Foi por 25 centavos

3
Postado dia 20 de março de 2015 em Micro-micos
Sarita González

Sarita González

Em um certo ponto da rotina, um acontecimento aparentemente inofensivo mudou o final do meu dia. Já aconteceu com você? Naquela quinta-feira, ao sair do trabalho para ir à aula de francês de ônibus, uma estagiária perguntou quem tinha 25 centavos para que ela pudesse inteirar sua passagem. Eu tinha, e dei a ela.

Depois da aula, fui encontrar uns amigos para a despedida de um deles, o Rafa. Ele partiria para o Canadá em 48 horas. Eu estava triste, feliz, e ansiosa, ao mesmo tempo. Além de um amigo especial, o Rafa é meu grande parceiro de paradas de ônibus em Brasília. Quando saíamos juntos, ele sempre ficava comigo no ponto até que meu ônibus chegasse.

Jantamos entre risos e picos de saudade antecipada com Síl, Bella e Giu. Foi daquelas noites em que sabemos que algo grande está para acontecer, mas tentamos não pensar muito a respeito. Quando saímos do restaurante, na Asa Sul, fui até a parada de ônibus com Rafa e Bella. Tiramos fotos, trocamos abraços, e ainda marcamos encontros que não aconteceram em 48 horas. O tempo.

Bella partiu para o Guará. Eram 23h, e Rafa continuava comigo na parada. Peguei minha carteira para separar o dinheiro da passagem e, quando viu, Rafa arregalou os olhos para mim: “Caraaaaaca! Agora que percebi! Estou sem dinheiro, só com cartão!”. Sem problemas, eu pagaria a dele. Comecei a contar, e: R$ 1, R$ 2, R$ 3, R$ 4, R$ 5… e 75 centavos! Precisávamos de R$ 6 para as passagens – R$ 3 para cada um. “E agora, Rafa? Só tenho R$ 5,75! Eu emprestei 25 centavos para uma estagiária mais cedo!”. “Putz, Sarita, você tinha que emprestar dinheiro pra estagiária justo hoje?!”, disse ele, morrendo de rir, assim como eu.

Veio vindo o ônibus. Demora tanto para chegar, e, quando chega, vem na hora mais complicada. Não tinha dado tempo de pensarmos no que fazer. Ficamos nervosos. Como íamos passar pela roleta sem a passagem completa? Subimos no ônibus lentamente, como se ainda desse tempo de pensar no que fazer. “Boa noite”, dissemos ao motorista e ao cobrador. O segundo não retribuiu. Rafa foi direto: “moço, deixa eu te falar, a gente só tem R$ 5,75. Estão faltando 25 centavos, sabe? Será que tem como quebrar esse galho, por favor?”. O cobrador foi sucinto: “tem não”. Rafa insistiu: “poxa, moço, só hoje. A gente acabou de se dar conta disso. Já são 23h30, como vamos voltar para casa?”. E o cobrador reforçou: “não, de jeito nenhum”. Fiquei mais envergonhada ainda quando vi que os passageiros do ônibus olhavam para a gente sem parar. E agora, vida?

O sofrimento durou pouco, e uma mulher generosa que estava sentada num dos primeiros assentos acompanhava a situação. Ela nos olhava com pena, e Rafa pediu a ela: “Moça, será que tem como você nos dar 25 centavos, por gentileza?”, suplicou. Eu complementei: “por favor, moça!”. “Mas é claro”, disse ela, separando duas moedas de 10 e outra de 5. Entregamos para o cobrador, que pareceu ter xingado a gente bem baixinho.

Quando nos sentamos, rimos de alívio e de nervosismo pela situação. Perto da gente, a mulher solidária disse: “Que coisa! O cobrador não liberou a passagem de vocês por 25 centavos! Minha Nossa Senhora, que absurdo!”. É claro que, na verdade, o cobrador estava certo. Se a passagem custa 3 reais, não pode liberar por R$ 2,75. Ele está fazendo o trabalho dele. Mas aqueles 25 centavos tinham ajudado outra pessoa mais cedo, a estagiária que também é gente passageira, né, Sarah? Imaginamos que o cobrador pudesse nos socorrer, mas seria injusto com ele e com outros passageiros. Que bom que uma desconhecida nos salvou. Parece até que a solidariedade vai se movimentando, como a vida.

O que eu aprendi dessa situação foi: se você é gente passageira, NÃO ANDE COM DINHEIRO CONTADO NA CARTEIRA. E confira o dinheiro antes de ir até a parada, né, Rafa?! E vamos parar de colocar a culpa no(a) estagiário(a), viu? Eu, hein!

Foi minha última viagem de ônibus com meu amado Rafa, desde então, e tinha que ser polêmica e saudosa como ele.