Letras ao vento

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Postado dia 18 de julho de 2013 em Eu na história

Pouco mais de uma dezena de passageiros viajam no ônibus, meia dúzia tentando ler alguma coisa. Não é fácil encarar o bete-balança-meu-amor: estômago fraco, impaciência e labirintite não são permitidos.

Em meio ao silêncio, a não ser pelo velho motor do ônibus, a cobradora lê atentamente a bíblia encapada em vermelho. O homem com óculos de meia-idade e testa franzida lê a parte de esportes de um jornal popular. A jovem de cabelo preso lê mensagens no celular ao deslizar o polegar direito. O rapaz de uniforme ao meu lado lê exercícios de um livro em francês apoiado sobre a mochila.

Meu estômago é meio fraco. Do meu lugar, prefiro tentar ler todas essas mentes.

Pés cansados, mãos unidas

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Postado dia 06 de junho de 2013 em Personagem da vez

O ônibus é uma das comunidades das quais faço parte. Tem a família, os amigos, o trabalho, o jornalismo… e tem o ônibus. Sou uma passageira fiel na comunidade ‘onibusística’ de Brasília e do planeta. Sou da tribo do ‘busão’. Pegar as mesmas linhas de ônibus nos mesmos horários todos os dias faz com que eu me sinta ainda mais parte dessa comunidade. Pessoas aparentemente desconhecidas não são apenas meus companheiros frequentes de viagem. São os outros membros dessa comunidade.

Na minha comunidade tem uma mulata linda com cabelo exuberante de uns 30 e poucos anos que sempre elogia meus sapatos. “E aí, filha?! Tá boa? Nossa, mas o ônibus demorou hoje, você não acha?”, ela costuma dizer. Tem o motorista gente boa que sempre me pega até mesmo fora da parada quando estou atrasada. Quando eu subo no ônibus, eu e ele sorrimos simultaneamente ao “bom dia” que trocamos. Eu de vergonha. Ele de “você se atrasou de novo, garota, mas tem nada não”.

Tem também a cobradora de óculos e cabelos bem pintados de preto que fica tricotando com os dedos e com a língua a viagem inteira junto com uma passageira. É que a filha mais velha dessa cobradora está grávida, que eu sei, e enquanto ela prepara as roupas da netinha, fala bem e mal a respeito. Tem, ainda, uma mulher bem baixinha a quem chamo na minha cabeça de “Dona Pequena”, com seus 1,40m e pouco de altura. Sempre pega o ônibus na minha parada e desce logo algumas quadras depois para entregar a marmita do marido no trabalho dele. “Hoje eu fiz dobradinha. Deu um trabalho, menina! Mas é que meu esposo é exigente. Não gosta da mesma comida todo dia, sabe como é?”, ela diz para quem quiser ou não ouvir.

Andar de ônibus é viver em comunidade e, por isso mesmo, você sempre vai se deparar com pessoas bem diferentes de você. E nunca pense que já conhece demais todos os membros. Aconteceu comigo outro dia. Eu estava dentro do ônibus, indo para o trabalho, sentada no banco logo abaixo da cobradora que tricota dos dois jeitos sem parar. Meu cabelo ainda estava meio molhado do banho que acabara de tomar, então me agradava o solzinho que batia na janela. Era um dia quente, daqueles em que parece que algo luminoso vai acontecer.

O ônibus estava quase chegando à saída de Sobradinho. Em uma das últimas paradas, estava uma mulher que sempre pega ônibus lá. Cabelo castanho e curto, uns 45 anos de idade, magra, olhos fundos e com cara de mal humorada. Infelizmente, ela parecia ser uma pessoa amarga e insensível. Mania que o ser humano tem de conjugar o julgar em todos os tempos. O que aconteceu naquele dia ajudou a tirar a impressão negativa que eu tinha dela e ainda me fez enxergar o ônibus, sim, como uma comunidade.

O veículo estava chegando à parada dela e a vi lá, em pé, segurando sua bolsa e franzindo a testa, como sempre. Sentado no banco da mesma parada, estava um senhor bem velhinho, de uns quase 90 anos. O motorista parou no ponto e a mulher foi logo se dirigindo à porta do coletivo para entrar. Ao mesmo tempo, mais atrás, o velhinho começou a se levantar lentamente para fazer o mesmo, mas estava com muita dificuldade. Não sei o que foi, mas, de repente, algo fez com que aquela mulher olhasse para trás e visse que aquele homem estava em apuros. Reparei de longe que ele segurava uma bengala e tinha uma sonda presa à parte de baixo do corpo. Ele começava a se levantar, mas parecia estar bastante limitado. Foi aí que a mulher recuou alguns passos e estendeu a mão para lhe ajudar. A expressão do rosto dela mudou para mim pela primeira vez.

O motorista olhava aquela cena através da porta de sua segunda casa bem seguro de que não engataria a primeira marcha até que aquele senhor conseguisse entrar no ônibus. Assim, o motorista gentil, a cobradora que tricota e todos os passageiros, inclusive eu, começamos a olhar para o que acontecia do lado de fora: passos extremamente lentos de um homem que já tinha caminhado muito ao longo da vida. Provavelmente, ele já foi um jovem que não sabia como é trabalhoso para o nosso corpo fazer toda essa estrutura andar. As pernas, os braços, o coração, o pensamento. Movimentos tão equilibrados que parecem a música mais linda do mundo ao tocar.

Esse homem já caminhou muito na vida, eu pensei. Parecia que, naquele momento, cada passo lento era árduo, mas necessário para honrar todos aqueles que já haviam sido dados. Estava difícil, mas ele não queria parar de tentar caminhar. Ele lutava. Passo a passo, como deve ser na vida. Passos muito curtinhos. Ao lado dele, a mulher ajudava. Segurava sua mão e envolvia suas costas com o outro braço, como se fosse uma enfermeira no corredor de um hospital. Como se fosse uma amiga de longa data. Aquele homem voltava então, para o tempo de bebê, quando ainda estava aprendendo a caminhar. A mulher ao lado parecia ser sua mãe ou pai, enquanto as pessoas dentro do ônibus eram como sua família celebrando seus tímidos passos. Membros de uma comunidade unidos pela luta de um de nós.

Quando ele finalmente chegou à porta do ônibus, todos temeram que ele não conseguisse subir. Ele parou. Repousou a bengala no chão. Parecia sentir dor. Respirou fundo algumas vezes. O motorista se adiantou e ficou na posição de dentro para puxá-lo. Enquanto isso, a mulher ficou por trás para lhe dar suporte caso ele caísse. Os dois degraus do ônibus foram um duro obstáculo, mas finalmente ele entrou no coletivo e se sentou logo no primeiro assento preferencial. Todos respiraram aliviados. “Conseguimos”, disse ele ao se acomodar no banco com riso na voz. “O senhor está bem?”, perguntou o motorista. “Agora, sim, estou bem. Obrigado, meu filho”, o velhinho respondeu.

Ainda faltava a mulher terminar de entrar no ônibus. Quando o fez, ela passou a mão suavamente no ombro do homem e sorriu, de cabeça baixa. Ele lhe agradeceu com os olhos, e isso bastava. Ao parar na roleta, diante de todos os passageiros orgulhosos dela, a mulher segurou o nariz para tentar conter um choro que todos no ônibus já haviam segurado. Acredito que os passageiros imaginaram aquele velhinho como seus pais, mães, avós, ou como eles mesmos, daqui a alguns anos. Todos sentiram a própria vida como um fio muito frágil. E eu também.

Não deu para segurar. Aquela mulher, que agora eu via de uma forma completamente diferente de antes, contou moedinha por moedinha com as mãos molhadas de lágrimas e olhos embaçados. Me emocionei junto com ela. Ela se sentou em um dos primeiros bancos e descansou a cabeça na janela de sol para que choro e pensamentos fluíssem.

Seguimos viagem – eu, o motorista gentil, a cobradora que tricota, o velhinho encantador, a mulher sensível e todos os passageiros – como uma comunidade. Foi um dia realmente luminoso.