Monólogo de dois sobre caso a três

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Postado dia 31 de outubro de 2012 em Conversas paralelas

(…)

(Voz feminina grave):
A vizinha teve é que fazer macumba pro ‘homi’. Tinha jeito mais não.
 
(Voz feminina fina):
– É mesmo? Nossa senhora! Como pode? Mas como que não tinha jeito?
 
(Voz feminina grave):
– Tinha não, tô dizendo. Ele fugia pro barraco da safada da outra toda noite de quarta-feira.
 
(Voz feminina fina):
– Meu Deus… E depois voltava pra casa da ‘muié’ pra tomar sopa?
  
(Voz feminina grave):
– E era toda quarta mesmo.  Ela gostou mais não. Cansou demais. Acho que agora o homem tá é cego…
 
(Voz feminina fina):
– Virgem Maria! Pobre dele!
 
(Voz feminina grave):
–  Pobre nada. Ele sabia das pernas’ que’ tava se metendo…
 
Já era noite e eu estava em pé na parada ouvindo essa conversa que acontecia atrás de mim. Olhava para a pista, mas meus ouvidos estavam grudados no diálogo. O que os olhos não veem, o ouvido interpreta como quer. Eu imaginava que duas mulheres fofocavam sobre uma terceira. A história que comentavam, portanto, me parecia ser a de uma mulher que havia feito macumba ou algo assim para o ex-marido depois de descobrir que ele fugia para se encontrar com a vizinha às quartas-feiras. Achei graça quando comecei a ouvir aquilo e daquele jeito.
 

Visão é sedenta. Não aguentei e olhei para trás a fim de ver as tais comadres que tricotavam. Espanto, mas não decepção. O que vi foi uma única mulher falando. Sim, apenas uma! Vestia uma saia florida, blusa branca de manguinha e tinha a pele bem envelhecida. Segurava uma sacola branca de plástico. Ela sequer reparou que eu a olhava. Alternava a voz fina e inocente com a grossa e brava. Fazia personagens. A cada interpretação, um modo de olhar diferente. Não achei saída naquele momento e pensei: “Gente, ela é louca”.

Enquanto o transporte não chegava, foi a minha vez de enlouquecer tentando adivinhar qual das mulheres da história – a esposa traída ou a amante – era a mesma que estava sentada na parada de ônibus.