Deus e a cachaça no ônibus

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Postado dia 29 de julho de 2014 em Personagem da vez

Domingo de Páscoa, e o ônibus era só silêncio e sol. Tinha acabado de sair do plantão no jornal e estava em um assento perto do cobrador. A viagem seria breve. Em poucos minutos, na rodoviária do Plano Piloto, eu pegaria o ônibus que finalmente me levaria para casa. Sentei, exausta. Sequer tive coragem de tirar a mochila que carregava na parte da frente do corpo, como um canguru-bebê. Olhava para o nada. Seria apenas mais uma viagem de ônibus, mas não foi. Três minutos após minha entrada, a porta se abriu. Aquele silêncio de um domingo brasiliense iria embora para os passageiros daquela linha pelo resto da viagem.

Uma mulher subiu os degraus do coletivo pisando bem forte. Olhei da minha janela para o lado de fora, como se quisesse saber de onde ela vinha. Na grama perto de um prédio comercial, dois homens compartilhavam uma garrafa. “Moço, deixa eu passar e falar com os passageiros, por favor”, ela gritou para o cobrador logo na entrada. “Não, senhora”, ele respondeu, folheando o jornal do dia, como se não se importasse. “Cobrador, pelo amor de Deus. Deixa eu passar pela roleta, bater um papo com os passageiros, e depois eu te dou o dinheiro da passagem”, ela implorou. Liberada.

Ali, perto de mim e do cobrador, a mulher meio cambaleante iniciou um discurso bem diferente dos que eu já havia visto dentro de um ônibus. “Gente, eu preciso de dinheiro pra beber, pelo amor de Deus. Eu tô viciada em cachaça”, pediu, sinceramente. Deus e cachaça. Fiquei surpresa. Aquilo era bem diferente do que dizem algumas pessoas que entram no ônibus para falar sobre crença e fidelidade a Deus. Em seguida, costuma vir o “dízimo”. Subir no palco do ônibus e falar para desconhecidos não deixa, no entanto, de ser um ato de coragem.

Sem rodeios, aquela mulher havia deixado claro que queria dinheiro para tomar cachaça. Como ninguém se manifestou, ela insistiu: “Não é cerveja, minha gente. É cachaça. Eu preciso de cachaça. Por favor, alguém me ajuda com dois reais que o meu dinheiro acabou e meu corpo está pedindo cachaça”, implorou, chorando. Minha garganta deu um nó. O susto pela sinceridade da mulher se juntou à tristeza em vê-la dependente da bebida e implorando para que seu vício fosse sustentado. O cobrador se manifestou: “Larga de ser cara de pau e vai trabalhar, minha filha. Ficar pedindo dinheiro pra comprar cachaça… Tem vergonha não? E vê se paga o dinheiro da passagem que você prometeu”.

Talvez imaginando que fosse melhorar sua situação, a mulher disse, aos prantos: “Ninguém vai me ajudar, gente? Eu tô com fome! Não como desde ontem. Minha cabeça dói, estou passando mal”. Uma jovem que estava sentada perto de mim levou na direção da mulher um ovo de Páscoa pequeno, todo enfeitado e embalado, que parecia ter sido dado de presente a ela pouco antes de subir no ônibus. “Toma, moça, pode comer”, ofereceu para a mulher. Segurando com as duas mãos nas pilastras do ônibus, a mulher desviou o olhar e não respondeu nada para a jovem. “Gente, alguém me ajuda”, implorou. E então um homem que estava no fundo do ônibus gritou: “Você não disse que estava com fome? Por que não aceita o ovo de Páscoa da garota? Você quer é cachaça!”, disse, crucificando-a. A mulher, então, descontrolou-se e caminhou rapidamente para o meio do ônibus assumindo: “Eu preciso de cachaça. Meu corpo pede. Minha boca quer sangrar com o desejo de cachaça. Estou pedindo para que vocês me ajudem a alimentar meu vício, porque é isso. Estou viciada e preciso de dois reais para beber cachaça”.

Quatro pessoas se levantaram e entregaram moedas para ela, que as foi contando logo em seguida, uma a uma, desesperadamente. Eu não tinha dinheiro além do da passagem do ônibus seguinte. Ela separou três reais, o dinheiro da passagem daquela viagem, e estendeu o dinheiro ao cobrador, que fez o possível para não encostar na mão dela. O ônibus se aproximava da rodoviária. As pessoas começavam a se levantar para descer e eu continuava impressionada com aquela cena triste. A mulher desceu rapidamente do ônibus, como se já soubesse onde encontrar o que queria. Desci em seguida e fui para o outro ônibus pensando se eu teria dado dinheiro a ela, caso tivesse. Pensei que sim. E não que fosse meu desejo que ela se entregasse para o próprio vício. Mas é que eu também tenho os meus e sou tão humana quanto ela.

Um dia frio, um bom lugar na parada de ônibus

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Postado dia 22 de maio de 2014 em Eu na história

Às vezes eu acho que nunca chegará o dia em que terei a disposição das pessoas mais velhas para acordar cedo. Sou de dormir tarde, confesso, mas posso descansar um dia inteirinho que nunca estarei preparada para levantar antes das 10h com a maior vontade de viver do mundo.

Eram 5h30 da manhã. Se para muita gente é complicado acordar essa hora, para mim, é quase um sacrifício. Não sei se é a síndrome vasovagal que tenho no coração ou se é pura preguiça, mas, quando tenho que acordar tão cedo assim, as primeiras horas do meu dia se resumem ao pensamento obsessivo pelo momento em que finalmente poderei dormir, quando o dia acabar.

Naquele dia eu teria de substituir uma colega de trabalho e, por isso, tive de despertar cedinho. Quando coloquei o pé na rua senti um frio invadindo meu corpo inteiro, por mais agasalhada que eu estivesse. Quem vive em Sobradinho, os Alpes Suíços do Distrito Federal, sabe o que é frio. Sentir frio também não é meu forte e, naquele dia, desci a rua rapidamente para não bater tanto o queixo até chegar à parada de ônibus.

Enquanto andava, não via ninguém na rua além de mim mesma. Assim que eu me aproximava da parada, também notava que não havia ninguém lá. Já eram 6h da manhã, mas ainda estava cedo e eu parecia inaugurar o ponto de ônibus naquele dia.

Quando finalmente cheguei à parada, fiquei em pé, com o corpo virado para o lado esquerdo da pista, cabeça um pouco erguida em direção ao terminal rodoviário de Sobradinho. A cidade é cheia de altos e baixos e, nesse caso, eu tinha de olhar para o lado alto e ver se o meu ônibus estava chegando. Fiquei na pontinha da calçada, como se quisesse me adiantar para ver se, assim, o ônibus se apressava em chegar. Para tentar amenizar o frio e o desânimo, resolvi colocar os fones de ouvido e comecei a ouvir música em alto e bom som.

O frio, que nem os altos “sobrados sobradinhenses” conseguem interromper, concluiu a paralisação do meu corpo, iniciada às 5h30, quando o despertador do meu celular tocou. Eu olhava ao infinito e além. Não me mexia. Nem piscava. Meus olhos começavam a lacrimejar. Eu estava sozinha na parada. Parecia estar sozinha no universo. E então comecei a me perguntar o porquê de aquilo estar acontecendo comigo. “Por que tão cedo?”, “Por que tão frio?”, “Por que hoje?”, “Onde está minha cama?”, “Quando esse dia chegará ao fim?”. Fui tomada por um sentimento de profunda insatisfação com a vida e com o fato de eu, Sarita, maior inimiga do frio e do despertador precoce, ter sido vítima de ambos naquela manhã.

O tempo foi passando, mas não me dei conta disso por não ter conseguido me movimentar sequer para olhar o relógio do celular. Mas o sol me dizia mais ou menos a hora e, mesmo que ele se comunicasse comigo, eu continuava presa em meus pensamentos negativos, aumentados pela demora do ônibus.

Veio vindo o coletivo. A primeira coisa que pensei foi “ufa, com certeza irei sentada, estou sozinha aqui mesmo…”. Mas, quando o ônibus se posicionou e a porta se abriu, levei um susto quando tirei meus fones de ouvido e vi (e ouvi) surgindo pessoas por todos os lados. Parecia um formigueiro humano ou algumas daquelas pegadinhas japonesas em que uma multidão surge inesperadamente: vários tipos de vozes, ora cheiro de perfume doce, ora de cigarro, umas roupas menos coloridas do que outras. Naquela parada de ônibus havia, pelo menos, umas vinte pessoas imperceptíveis ao meu egoísmo matinal. Eram umas vinte pessoas que também haviam acordado cedo como eu e que, provavelmente, faziam isso todos os dias. Diferentemente delas, aquele meu sacrifício era uma exceção, uma coisa atípica na minha rotina sortuda. Vinte pessoas haviam chegado, uma a uma, depois de mim àquela parada de ônibus, naquela manhã, e todas elas teriam um longo dia pela frente, assim como eu. E, talvez, algumas delas estivessem com algum problema inquietante naquele dia, diferente de mim, cujo problema, naquela manhã, se dava, simplesmente, ao fato de ter de acordar tão cedo. Me dei conta de que, além daquelas vinte pessoas, outras milhares ou milhões já haviam acordado cedo e enfrentado uma longa espera em paradas de ônibus mundo afora. Eu não havia inaugurado parada nenhuma naquela manhã, apenas cheguei um pouco mais cedo do que aquelas pessoas que aguardavam o mesmo ônibus que eu.

Eu não sabia o que fazer. Refleti sobre tudo isso enquanto as pessoas entravam corajosas naquele ônibus. Pensei mais um pouco e descobri que, por mais que a gente sinta que está num momento difícil, seja ele qual for, sempre há muitas outras pessoas passando pela mesma coisa ou até pior. Entendi que, muitas vezes, reclamamos de barriga cheia de um problema que pode ser visto de outra forma ou resolvido de maneira prática, enquanto outras pessoas não possuem qualquer possibilidade de se livrar deles. Percebi o quanto podemos ser egoístas e como conseguimos transformar uma dificuldade pequena na pior coisa do mundo.

Naquela manhã, eu me sentia sozinha e derrotada por ter de acordar cedo e encarar o frio, mas tudo mudou quando eu olhei para trás, para um lado, para o outro, e para frente, em direção a cada uma daquelas pessoas que entravam no ônibus. Minha solidão terminou quando olhei ao meu redor. Finalmente, vi que não estava só. Não mesmo. Pelo menos naquela manhã, só pude fazer uma coisa: respeitar aqueles passageiros e esperar que cada um deles entrasse no ônibus para que eu subisse por último, mesmo tendo sido a primeira a chegar àquela parada de ônibus.