Vida e morte passageiras

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Postado dia 22 de abril de 2013 em Histórias do baú, Personagem da vez

Se você me perguntar se tenho religião, direi que não. Entretanto, com o tempo, descobri que isso não me torna pior ou menos sensível do que quem tem. Cresci em uma família muito católica e segui tradições por anos – batizado, missa todo domingo, primeira comunhão, crisma, noites de terço e tudo o mais. Mas chegou um momento em que resolvi assumir para o mundo a minha verdade: nunca acreditara em nada daquilo. Nada havia sido feito com o coração. Estava cansada de brincar de ‘vivo ou morto’ na igreja durante a cerimônia do padre.

Descobri que sempre acreditei apenas na vida mesmo e está de bom tamanho. Entendi que posso fazer o bem para as pessoas por meio do meu trabalho, do meu otimismo e do modo como me relaciono. Concluí que a amizade e o amor verdadeiros são maiores do que uma oração decorada. Não tenho religião. Ainda assim, sou sensível, e às vezes recebo sinais da vida quando algo diferente – bom ou ruim – vai acontecer comigo. Nada disso tem a ver com religião. É questão de observar o mundo e as pessoas. É questão de acreditar na vida.

Era sexta-feira e eu tinha combinado com um grupo de amigos – ex-colegas de trabalho – uma noite de karaokê. Disse a eles que sairia do trabalho por volta das 20h e pegaria um ônibus até o local, na Asa Norte. Apesar de estar com o cartão na bolsa, antes de sair do prédio, algo me disse para passar no caixa eletrônico e sacar algum dinheiro. Lá fui eu. Pensei em pegar R$ 10 ou R$ 20, mas, quando me aproximei do caixa, fiquei paralisada. Senti que deveria sacar mais. Peguei R$ 50 e guardei o dinheiro. Em seguida, avisei para uma amiga que estava saindo do trabalho e que logo chegaria. Mas eu ainda demoraria um pouco para chegar.

Sempre vou para a mesma parada de ônibus, em frente ao meu prédio. Naquele dia, algo me puxou para outra parada, um pouco mais distante. Para chegar a ela, tive que andar o triplo de passos e fazer uma curva. Não sei o porquê, mas fui para lá. A vida me puxou. Cheguei à parada e fiquei à espera de um ônibus para a W3 Norte. Como sempre, reparei nos demais passageiros. Em pé, como eu, um jovem rapaz de mochila – que vim a conhecer melhor depois desse episódio – e uma mulher de uns 30 e poucos anos, cabelo no ombro e óculos. Só havia uma pessoa sentada: um homem que aparentava ter uns 40 anos, barba grande, cabelo preto, calça marrom e blusa cinza. Nunca vou me esquecer do rosto dele e de sua expressão.

Olhei para trás e vi que ele estava chorando. Chorava silenciosamente, como se estivesse sozinho. E estava. Ele olhava para um ponto fixo na pista onde passavam os veículos. Segurava um boné na mão direita. Fiquei assustada quando o vi. Virei os olhos para a pista novamente. De repente, ouvi sua voz desesperada, que disse: “Eu quero morrer”. Entendi claramente o que ele disse e engoli uma saliva pesada. “Vou me matar, minha gente. Vou me jogar na frente do primeiro ônibus que passar porque não aguento mais essa vida”, disse ele com a voz baixa.

Eu e os outros dois passageiros nos viramos para aquele homem. Eu, que esperava um ônibus para me levar para uma noite de mergulho na vida, cheguei mais perto dele disse: “Calma, moço. Vai ficar tudo bem. Não fale essas coisas”, como se pudesse me colocar no lugar dele. Não podia.

O ônibus do rapaz de mochila chegou e ele teve de ir, com o coração apertado. A mulher, que também estava na parada, se aproximou junto comigo daquele homem desesperado e perguntou o porquê de ele querer tirar a própria vida. “Eu não aguento mais. Tenho um filho com deficiência. Estou desempregado e minha mulher também. Meu dinheiro acabou. Não tenho coragem de chegar de novo em casa sem nada, sem esperança, sabe?”, respondeu ele, olhando para os nossos olhos com o rosto completamente encharcado de lágrimas. E continuou: “Eu tenho que levar leite e remédios para o meu filho. Não sei mais o que fazer”.

Engoli outra saliva pesada. De repente, ele se ajoelhou no chão, e disse: “Não quero mais essa vida, gente. Não tem jeito. Eu só queria pedir uma coisa a vocês. Rezem um Pai Nosso comigo antes disso para eu ir em paz?”, e estendeu as mãos para mim e para a mulher. Naquele momento, cada uma tinha uma mão de um ser humano desesperado para acolher. E demos as mãos. Lá estava eu, sem religião, rezando um Pai Nosso em voz alta com desconhecidos. Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida.

“(…) Amém”. E nos sentamos, puxando as mãos dele para que se sentasse novamente naquela parada de ônibus. Lembrei-me dos R$ 50 que havia sacado sem motivo. Retirei da bolsa e disse a ele: “Esqueça as coisas que você falou e tente recomeçar. Amanhã é um novo dia. Pegue isso aqui para te ajudar. Tirar sua vida não vai adiantar nada”. Ele me respondeu que não queria dinheiro, apenas leite e remédios para o filho. Coloquei o dinheiro na mão direita dele e a fechei, pedindo para que ele aceitasse o modo como eu podia ajudá-lo naquele momento. A mulher disse a ele: “Não tenho dinheiro aqui, mas vou entrar com você no ônibus que passar para a rodoviária e te levar para uma assistente social que sei que está lá agora. Ela vai te ajudar”. Ele olhou para ela e perguntou: “Você jura?”. Ela jurou. O homem virou para mim e disse que um dia me pagaria aquele dinheiro, apesar de não saber como. Eu disse a ele que não se preocupasse e que jurasse que não tiraria sua própria vida. Ele respondeu: “Eu juro”.

Juras trocadas e o ônibus para a rodoviária chegou. A mulher disse “vamos” para ele, que foi atrás dela como uma criança que encontra ajuda após ter se perdido da mãe. Ele olhou para mim mais uma vez e acenou com o boné, ainda com o rosto molhado, mas com olhos que agradeciam. Um vento forte adiantou minhas lágrimas e meu ônibus chegou em seguida. Entrei no coletivo aos prantos e o cobrador me perguntou se estava tudo bem. Não dei conta de responder.

Cheguei ao karaokê e contei a história aos amigos ainda chorando. Alguns me chamaram de “tolinha” por ter dado dinheiro àquele homem. Outros tiveram o brilho nos olhos reduzido após ouvir a história. Não importa o que pensam da gente. Vale mais entender o que sentimos em nossas experiências de vida. Aquele dia foi especial para mim. Era como se a vida tivesse mudado meu caminho para encontrar aquele homem na parada. Era como se a vida quisesse que eu e aquela mulher nos uníssemos para lhe fazer acreditar, mesmo que apenas por um dia, que não estamos sozinhos no mundo. Era como se aquela situação e aquelas pessoas tivessem me esperado a vida inteira. E eu por elas.

Naquela noite, antes de dormir, rezei por aquele homem e pela mulher que também o ajudou. Não foi um Pai Nosso, mas “rezei” do meu jeito. Pedi à vida para que fosse tão generosa com ele quanto tem sido comigo. Chorei mais uma vez e dormi com a certeza de que a vida é, sim, circular, e nos dá experiências para nos aproximarmos das pessoas e ajudá-las. A vida nada mais é do que o que ela é.

Chuva de arroz na parada de ônibus

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Postado dia 15 de abril de 2013 em Micro-micos

Tomar café-da-manhã não é o meu forte. Eu sei, está errado. Mas é que, quando acordo, meu organismo demora a entender a necessidade de se alimentar. Se acordo cedo, então, pior ainda. Parece que tudo lá dentro continua dormindo por horas, sem acompanhar meu ritmo. Quanto mais cedo me levanto, maior é o meu mau humor. Tenho dó de quem começa o dia ao meu lado. Se bem que meu quadro até apresentou uma melhora nos últimos tempos. Mas ainda invejo pessoas como a minha mãe que, independentemente da hora em que despertou e do quanto dormiu, acorda arreganhando janelas e cantarolando como as princesas de contos de fadas para o sol e os pássaros. E é ela, minha mãe, quem entra nesta história.

Há quatro anos, quando eu trabalhava na Esplanada dos Ministérios, tinha de acordar às 5h54 para sair de casa às 6h18. Vinte e dois minutos para tomar café da manhã, lavar corpo e alma e me arrumar? Que nada. Era cedo demais para meu estômago aceitar qualquer comida; eu preferia tomar banho no dia anterior para economizar tempo e, ainda por cima, na maioria das vezes, eu já dormia com a roupa de trabalhar para não perder tempo me aprontando. Meio porquinha, eu sei, mas herdei a tradição dos tempos de escola, quando o sono prolongado após um dia de muito estudo (sim, eu era nerd) significava uma das coisas mais deliciosas da vida.

Estágio me esperando e eu tinha 22 minutos para acordar, desligar o despertador, ficar incrédula na cama por ter de me levantar tão cedo, fazer necessidades e pegar o café da manhã que minha mãe sempre deixava prontinho para mim na geladeira. Depois disso, era só ir rumo ao ônibus, que passava às 6h26. Era o único coletivo que me levava direto de Sobradinho para a Esplanada e, se perdesse, que fosse chorar sozinha no terminal solitário da cidade alta. Por 10 meses, foi assim todos os dias.

Meu estágio começava às 8h, mas meu ônibus chegava lá por volta das 7h15. Eu poderia muito bem subir se o ministério não fosse tão pontual. O que fazer em 45 minutos? Bem que eu sonhava, ainda na janela do ônibus, em transferi-los para o meu sono matinal. Por 10 meses, a parada de ônibus em frente ao Ministério do Planejamento foi minha “cabaninha” antes do expediente. Descia do coletivo e já ia me sentando lá, como se fosse minha segunda casa. Fazia muito frio naquele lugar e tão cedo da manhã, e as meias que eu usava sem me importar com o calçado não eram suficientes. Nem as luvas. Nem o cachecol. Frio e eu não flertamos nem por um assento de ônibus. Ali, naquela parada, batia um sol tímido, mas gostoso. Eu me sentava e começava a observar aquela esplanada cheia de prédios e sem quase ninguém. A alternância entre o silêncio do enorme gramado e os motores barulhentos dos carros parecia uma música para acordar. Era nesse momento que eu começava a perceber que estava viva e que, sim, inevitavelmente, começava mais um lindo dia.

Passageiros desciam naquela parada e davam de cara comigo sem entender o porquê de eu estar ali tão cedo, sentadinha, e tão parada. Sempre quando faltavam uns 25 minutos para subir e, finalmente, trabalhar, era hora de tomar o café da manhã que minha mãe mandara – geralmente uma fruta, um Toddynho e um pão com manteiga. Nesse meio tempo, já dava para ter companhia de algumas pessoas na parada – aquelas cujo término do expediente coincide com o sono de grande parte das pessoas. Eram desconhecidos, mas meus companheiros matinais de sempre.

Havia dois passageiros em pé na parada e uma sentada, como eu, na outra extremidade. Abri lentamente minha bolsa assobiando mentalmente como se fosse o anúncio para mais um café da manhã. Toda vez que iniciava este ritual, as pessoas começavam a me olhar – talvez porque a sacola e o pote da fruta faziam barulho ou porque simplesmente me achavam esquisita.

A fome que eu não sentia ao acordar porque não apetece a mim e ao meu estômago despertar cedo aparecia em grande estilo nesse momento e com direito a fundo musical de Eric Clapton. Dentro da sacola branca, só havia um pote da mesma cor e eu já me preparava para comer uma fruta. Todos na parada me olhando passar por aquela cerimônia e, de repente, a surpresa: ARROZ BRANCO. Sim, arroz cozido, branco, do dia anterior, todo socadinho no pote. As pessoas começaram a me encarar, certamente pensando “Caramba, hoje ela trouxe arroz para comer a essa hora? Que louca!” Pois é. Sou fã de arroz, mas realmente não como isso no café da manhã. No lugar de fechar o pote imediatamente e assobiar de verdade fingindo que ninguém tinha visto aquilo, minha reação foi disparar uma gargalhada que só pararia quando desse o horário de subir para minha sala. Disquei no celular o telefone da minha mãe, a pessoa mais de bem com a vida que conheço, para compartilhar com ela aquilo:

– Alô? Mãe? Hahahaha.
 
– Oi, Sara. O que foi?
 
– Hahahaha. Não consigo falar, mãe. É que, hahaha, é que…
 
– Diga, filha. Hahahaha.
 
(Ela começou a ter crise de riso também porque é de família)
 
– Sabe o pote que eu trouxe, mãe? Hahahaha. O pote…
 
– Hahahaha. O que é que tem, Sara?
 
– É arroz, mãe! AR-ROZ! Hahahaha.
 
– Hahahaha. Filha, você trocou o pote! O certo estava na prateleira de cima! Onde você está? Hahaha.
 
– Na parada de ônibus, mãe! Hahaha. E tem pessoas me olhando, achando que vou comer arroz às 7h30 da manhã! Hahaha.
 
– E o que você vai fazer, filha? Hahaha. Vai comer o arroz? Hahaha.
 
– Vou não, mãe! Vou terminar de gargalhar até a hora de subir e levar o arroz para comer em casa, no almoço. Hahahaha.
 

E desliguei olhando para as pessoas ao meu redor, que ouviram a conversa e passaram a rir junto comigo. Naquele momento, pensei em quão bom seria o meu dia porque começara com arroz, símbolo de prosperidade em casamentos. Fiquei a manhã toda sem comer, mas minha riqueza naquele dia foi entender porque minha mãe acorda todos os dias como as princesas de contos de fadas: a alegria é seu alimento.