Chuva de arroz na parada de ônibus

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Postado dia 15 de abril de 2013 em Micro-micos

Tomar café-da-manhã não é o meu forte. Eu sei, está errado. Mas é que, quando acordo, meu organismo demora a entender a necessidade de se alimentar. Se acordo cedo, então, pior ainda. Parece que tudo lá dentro continua dormindo por horas, sem acompanhar meu ritmo. Quanto mais cedo me levanto, maior é o meu mau humor. Tenho dó de quem começa o dia ao meu lado. Se bem que meu quadro até apresentou uma melhora nos últimos tempos. Mas ainda invejo pessoas como a minha mãe que, independentemente da hora em que despertou e do quanto dormiu, acorda arreganhando janelas e cantarolando como as princesas de contos de fadas para o sol e os pássaros. E é ela, minha mãe, quem entra nesta história.

Há quatro anos, quando eu trabalhava na Esplanada dos Ministérios, tinha de acordar às 5h54 para sair de casa às 6h18. Vinte e dois minutos para tomar café da manhã, lavar corpo e alma e me arrumar? Que nada. Era cedo demais para meu estômago aceitar qualquer comida; eu preferia tomar banho no dia anterior para economizar tempo e, ainda por cima, na maioria das vezes, eu já dormia com a roupa de trabalhar para não perder tempo me aprontando. Meio porquinha, eu sei, mas herdei a tradição dos tempos de escola, quando o sono prolongado após um dia de muito estudo (sim, eu era nerd) significava uma das coisas mais deliciosas da vida.

Estágio me esperando e eu tinha 22 minutos para acordar, desligar o despertador, ficar incrédula na cama por ter de me levantar tão cedo, fazer necessidades e pegar o café da manhã que minha mãe sempre deixava prontinho para mim na geladeira. Depois disso, era só ir rumo ao ônibus, que passava às 6h26. Era o único coletivo que me levava direto de Sobradinho para a Esplanada e, se perdesse, que fosse chorar sozinha no terminal solitário da cidade alta. Por 10 meses, foi assim todos os dias.

Meu estágio começava às 8h, mas meu ônibus chegava lá por volta das 7h15. Eu poderia muito bem subir se o ministério não fosse tão pontual. O que fazer em 45 minutos? Bem que eu sonhava, ainda na janela do ônibus, em transferi-los para o meu sono matinal. Por 10 meses, a parada de ônibus em frente ao Ministério do Planejamento foi minha “cabaninha” antes do expediente. Descia do coletivo e já ia me sentando lá, como se fosse minha segunda casa. Fazia muito frio naquele lugar e tão cedo da manhã, e as meias que eu usava sem me importar com o calçado não eram suficientes. Nem as luvas. Nem o cachecol. Frio e eu não flertamos nem por um assento de ônibus. Ali, naquela parada, batia um sol tímido, mas gostoso. Eu me sentava e começava a observar aquela esplanada cheia de prédios e sem quase ninguém. A alternância entre o silêncio do enorme gramado e os motores barulhentos dos carros parecia uma música para acordar. Era nesse momento que eu começava a perceber que estava viva e que, sim, inevitavelmente, começava mais um lindo dia.

Passageiros desciam naquela parada e davam de cara comigo sem entender o porquê de eu estar ali tão cedo, sentadinha, e tão parada. Sempre quando faltavam uns 25 minutos para subir e, finalmente, trabalhar, era hora de tomar o café da manhã que minha mãe mandara – geralmente uma fruta, um Toddynho e um pão com manteiga. Nesse meio tempo, já dava para ter companhia de algumas pessoas na parada – aquelas cujo término do expediente coincide com o sono de grande parte das pessoas. Eram desconhecidos, mas meus companheiros matinais de sempre.

Havia dois passageiros em pé na parada e uma sentada, como eu, na outra extremidade. Abri lentamente minha bolsa assobiando mentalmente como se fosse o anúncio para mais um café da manhã. Toda vez que iniciava este ritual, as pessoas começavam a me olhar – talvez porque a sacola e o pote da fruta faziam barulho ou porque simplesmente me achavam esquisita.

A fome que eu não sentia ao acordar porque não apetece a mim e ao meu estômago despertar cedo aparecia em grande estilo nesse momento e com direito a fundo musical de Eric Clapton. Dentro da sacola branca, só havia um pote da mesma cor e eu já me preparava para comer uma fruta. Todos na parada me olhando passar por aquela cerimônia e, de repente, a surpresa: ARROZ BRANCO. Sim, arroz cozido, branco, do dia anterior, todo socadinho no pote. As pessoas começaram a me encarar, certamente pensando “Caramba, hoje ela trouxe arroz para comer a essa hora? Que louca!” Pois é. Sou fã de arroz, mas realmente não como isso no café da manhã. No lugar de fechar o pote imediatamente e assobiar de verdade fingindo que ninguém tinha visto aquilo, minha reação foi disparar uma gargalhada que só pararia quando desse o horário de subir para minha sala. Disquei no celular o telefone da minha mãe, a pessoa mais de bem com a vida que conheço, para compartilhar com ela aquilo:

– Alô? Mãe? Hahahaha.
 
– Oi, Sara. O que foi?
 
– Hahahaha. Não consigo falar, mãe. É que, hahaha, é que…
 
– Diga, filha. Hahahaha.
 
(Ela começou a ter crise de riso também porque é de família)
 
– Sabe o pote que eu trouxe, mãe? Hahahaha. O pote…
 
– Hahahaha. O que é que tem, Sara?
 
– É arroz, mãe! AR-ROZ! Hahahaha.
 
– Hahahaha. Filha, você trocou o pote! O certo estava na prateleira de cima! Onde você está? Hahaha.
 
– Na parada de ônibus, mãe! Hahaha. E tem pessoas me olhando, achando que vou comer arroz às 7h30 da manhã! Hahaha.
 
– E o que você vai fazer, filha? Hahaha. Vai comer o arroz? Hahaha.
 
– Vou não, mãe! Vou terminar de gargalhar até a hora de subir e levar o arroz para comer em casa, no almoço. Hahahaha.
 

E desliguei olhando para as pessoas ao meu redor, que ouviram a conversa e passaram a rir junto comigo. Naquele momento, pensei em quão bom seria o meu dia porque começara com arroz, símbolo de prosperidade em casamentos. Fiquei a manhã toda sem comer, mas minha riqueza naquele dia foi entender porque minha mãe acorda todos os dias como as princesas de contos de fadas: a alegria é seu alimento.

Roda viva

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Postado dia 12 de novembro de 2012 em Eu na história

Não tem a ver com a música do Chico Buarque nem com programa de TV, mas esse título ajuda a ilustrar o que ocorreu comigo outro dia no ônibus. Após uma segunda-feira meio sem graça, entrei no coletivo e fiquei chateada quando reparei que já não restava sequer um banco desocupado. Isso significava que minha brincadeira mental de Resta Um não havia funcionado e eu teria de encarar uma hora em pé sacolejando. Mal sabia que o ponto alto do dia ainda estava para acontecer.

Quem entra num ônibus e descobre que seu destino trágico é ir em pé, acaba caminhando lentamente pelo corredor com a esperança de ainda encontrar um lugar que passou despercebido ou imaginando que algo sobrenatural poderá ajudar. Tem gente que até apela para sentir a energia de uma cadeira que transmita um certo magnetismo secreto que aponte para o pobre passageiro “vem, fique aqui perto desta pessoa que está sentada porque logo ela vai descer e você poderá descansar as pernas”. Sonho meu, sonho seu. Sim, ônibus podem deixar as pessoas mais malucas.

A verdade é que, depois de já condenado a ir em pé, o jeito é se posicionar em um local com um mínimo de conforto. Afinal de contas, ainda não inventaram um detector de “vaza logo do lugar”.

Nesse dia, usei as duas táticas descritas acima, mas, depois de cair na real, escolhi ficar parada em pé ao lado da dupla de bancos que estava próxima da porta do meio do ônibus. Eis que eu acabara de me posicionar ali quando um rapaz com uniforme de uma empresa de tecnologia que estava sentado rapidamente se levantou do lugar e disse “sente aqui, moça”. Fiquei muito surpresa, afinal, não é comum que isso aconteça. Olhei para aquele homem gentil e de rosto expressivo e agradeci, visivelmente feliz: “Nossa, muito obrigada!”. E me sentei.

Se eu dormir no ônibus não consigo prestar atenção no que acontece ao meu redor e, portanto, este blog deixa de existir. Mas, nesse dia, eu estava tão cansada que me rendi. O relógio marcava 19h48.

ZzZzZ (Toca Sonífera Ilha)

20h04 – (Sobe som: vozes de passageiros)

Meu Deus, e esse cheiro de queimado?, questionou uma senhora.

Motorista, o ônibus vai virar!, atestou um homem.

Gente, credo, o que é isso? Ai, minha nossa Senhora, é a primeira vez que acontece um acidente de ônibus comigo!!, desesperou-se uma moça.

“Acidente?” “Cachorro?”, pensei assustada, ao acordar. Arregalei os olhos, vi aquele ônibus lotado e perguntei alto: “Caraca, o que aconteceu?”. Ninguém me olhou ou respondeu. Dezesseis minutos haviam se passado e eu mal sabia onde estava. O moço gentil nem estava mais lá, em pé, do meu lado. De repente, ouvi um barulho muito forte e senti que a lataria do ônibus estava raspando no asfalto. O veículo começou a bater no asfalto. Na hora eu pensei que o ônibus tinha colidido com algum carro ou que alguém havia sido atropelado. Levantei desesperada e vi que, nessas horas, as pessoas começam a gritar, a especular, a dizer “Meu Deus” e “Meu Jesus Cristo”. Me perguntei: “Onde está, afinal, a Nossa Senhora Protetora dos Passageiros de Ônibus?”

Um homem gritou do fundo do coletivo:

Freia, motorista! A roda saiu. Esse ônibus vai virar.

A roda estava viva, era isso! Já eu, não sabia até quando. O motorista parou o ônibus como pôde e o cobrador tentou tranquilizar os passageiros:

Calma, gente! Vão descendo uns pela porta do meio e outros pela de trás. Vamos lá, devagar.

Como eu já estava perto da porta do meio, tratei logo de me posicionar para sair por ali mesmo. Prestes a descer e sendo empurrada por um mundo de gente querendo se salvar, vi pela janela o pobre do motorista na pista escura correndo atrás da roda viva entre os carros. Não seria o caso de rir, acredito. Poderia ter acontecido algo muito mais grave. “Alegria de pobre dura pouco”, pensei. Foi só ser presenteada com um assento do ônibus que a viagem terminou cedo. E mal.

Nada de lamentar. Andei uns 500 metros no escuro e enfiando os pés em buracos da grama, mas nada tão trágico perto do que passou a maioria dos passageiros, que ficaram ali plantados esperando por outro ônibus com destino semelhante e que pudesse lhes abrigar. Com dois telefonemas consegui quem me buscasse, ali perto do Extra, na Asa Norte. Minha carona levou meia hora para chegar e, quando passamos pelo local em que a roda se enfureceu, havia quase a mesma quantidade de pessoas esperando.

Sã e salva e já no carro, fiquei pensando que meu privilégio da noite não havia sido poder me sentar por alguns instantes no ônibus, mas, sim, ter a quem recorrer diante de um imprevisto.