O dia em que fui chamada de demônio na parada

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Postado dia 13 de março de 2013 em Micro-micos

Nessa longa estrada da vida conhecemos tanta gente! O (a) amiguinho da terceira série “C” que era parceiro de lanche na hora do recreio; o (a) vizinho (a) que esperava você chegar da escola para colar no seu portão e convidar para o pique-pega da noite; o primeiro amor – ah, o primeiro amor! – que se perdeu de você sem você nem perceber, mas que deixou uma saudade gostosa no peito. Mas também tem aquela pessoa que te decepcionou, alguém que não te deu uma segunda chance (ou sequer uma oportunidade), um grande amigo que partiu da vida bem antes da hora, aquela paixão que foi embora sem mais nem menos. E você mesmo (a) já deve ter encantado e decepcionado muita gente por aí. Mas a vida é assim mesmo: movimento. E é tão movimentada que até nos deixa tonto. Só que, o que não pode nos endoidecer, é imaginar o que essas pessoas que passaram por sua vida – e que foram embora ou não – pensam de verdade sobre você.

Vamos para a história de ônibus: após uma manhã de trabalho, desci do prédio onde trabalhava, na Esplanada dos Ministérios, e fui esperar o coletivo para ir até a Rodoviária do Plano Piloto. A parada estava tão cheia que eu nem sabia mais se as pessoas esperavam ônibus ou se estavam organizando uma manifestação qualquer. Céu nublado. Vento de chuva vindo. Peguei meu casaquinho branco e vesti como quem se prepara para o pior. As pessoas conversavam muito, se queixavam da demora do ônibus, reclamavam do tempo. Eu não tinha muito o que fazer, então resolvi fazer meu check-in para aquela viagem: contar as moedinhas que estavam no meu moedeiro.

Enquanto esperava o ônibus, contava moedinha por moedinha até que desse R$ 1,50 (valor da passagem do ônibus Integração, que me levaria até a rodoviária). Estava doida para entrar naquele ônibus: ele era geladinho, tinha um cheiro de aeroporto do qual me lembro até hoje e muitos, muitos lugares. Ele era o céu perto de muitos ônibus por aí. O galã da frota de Brasília. O bendito é o fruto entre os coletivos de Brasília. Acho que o que lhe tornava mais atraente era a ilusão que ele proporcionava – como tudo na vida, né não? A viagem era curtinha e cheia de “mordomias”, então eu gostava de esperar para entrar naquele ônibus.

A quantidade de moedinhas no meu moedeiro competia com o número de pessoas que chegava à parada de ônibus. Gente demais. Eu ainda não havia terminado de contar todo o dinheiro, talvez porque ficava espiando a pista para checar se meu ônibus vinha. Entre uma espiada e outra, me chamou a atenção uma mulher de cabelos brancos que se aproximava da parada onde estávamos eu e praticamente todos os figurantes de cena de casamento da novela das 8. Essa mulher estava com roupas em cima de roupas, usava um chapéu estilo Tiririca e carregava na mão esquerda um saco de lixo preto. Na direita, ela manuseava um celular, que ela abria e fechava insistentemente. Vi que ela vinha andando e falando sozinha. Já no primeiro momento, fiquei com dó de pensar na triste situação pela qual estaria passando.

Quando terminei de contar minhas moedinhas, meu olhar se cruzou com o dela. Ela começou a vir em minha direção. Parou a uns oito passos na minha frente, acomodou o saco de lixo no chão e ergueu o celular na minha direção, posicionado como uma cruz de exorcismo. Fiquei tensa. Olhei ao redor, mas parecia que ninguém estava vendo aquilo. Tolerei a situação (como no dia em que um homem tomou o milk shake de Ovomaltine da minha mão, bebeu um gole grande e depois o jogou no meio da pista em plena parada do Pátio Brasil). Acreditei que ela só estava me dando uma encarada e, depois de inevitáveis cinco segundos de olho no olho, resolvi desviar o olhar. EIS QUE teve início um dos momentos mais constrangedores da minha vida. Aquela mulher com chapéu do Tiririca ergueu a voz e o celular exorcista e começou a me acusar: “Você é o demônio! Saia de perto de mim! Você não vai me possuir, não vou deixar! Seu verme, seu demônio, vá arder no inferno que eu não te quero perto de mim!”. Quem me conhece sabe que, infelizmente, minha reação imediata em momentos de nervosismo é… rir! E foi o que, naturalmente, comecei a fazer diante daquela situação, mas de modo sutil. Ela prosseguiu: “Você ri de mim, seu demônio? Seu verme, seu capeta!”, com olhar furioso e olhos arregalados enquanto segurava o celular em minha direção como o padre de chapéu preto dos anos 1970 fazia. A coisa ficou séria quando olhei ao meu redor e notei que aquele mundo de gente na parada de ônibus me olhava com cara desconfiada e aflita, com pena de mim. Por um momento, eu, no auge dos meus 19 anos –  quando é comum achar que se deve justificar tudo sobre si para as pessoas (conhecidas ou não) -, até ensaiei brevemente um comunicado para todo mundo que diria: “Gente, eu não sou demônio. Nem verme. Não conheço essa mulher, ela é louca!”.

Hoje, cinco anos depois, morro de rir dessa história e, ainda bem que não me dei ao trabalho de me justificar para as pessoas. Na vida, não importa como os outros te enxergam. O que vale é conhecer a si mesmo e ter a certeza de que, quem te ama de verdade, vai te enxergar exatamente como você é.

Veja outras perseguições em:
 
- “Vambora, Ludmila!”

- “A perseguição do homem das moedinhas na passarela”

Amigo fiel: o preparador para corridas até ônibus

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Postado dia 26 de outubro de 2012 em Personagem da vez

Não sei o que vende, mas, quase todo dia, aquela mulher pega o mesmo ônibus que eu para ir até a rodoviária do Plano Piloto. Trabalha como ambulante. A parada dela é depois da minha, o que me dá o privilégio de acompanhar de longe sua luta. Eu já estou dentro do coletivo quando ele vai se aproximando da parada da moça de cabelos presos e rosto gentil. Ela vem correndo lá de baixo por uma área verde de uma das quadras de Sobradinho. Traz uma caixa de isopor debaixo do braço direito e, na mão esquerda, leva um carrinho com outras duas.

Sempre se atrasa, o que significa que nunca está na parada esperando o ônibus quando ele chega. Ela vem às pressas, e isso me faz pensar que sua vida deve ser difícil. Ônibus em movimento, vejo-a de longe da minha janela subindo desesperadamente. Quando sinto que não vai dar tempo de o transporte parar para que a mulher entre, instintivamente, começo a pisar num freio imaginário para ver se ajuda. Ainda bem que o motorista sempre espera.

Ao lado da mulher e correndo na mesma velocidade como se fosse um preparador físico, sempre lhe acompanha um cachorrinho com cara de menino bom, que a incentiva. Ele é o treinador daquela atleta na modalidade “Ralação pelo pão de cada dia”. Na verdade, nada mais é do que um companheiro fiel. Após árdua corrida, quando ambos chegam até a parada, vejo que ela está com a respiração ofegante. Ele, com a linguinha de fora. Cão e dona notam que, não somente o comandante do ônibus lhes deu apoio naquela batalha, mas também todos os passageiros que lá dentro estavam torciam para que ela não perdesse a viagem.

Chega a hora de se despedirem. A pressão é tão grande que ela mal olha para o cachorro e entra no ônibus. Ele faz cara de mãe quando o filho que está atrasado vai para a escola. “Vai lá, não deu tempo de dar tchau direito, mas tudo bem. Boa sorte. Vai com Deus”, imagino que ele pense. O cachorrinho ainda abana o rabo, como se estivesse comemorando o fato de ter dado tudo certo mais uma vez.

Quando o ônibus dá partida, o que vejo é o cachorrinho sentado na parada de ônibus certificando-se de que estará tudo bem com sua dona dentro daquele veículo gigante até onde alcançarem seus olhos.

Essa sempre é uma das mais belas cenas de amizade do dia ou até mesmo o ponto alto daquele trajeto, quando mais nada é capaz de sensibilizar tanto o meu coração.