Nem foi tempo perdido

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Postado dia 17 de dezembro de 2013 em Eu na história

Era para ser um dia normal, mas foi uma terça-feira doce de dezembro. Eu estava sentada em um dos pares de poltronas altas do ônibus quando, ao mesmo tempo, entraram um garoto de mochila e uma mulher de uns quarenta e poucos anos, aparentemente com dificuldade de se locomover. Próximos da roleta, ele a deixou, gentilmente, passar primeiro. Passou. Eu estava lá no meu lugar sentada, de um jeito meio jogada, como de costume, observando a cena. Era um dia frio, daqueles que te dão certeza de que na noite anterior choveu.

Depois que a mulher passou pela roleta, ela veio em minha direção como se eu a esperasse para escrever essa história. Eu estava na poltrona perto do corredor, então, virei-me de lado para que ela entrasse naquela dupla de bancos e se sentasse próximo da janela. Depois que ela se sentou ao meu lado, vi que o garoto que havia entrado ao mesmo tempo que ela no ônibus ainda estava posicionado na roleta tentando insistentemente passar o cartão na catraca. Alguma coisa dava errado e não o deixava passar. Vi no rosto dele uma expressão de constrangimento e de dúvida a respeito do que poderia fazer.

Quando viu aquilo, com dificuldade, a mulher ao meu lado se levantou do banco colado no meu, com o ônibus em movimento, e mostrou que queria ajudar o garoto. “Peraí, jovem. Vou levar dinheiro para você. Espere um pouco”, ela disse. O barulho do motor do ônibus era tão alto que quase ninguém deve ter ouvido aquilo, além de mim.

E então surgiu um rapaz do fundo do ônibus, que havia me chamado a atenção no início da viagem quando, ainda na rodoviária de Sobradinho, entrou no ônibus. Cabelo cacheado e um pouco grande, aparentemente com gel nas pontas; lápis nos olhos; e jaqueta de couro vermelha, a cara do Michael Jackson.

Ele não era Michael Jackson, mas, sim, mais um passageiro generoso. Ao mesmo tempo em que a mulher com dificuldade de andar e que estava ao meu lado se pronunciou querendo ajudar o garoto de mochila preso na roleta, esse outro surgiu do fundo do ônibus muito rapidamente e andou em direção ao início do corredor. Ele pagou a passagem do garoto de mochila, que finalmente poderia andar de ônibus como todos os outros passageiros. Durante todo esse tempo, a mulher ao meu lado permaneceu em pé, como se quisesse participar de tudo aquilo.

Veio vindo de volta pelo corredor o sósia do Michael Jackson para voltar para seu lugar no fundo do ônibus e, quando ele passou perto do meu banco e do da mulher, prontamente ela o puxou e disse: “Moço, eu já estava indo ajudar o garoto, mas você foi mais rápido do que eu! Olha, parabéns pela sua atitude, viu? De verdade. Vamos rachar a passagem dele, vou te dar a metade. Toma aqui seus R$ 1,50”, ela disse. Ao que ele respondeu: “Imagina, precisa não, sério mesmo”, respondeu ele, sorrindo. Ela insistiu e ele acabou aceitando, mas a história não termina aí.

Finalmente a mulher se sentou no banco ao lado do meu e, na parada seguinte, entrou pela porta de trás do coletivo um vendedor de balas. Aproveitando o curto tempo de viagem para a venda, ele já entrou falando todas as opções de doces que vendia. “Olha o Mentos, olha a jujuba, olha o amendoim, olha o Halls, olha a cocada…”. O vendedor se dirigiu para o início do corredor para começar as ofertas pelo cobrador. Uma jovem lá na frente foi a primeira a comprar. Entregou o dinheiro e ele agradeceu. Em seguida, outra jovem comprou um pacote de Mentos, e fiquei surpresa quando ela entregou a bala para o garoto que, minutos antes, havia ficado preso na roleta porque seu cartão não passara. Era como se ela tentasse minimizar o constrangimento dele, que ainda estava estampado em seu rosto. Ele aceitou e o abriu um largo sorriso.

Naquele momento, parecia que todo o ônibus se iluminava. As pessoas haviam sido contagiadas por um sentimento de solidariedade. Tudo aquilo também me contagiou. Quando o vendedor de balas passou do meu lado, tirei R$ 2 da bolsa e entreguei para ele pedindo dois pacotes de jujuba. Quando ele me deu as balas, nada pude fazer senão entregar um dos pacotes para aquela mulher que estava ao meu lado, e que havia demonstrado um sentimento tão generoso ao tentar ajudar o garoto na roleta minutos antes. “Toma, pra você, esse pacote de jujubas”, eu falei. “Ah, sério?! Vou aceitar como presente de Natal, então”, ela respondeu sorrindo. Eu sorri de volta.

Vi que ela tentava abrir o pacote de jujubas, mas não conseguia. “Moça, você pode abrir o saquinho pra mim? É que sofri um grave acidente há alguns meses e fiquei com as mãos um pouco comprometidas. As pernas também, mas elas estão se recuperando mais rapidamente”, ela revelou. Eu disse “claro que sim” e abri para ela. Até pensei em perguntar o que havia acontecido, como tinha sido o acidente, mas achei que o momento não era apropriado.

Ela puxou uma jujuba amarela e a levou até a boca. “Você quer uma?”, ela me perguntou brincando. Ela estava me oferecendo uma das jujubas do pacote que eu havia lhe dado. “Claro, obrigada”, eu disse, pegando uma jujuba vermelha, minha preferida, e esboçando um sorriso. E foi assim nos minutos seguintes. Ela comia uma jujuba e me oferecia outra. Ela dizia “Você quer?” e eu respondia “Claro que sim”. Jujubas são tão doces que você não come apenas uma e fecha o pacote. Você as mastiga todas em sequência, como se aquilo fosse uma lista de músicas preferidas. Ela comia uma e me oferecia outra. E trocávamos risos de quem acha que a vida é leve.

Quando o pacote de jujubas que eu havia dado para aquela mulher acabou, sosseguei o corpo novamente na cadeira e me deu vontade de colocar música nos ouvidos. “Tempo perdido”, do Legião Urbana, foi a que me seduziu, e apertei play no celular. Eu estava feliz com tudo aquilo, e ouvir aquela música era uma tentativa de fazer entrar ainda mais vida dentro de mim.

Com a música nos ouvidos, me pus a observar o vendedor de balas, que continuava seu trabalho pelo ônibus. Quase nenhum passageiro havia resistido ao que era vendido. Não sei se era vontade generalizada de doces ou se todos estavam mais sensíveis e generosos. Será que era o clima de Natal? Só sei que aquela mulher ao meu lado havia me dado uma lição naquela manhã doce de terça-feira. Sua dificuldade de se locomover lhe impediu de ajudar o garoto da roleta a tempo, mas ela não perdeu a chance de ajudar quem o havia conseguido ajudar, mesmo que com pouco dinheiro.

Na vida, por mais que não tenhamos tido tempo de fazer algo que gostaríamos, nunca é tarde. Se queremos muito, tiramos forças para concretizar aquilo que desejamos. E foi isso que aquela mulher fez naquele dia. “Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens”.

O dia em que fui chamada de demônio na parada

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Postado dia 13 de março de 2013 em Micro-micos

Nessa longa estrada da vida conhecemos tanta gente! O (a) amiguinho da terceira série “C” que era parceiro de lanche na hora do recreio; o (a) vizinho (a) que esperava você chegar da escola para colar no seu portão e convidar para o pique-pega da noite; o primeiro amor – ah, o primeiro amor! – que se perdeu de você sem você nem perceber, mas que deixou uma saudade gostosa no peito. Mas também tem aquela pessoa que te decepcionou, alguém que não te deu uma segunda chance (ou sequer uma oportunidade), um grande amigo que partiu da vida bem antes da hora, aquela paixão que foi embora sem mais nem menos. E você mesmo (a) já deve ter encantado e decepcionado muita gente por aí. Mas a vida é assim mesmo: movimento. E é tão movimentada que até nos deixa tonto. Só que, o que não pode nos endoidecer, é imaginar o que essas pessoas que passaram por sua vida – e que foram embora ou não – pensam de verdade sobre você.

Vamos para a história de ônibus: após uma manhã de trabalho, desci do prédio onde trabalhava, na Esplanada dos Ministérios, e fui esperar o coletivo para ir até a Rodoviária do Plano Piloto. A parada estava tão cheia que eu nem sabia mais se as pessoas esperavam ônibus ou se estavam organizando uma manifestação qualquer. Céu nublado. Vento de chuva vindo. Peguei meu casaquinho branco e vesti como quem se prepara para o pior. As pessoas conversavam muito, se queixavam da demora do ônibus, reclamavam do tempo. Eu não tinha muito o que fazer, então resolvi fazer meu check-in para aquela viagem: contar as moedinhas que estavam no meu moedeiro.

Enquanto esperava o ônibus, contava moedinha por moedinha até que desse R$ 1,50 (valor da passagem do ônibus Integração, que me levaria até a rodoviária). Estava doida para entrar naquele ônibus: ele era geladinho, tinha um cheiro de aeroporto do qual me lembro até hoje e muitos, muitos lugares. Ele era o céu perto de muitos ônibus por aí. O galã da frota de Brasília. O bendito é o fruto entre os coletivos de Brasília. Acho que o que lhe tornava mais atraente era a ilusão que ele proporcionava – como tudo na vida, né não? A viagem era curtinha e cheia de “mordomias”, então eu gostava de esperar para entrar naquele ônibus.

A quantidade de moedinhas no meu moedeiro competia com o número de pessoas que chegava à parada de ônibus. Gente demais. Eu ainda não havia terminado de contar todo o dinheiro, talvez porque ficava espiando a pista para checar se meu ônibus vinha. Entre uma espiada e outra, me chamou a atenção uma mulher de cabelos brancos que se aproximava da parada onde estávamos eu e praticamente todos os figurantes de cena de casamento da novela das 8. Essa mulher estava com roupas em cima de roupas, usava um chapéu estilo Tiririca e carregava na mão esquerda um saco de lixo preto. Na direita, ela manuseava um celular, que ela abria e fechava insistentemente. Vi que ela vinha andando e falando sozinha. Já no primeiro momento, fiquei com dó de pensar na triste situação pela qual estaria passando.

Quando terminei de contar minhas moedinhas, meu olhar se cruzou com o dela. Ela começou a vir em minha direção. Parou a uns oito passos na minha frente, acomodou o saco de lixo no chão e ergueu o celular na minha direção, posicionado como uma cruz de exorcismo. Fiquei tensa. Olhei ao redor, mas parecia que ninguém estava vendo aquilo. Tolerei a situação (como no dia em que um homem tomou o milk shake de Ovomaltine da minha mão, bebeu um gole grande e depois o jogou no meio da pista em plena parada do Pátio Brasil). Acreditei que ela só estava me dando uma encarada e, depois de inevitáveis cinco segundos de olho no olho, resolvi desviar o olhar. EIS QUE teve início um dos momentos mais constrangedores da minha vida. Aquela mulher com chapéu do Tiririca ergueu a voz e o celular exorcista e começou a me acusar: “Você é o demônio! Saia de perto de mim! Você não vai me possuir, não vou deixar! Seu verme, seu demônio, vá arder no inferno que eu não te quero perto de mim!”. Quem me conhece sabe que, infelizmente, minha reação imediata em momentos de nervosismo é… rir! E foi o que, naturalmente, comecei a fazer diante daquela situação, mas de modo sutil. Ela prosseguiu: “Você ri de mim, seu demônio? Seu verme, seu capeta!”, com olhar furioso e olhos arregalados enquanto segurava o celular em minha direção como o padre de chapéu preto dos anos 1970 fazia. A coisa ficou séria quando olhei ao meu redor e notei que aquele mundo de gente na parada de ônibus me olhava com cara desconfiada e aflita, com pena de mim. Por um momento, eu, no auge dos meus 19 anos –  quando é comum achar que se deve justificar tudo sobre si para as pessoas (conhecidas ou não) -, até ensaiei brevemente um comunicado para todo mundo que diria: “Gente, eu não sou demônio. Nem verme. Não conheço essa mulher, ela é louca!”.

Hoje, cinco anos depois, morro de rir dessa história e, ainda bem que não me dei ao trabalho de me justificar para as pessoas. Na vida, não importa como os outros te enxergam. O que vale é conhecer a si mesmo e ter a certeza de que, quem te ama de verdade, vai te enxergar exatamente como você é.

Veja outras perseguições em:
 
- “Vambora, Ludmila!”

- “A perseguição do homem das moedinhas na passarela”