Derretida pela Promessa no ônibus

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Postado dia 25 de fevereiro de 2015 em Conversas paralelas, Você é o passageiro
Iasminny Thábata

Iasminny Thábata

Passageira da vez: Iasminny Thábata
Idade: ​24​ anos
Profissão: ​analista de BI, Jornalista freelancer.​
Paixão: ​viagens, livros e boas histórias​.
Assento preferido: ​na primeira cadeira atrás do banco alto, no fundo do ônibus, ao lado da porta de saída.​
Livro de janela: O atual​ – Meio Intelectual, Meio de Esquerda, dAntônio Prata. ​​
Linha mais esperada: ​306, Taguatinga Sul – Rodoviária do Plano Piloto.
O que mais detesto em andar de ônibus:​ a espera e a incerteza constante de que ele vai passar, e se vai passar na hora. Na chuva, o clima denso e abafado dentro do busão.
O que me faz amar ser gente passageira:​ o tempo para pensar na vida, nos problemas, ler e fazer anotações.

“Hoje, chorei. Primeiro por dentro, depois, derretida – enquanto o ônibus atravessava a Estrutural, a 80 quilômetros por hora, sem me deixar ver direito o motorista do carro ao lado. ​Tentei focar a visão para dentro do coletivo e não pude realmente entender o gosto da balinha vendida, nem o discurso das doenças e das dificuldades de saúde da esposa do vendedor. Filha? Era manhã, mas nublavam-se o céu, e meus olhos.

O motivo era o Prata, como usual nos últimos dias.

​Em formato de presente com dedicatória de um eterno amigo, o Antônio do livro foi o escolhido para me acompanhar nas viagens da semana. O selecionado dentre o calhamaço de opções literárias: deixei Tolstói de lado por ele, e no meu banco predileto, ao lado da porta traseira, sozinha, chorei. ​

Pelas linhas da ‘Promessa’ – este é o nome da crônica, eu me alimentei de cada sílaba com muita imaginação e respeito, e com muito carinho pela situação tão corriqueira daquelas linhas – um encontro num bar como aquele que tive semana passada com amigos tão semelhantes aos descritos. Não é um texto triste, portanto, mas muito poderoso por avisar aos leitores desavisados que a felicidade – tão querida e almejada, não acontece apenas porque chegamos em algum ponto.

Nem a felicidade, nem o amor.

A promessa, a expectativa e a busca corrente são as únicas coisas que podemos esperar e ter como certas. Não é simplesmente irônico isso? Ter a certeza apenas de que nada passa de promessa. É quase antagônico entender esse enlace de opostos, a certeza de uma promessa.

Não houve beijos, nem despedidas que justificassem racionalmente minha lagrimazinha no fundo do ônibus, mas ao ler um agradecimento à Vida ao que não passava de um “presente ambíguo: uma possibilidade de amar”, entendi que dentre as vírgulas que costumo rascunhar, a Vida é linda, gente.

Sentada, confortavelmente como dava, com o transporte com lugares vazios, fechei o livro ainda marcando a página com os dedos. Prata me dizia claramente (inspirado por Caio Fernando Abreu) que a ‘única felicidade possível é a promessa de felicidade’, a promessa de quando conhecemos alguém ao virar a esquina. Da promessa do inesperado – que é certo, eu adicionaria.

Daí veio a onda quentinha sob o óculos. Primeiro interna, com o caso de amor contado; depois na pálpebra, ao reler a perda de fome descrita pelo narrador ao final; e, ainda após: racional, ao voltar naquele parágrafo que diz como a gente comumente ‘inflaciona a felicidade em outdoors e campanhas…’ E me ocorreu, secando com indicador o choro teimoso e fino, que a vida apenas pode entregar possibilidades de inquestionável potencial. Inquestionável poder enquanto viajamos menos velozes que os carros. E daí chorei, derretida.”

Iasminny Thábata

A calcinha de Tereza

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Postado dia 31 de outubro de 2014 em Você é o passageiro
Passageira da vez: Sarah Donato
Idade: 25 anos
Profissão: estudante
Paixão: meus gatos
Assento preferido: em pé, no último vagão
Livro de janela: putz, são tantos…
Pensamentos passageiros: por que as pessoas não liberam o lado esquerdo das escadas para passagem? Será que é tão difícil?
Linha mais esperada: Metrô para Estação Águas Claras
O que mais detesto em andar de metrô: nada! Adoro!
O que me faz amar ser gente passageira: coletivo! Estamos juntos no mesmo lugar e pelo mesmo motivo! Chegar!!
 
Sarah Donato

Sarah Donato

A calcinha de Tereza

“Mais do que gente passageira, sou gente viajante! Ando de metrô todos os dias, mas sempre com outro meio de transporte junto – um bom livro. Pois bem, peguei o metrô em Águas Claras. Era mais um dia de sol escaldante na minha linda Brasília e, como de costume, fui em pé no último vagão. Meu destino? Rodoviária do Plano Piloto. Encontrei um lugarzinho para me segurar, o que nem sempre é fácil. Peguei meu livro da vez: “A Insustentável Leveza do Ser”. Embarquei em outra viagem, acompanhada de Tereza, a personagem do livro.

Bom, eu dificilmente sento no metrô, mesmo quando há cadeiras vagas. Não sei ao certo quando comecei a pensar assim, mas parto sempre do pressuposto de que alguém mais cansado do que eu vai embarcar na próxima estação e aproveitar a viagem sentado melhor do que eu. Mas nesse dia eu estava especialmente cansada. Eis que um jovem levanta e eu não resisto! Ufa! Que delícia sentar! Meus joelhos agradeceram.

Aliviada e contente, reabri meu livro. Tereza resolvera visitar o apartamento de um desconhecido, que adrenalina! De repente, sinto um desconforto. Sabe quando você sente alguém te olhando? Um passageiro em pé, ao lado da minha cadeira com os olhos vibrantes na pobre Tereza. Não o culpo, mas ele tinha que ficar de olho justo agora? Justo na hora em que o desconhecido tirava a calcinha de Tereza? Fiquei desconsertada. Nossos olhares se cruzaram. Eu sabia que ele tinha lido e ele sabia que eu tinha percebido. O que ele estava pensando de mim? “Humm, danadinha”. Fechei o livro de tanta vergonha. Resultado: passei o dia pensando na calcinha de Tereza.

Fui para o estágio, depois para a faculdade e o diacho da calcinha de Tereza não me deixava. Ela deixaria o desconhecido despi-la? Eles dormiriam juntos? Mas e o Tomaz, seu marido? Ah! Tereza, por que fez isso comigo?

Saí da faculdade e fui em direção ao metrô, louca para chegar em casa depois de um super dia! Lá para as 23h o movimento é bem menor nas estações, então consegui um lugarzinho bem sossegado, longe dos olhos curiosos. Fiz o ritual. Abri a mochila, peguei o livro, fechei a mochila, coloquei de volta nas costas e fui, com muita sede desvendar os segredos de Tereza! Finalmente!”