Coisa de mãe

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Postado dia 11 de setembro de 2015 em Conversas paralelas, Eu na história
Foto: Sarita González

Foto: Sarita González

Era para ser uma espera tranquila pelo ônibus. Mas esperar ônibus nunca é tranquilo, na verdade. Naquele fim de tarde eu estava na parada, aguardando o coletivo para ir à biblioteca da Universidade de Brasília. Seria o primeiro dos dois ônibus que pego para chegar até lá. Ele estava atrasado, mas não estranhei. Restou-me sentar no banco da parada e sentir aquela brisa gostosa da noite que vinha.

Clima sereno, solidão da espera. Carros que iam e vinham. Alguém chegou para me fazer companhia: do outro lado da pista, veio correndo, toda estabanada, uma cadelinha preta cheia de tetinhas. Ela era toda serelepe, com personalidade, e atravessou a pista sem medo. Não resisto a cachorros e, quando os vejo, sempre tento me aproximar. Assobiei para ela a fim de conhecê-la melhor. Mas ela estava inquieta, parecia procurar algo. Mesmo assim, fui tomada por um sentimento de alegria por ter um serzinho tão agradável perto de mim.

O sentimento bom logo se transformou em desespero. A cachorrinha começou a atravessar a pista sucessivas vezes. Ia pra lá, voltava. Ia pra lá de novo, e lá estava ela pertinho de mim outra vez. Minha preocupação era que ela pudesse ser atropelada a qualquer momento. Por ser fim de tarde, muitos carros se movimentavam na rua. Levantei-me, como se pudesse fazer algo. Quando ela estava do outro lado, assobiei para ela e disse “vem pra cá, neném”, como se ela pudesse acalmar meu coração. A cachorrinha insistente em perambular e muito atrevida estava decidida a procurar o que tinha em mente, e os carros se revezavam com suas buzinas quando ela quase ia parar debaixo deles.

Minha barriga começou a doer de ansiedade para que ela sossegasse na parada. Ela não veio. “O que eu posso fazer?”, pensei. Não dava simplesmente para pegar a cachorrinha no colo a fim de protegê-la ou até levá-la para a minha casa. Além de não saber se ela pertencia a alguém, eu sei que não posso controlar todas as questões do mundo, apesar de sempre querer isso. Eu estava tão nervosa com a possibilidade de ela ser atropelada, que decidi não mais acompanhá-la ziguezagueando na pista. Mas, obviamente, não consegui distanciar meus olhos dela. Quando outros passageiros chegaram à parada – dois homens e uma mulher – vi que eles se conheciam e conversavam. De repente, a cachorrinha veio até a parada e se aproximou de um dos homens, aceitando receber carinho. Ele disse: “Ô, mais tá muito bonita essa cachorrinha, gente!”. E a mulher comentou: “Está mesmo, tadinha, mas parece estar muito perdidinha, ainda”. “Pois é, por que é que ela fica de um lado para o outro na pista? Ela é sempre tão tranquilinha”, o homem indagou. Ao que ela respondeu: “Ué, você não soube? Ela teve filhotinhos outro dia e tiraram dela para vender. Desde então, ela ficou meio desnorteada porque acha que pode encontrar os filhotinhos em qualquer lugar. Mas eles já devem estar longe”.

Lágrimas no meu coração. Compreendi o porquê de a cachorrinha ficar de um lado para o outro na pista, correndo risco entre os carros. Ela buscava seus bebezinhos, que, pelo que eu entendi, haviam sido tirados dela.

Meu ônibus, já muito atrasado, começou a descer do terminal em direção à parada. Eu continuava sem poder fazer nada a respeito da cachorrinha. Só conseguia pensar na dor de qualquer mamãe em ter de ficar longe de seus filhinhos (e vice-versa), e mentalizei bons sentimentos para ela. Quando me sentei em uma das poltronas do ônibus, mais ao fundo, vi que já havia caído a noite e ela continuava preocupada com seus filhotes. Coisa de mãe.

Foi por 25 centavos

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Postado dia 20 de março de 2015 em Micro-micos
Sarita González

Sarita González

Em um certo ponto da rotina, um acontecimento aparentemente inofensivo mudou o final do meu dia. Já aconteceu com você? Naquela quinta-feira, ao sair do trabalho para ir à aula de francês de ônibus, uma estagiária perguntou quem tinha 25 centavos para que ela pudesse inteirar sua passagem. Eu tinha, e dei a ela.

Depois da aula, fui encontrar uns amigos para a despedida de um deles, o Rafa. Ele partiria para o Canadá em 48 horas. Eu estava triste, feliz, e ansiosa, ao mesmo tempo. Além de um amigo especial, o Rafa é meu grande parceiro de paradas de ônibus em Brasília. Quando saíamos juntos, ele sempre ficava comigo no ponto até que meu ônibus chegasse.

Jantamos entre risos e picos de saudade antecipada com Síl, Bella e Giu. Foi daquelas noites em que sabemos que algo grande está para acontecer, mas tentamos não pensar muito a respeito. Quando saímos do restaurante, na Asa Sul, fui até a parada de ônibus com Rafa e Bella. Tiramos fotos, trocamos abraços, e ainda marcamos encontros que não aconteceram em 48 horas. O tempo.

Bella partiu para o Guará. Eram 23h, e Rafa continuava comigo na parada. Peguei minha carteira para separar o dinheiro da passagem e, quando viu, Rafa arregalou os olhos para mim: “Caraaaaaca! Agora que percebi! Estou sem dinheiro, só com cartão!”. Sem problemas, eu pagaria a dele. Comecei a contar, e: R$ 1, R$ 2, R$ 3, R$ 4, R$ 5… e 75 centavos! Precisávamos de R$ 6 para as passagens – R$ 3 para cada um. “E agora, Rafa? Só tenho R$ 5,75! Eu emprestei 25 centavos para uma estagiária mais cedo!”. “Putz, Sarita, você tinha que emprestar dinheiro pra estagiária justo hoje?!”, disse ele, morrendo de rir, assim como eu.

Veio vindo o ônibus. Demora tanto para chegar, e, quando chega, vem na hora mais complicada. Não tinha dado tempo de pensarmos no que fazer. Ficamos nervosos. Como íamos passar pela roleta sem a passagem completa? Subimos no ônibus lentamente, como se ainda desse tempo de pensar no que fazer. “Boa noite”, dissemos ao motorista e ao cobrador. O segundo não retribuiu. Rafa foi direto: “moço, deixa eu te falar, a gente só tem R$ 5,75. Estão faltando 25 centavos, sabe? Será que tem como quebrar esse galho, por favor?”. O cobrador foi sucinto: “tem não”. Rafa insistiu: “poxa, moço, só hoje. A gente acabou de se dar conta disso. Já são 23h30, como vamos voltar para casa?”. E o cobrador reforçou: “não, de jeito nenhum”. Fiquei mais envergonhada ainda quando vi que os passageiros do ônibus olhavam para a gente sem parar. E agora, vida?

O sofrimento durou pouco, e uma mulher generosa que estava sentada num dos primeiros assentos acompanhava a situação. Ela nos olhava com pena, e Rafa pediu a ela: “Moça, será que tem como você nos dar 25 centavos, por gentileza?”, suplicou. Eu complementei: “por favor, moça!”. “Mas é claro”, disse ela, separando duas moedas de 10 e outra de 5. Entregamos para o cobrador, que pareceu ter xingado a gente bem baixinho.

Quando nos sentamos, rimos de alívio e de nervosismo pela situação. Perto da gente, a mulher solidária disse: “Que coisa! O cobrador não liberou a passagem de vocês por 25 centavos! Minha Nossa Senhora, que absurdo!”. É claro que, na verdade, o cobrador estava certo. Se a passagem custa 3 reais, não pode liberar por R$ 2,75. Ele está fazendo o trabalho dele. Mas aqueles 25 centavos tinham ajudado outra pessoa mais cedo, a estagiária que também é gente passageira, né, Sarah? Imaginamos que o cobrador pudesse nos socorrer, mas seria injusto com ele e com outros passageiros. Que bom que uma desconhecida nos salvou. Parece até que a solidariedade vai se movimentando, como a vida.

O que eu aprendi dessa situação foi: se você é gente passageira, NÃO ANDE COM DINHEIRO CONTADO NA CARTEIRA. E confira o dinheiro antes de ir até a parada, né, Rafa?! E vamos parar de colocar a culpa no(a) estagiário(a), viu? Eu, hein!

Foi minha última viagem de ônibus com meu amado Rafa, desde então, e tinha que ser polêmica e saudosa como ele.