo ajudar o garoto, mas você foi mais rápido do que eu! Olha, parabéns pela sua atitude, viu? De verdade. Vamos rachar a passagem dele, vou te dar a metade. Toma aqui seus R$ 1,50”, ela disse. Ao que ele respondeu: “Imagina, precisa não, sério mesmo”, respondeu ele, sorrindo. Ela insistiu e ele acabou aceitando, mas a história não termina aí.

Finalmente a mulher se sentou no banco ao lado do meu e, na parada seguinte, entrou pela porta de trás do coletivo um vendedor de balas. Aproveitando o curto tempo de viagem para a venda, ele já entrou falando todas as opções de doces que vendia. “Olha o Mentos, olha a jujuba, olha o amendoim, olha o Halls, olha a cocada…”. O vendedor se dirigiu para o início do corredor para começar as ofertas pelo cobrador. Uma jovem lá na frente foi a primeira a comprar. Entregou o dinheiro e ele agradeceu. Em seguida, outra jovem comprou um pacote de Mentos, e fiquei surpresa quando ela entregou a bala para o garoto que, minutos antes, havia ficado preso na roleta porque seu cartão não passara. Era como se ela tentasse minimizar o constrangimento dele, que ainda estava estampado em seu rosto. Ele aceitou e o abriu um largo sorriso.

Naquele momento, parecia que todo o ônibus se iluminava. As pessoas haviam sido contagiadas por um sentimento de solidariedade. Tudo aquilo também me contagiou. Quando o vendedor de balas passou do meu lado, tirei R$ 2 da bolsa e entreguei para ele pedindo dois pacotes de jujuba. Quando ele me deu as balas, nada pude fazer senão entregar um dos pacotes para aquela mulher que estava ao meu lado, e que havia demonstrado um sentimento tão generoso ao tentar ajudar o garoto na roleta minutos antes. “Toma, pra você, esse pacote de jujubas”, eu falei. “Ah, sério?! Vou aceitar como presente de Natal, então”, ela respondeu sorrindo. Eu sorri de volta.

Vi que ela tentava abrir o pacote de jujubas, mas não conseguia. “Moça, você pode abrir o saquinho pra mim? É que sofri um grave acidente há alguns meses e fiquei com as mãos um pouco comprometidas. As pernas também, mas elas estão se recuperando mais rapidamente”, ela revelou. Eu disse “claro que sim” e abri para ela. Até pensei em perguntar o que havia acontecido, como tinha sido o acidente, mas achei que o momento não era apropriado.

Ela puxou uma jujuba amarela e a levou até a boca. “Você quer uma?”, ela me perguntou brincando. Ela estava me oferecendo uma das jujubas do pacote que eu havia lhe dado. “Claro, obrigada”, eu disse, pegando uma jujuba vermelha, minha preferida, e esboçando um sorriso. E foi assim nos minutos seguintes. Ela comia uma jujuba e me oferecia outra. Ela dizia “Você quer?” e eu respondia “Claro que sim”. Jujubas são tão doces que você não come apenas uma e fecha o pacote. Você as mastiga todas em sequência, como se aquilo fosse uma lista de músicas preferidas. Ela comia uma e me oferecia outra. E trocávamos risos de quem acha que a vida é leve.

Quando o pacote de jujubas que eu havia dado para aquela mulher acabou, sosseguei o corpo novamente na cadeira e me deu vontade de colocar música nos ouvidos. “Tempo perdido”, do Legião Urbana, foi a que me seduziu, e apertei play no celular. Eu estava feliz com tudo aquilo, e ouvir aquela música era uma tentativa de fazer entrar ainda mais vida dentro de mim.

Com a música nos ouvidos, me pus a observar o vendedor de balas, que continuava seu trabalho pelo ônibus. Quase nenhum passageiro havia resistido ao que era vendido. Não sei se era vontade generalizada de doces ou se todos estavam mais sensíveis e generosos. Será que era o clima de Natal? Só sei que aquela mulher ao meu lado havia me dado uma lição naquela manhã doce de terça-feira. Sua dificuldade de se locomover lhe impediu de ajudar o garoto da roleta a tempo, mas ela não perdeu a chance de ajudar quem o havia conseguido ajudar, mesmo que com pouco dinheiro.

Na vida, por mais que não tenhamos tido tempo de fazer algo que gostaríamos, nunca é tarde. Se queremos muito, tiramos forças para concretizar aquilo que desejamos. E foi isso que aquela mulher fez naquele dia. “Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens”.