Você é o passageiro – Jacqueline Saraiva

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Postado dia 18 de fevereiro de 2014 em Você é o passageiro
Arquivo Pessoal

Jacqueline Saraiva

Passageira da vez: Jacqueline Saraiva
Idade: 29 anos
Profissão: jornalista
Paixão: natureza
Assento preferido: “o que fica atrás da cadeira alta. Escondido, ótimo para uma soneca.”
Livro de janela: “nenhum, porque ler no busão me dá enjoo.”
Pensamentos passageiros: “Eu tenho um sonho. E nesse sonho todas as pessoas têm cadeira acolchoada para sentar, com descanso para cadeira e barra para apoio dos pés.”
Linha mais esperada: 810 (Recanto das Emas – Asa Norte)
O que mais detesto em andar de ônibus: “a falta de zelo que algumas pessoas têm com o próprio corpo. Ou seja: bafão, suvaqueira ardida, cabelo com cheiro de mofo (há de tudo nesses ônibus).”
O que me faz amar ser gente passageira: “não precisar procurar vaga em estacionamentos.”
 

Violência, tartarugas e a Kombi

“A onda de violência que tem sido noticiada nos últimos meses assusta, e como assusta, os moradores da nossa cidade. Depois da famosa “operação tartaruga”, parece que tudo piorou. Ninguém tem sossego, todos duvidam de todos, todos têm medo de tudo e assim caminha a humanidade brasiliense. Fui testemunha disso esses dias…

Era sexta-feira de sol (de muito sol mesmo) e estava eu indo para casa no coletivo nosso de cada dia. Como é de praxe, liguei o iPod para não ter que escutar o rap que o DJ do ônibus insistia em fazer todo mundo ouvir, além de disputar “sonoricamente” o espaço com o cara da Manassés vendendo canetas, sacolas ecologicamente corretas e adesivos para ajudar na luta contra as drogas.
 
O que sei é que acabei cochilando, como é de praxe também. Em determinado ponto do trajeto rumo ao local de repouso das Rhea americana (Recanto das Emas, em latim…rsrsrsrs), ouvem-se tiros em sequência. Imediatamente, como me contaram alguns passageiros depois (porque eu ainda dormia como a Bela Adormecida), mulheres gritaram e até o cobrador do ônibus soltou um “Jesuis, que é que tá acontecendo?”. “É tiro!!” bradou outro. No intervalo entre uma canção e outra da Beyoncé é que acabei acordando e vendo a cara aterrorizada dos passageiros. Ainda sonolenta, também ouvi outros tiros e comecei a cogitar o que estava acontecendo. Mas, em questão de segundos, o veículo que conduzia os temidos atiradores ultrapassou o ônibus: era uma Kombi, velhinha, coitada, que a cada acelerada do motorista dava um pipoco alto, como se realmente fosse um tiro. Acho que foi um alívio para todos, até para mim, que fui acordada pela iminência da criminalidade que toma conta da sociedade (by Gabriel, o Pensador). Acho que nunca ri tanto na minha vida…

Declaração de amor no ônibus – De mãe para filha

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Postado dia 07 de janeiro de 2013 em Personagem da vez

Era um daqueles “dias mais quentes do ano”.  Imagino que, no calendário brasiliense, as datas fiquem sempre competindo entre si para ver quem ganha. Quem perde são as pessoas, é claro, a não ser que estejam em agências bancárias, shoppings e coisas do tipo que tenham ar-condicionado. Nesse dia, eu estava no ônibus. Um pouco antes, vale contar, esperei pelo meu por uns 33 minutos numa parada cheia, o que me impediu de me proteger do sol, que parecia mais caliente do que o normal. Quando o coletivo chegou, sentei logo. Tudo o que eu queria era descansar um pouco e esfriar corpo e cabeça.

É muito comum que, em dias muito quentes, passageiros de ônibus já entrem no coletivo perguntando ao cobrador ou fazendo suas próprias análises a respeito de que lado do veículo o sol vai bater. “O sol tá de que lado, cobrador?”, todos querem saber. Percebi que havia me sentado na fileira certa, pois havia mais pessoas, que também fugiam do sol. Após me sentar, pedi para a moça que estava ao meu lado abrir mais a janela, por gentileza, pra curtir o ventinho que logo viria quando o ônibus pegasse certa velocidade. Ela aceitou sem comentários, então estiquei um pouco as pernas, desci os quadris e comecei a esvaziar a cabeça para apenas relaxar. Observava as paradas de ônibus no ritmo do veículo, enquanto imaginava a vida das pessoas que nelas estavam. Naquele dia, achei que apenas contemplaria as particularidades das pessoas na rua, sem que necessariamente acontecesse algo que pudesse me chamar a atenção. Foi quando, na parada de ônibus em frente a um hospital, vi mãe e filha acenando para que o ônibus em que eu estava parasse.

Entraram. A menina, de uns 8 ou 9 anos de idade, era bem esperta. Tinha uma boca grande na qual trazia um sorriso largo e olhos de criança feliz, com aquele brilho de quem ainda não viu quase nada das dores que a vida pode causar. Passou na frente da mãe – que vinha atrás carregando umas 300 sacolas, guarda-chuva, mochila de criança e bolsa – e perguntou bem alto: “Mamãe, posso passar por cima da roleta? É tão legal!”, e já foi subindo e mostrando seu sorriso – com a boca e com os olhos – para todos os passageiros do ônibus. A mãe olhou para o cobrador e fez a pergunta, um pouco constrangida: “Ela pode, moço? Nem estou com tanto dinheiro mesmo…”,  seguida de um sorriso tímido. “Tudo bem”, ele disse. Restavam poucos lugares no ônibus, e estes eram todos do lado onde batia sol. A mãe, uma linda morena de uns 30 e poucos anos de idade, tinha um sorriso tão bonito quanto o da filha. Seu cabelo, que mesmo amarrado parecia ser estonteante, lamentava por estar naquela condição porque realmente o calor era demais.

Sentaram-se. A menina foi para o lado da janela, como manda o costume das crianças felizes. A mãe começou a procurar espaço para acomodar suas sacolas e milhões de outras coisas para facilitar um pouco aquela viagem quente. Por sua vez, a menina encostou a cabeça na parede abaixo da janela com a mãozinha protegendo-a e disse com sorriso singelo: “A gente cansou hoje, hein, mãe?!”, e fechou os olhinhos em câmera lenta. Vi que a mãe concordou com a cabeça e um sorriso de volta enquanto terminava de arrumar suas coisas na poltrona. Em seguida, ela disse para a criança: “Filha, aí tá quente demais, deixe a mamãe colocar a sua mochila para você apoiar a cabeça”, disse ao mesmo tempo em que já fazia o planejado. Após aceitar a ideia, a filha fechou os olhos novamente, mas percebi que ainda estava ruim para a mãe ver a criança desconfortável para dormir.

Aquela mãe não se deu por satisfeita e vi uma das cenas mais inusitadas e doces dentro de um ônibus em toda a minha vida passageira de passageira. Sem a menor cerimônia, a mulher abriu seu guarda-chuva e o encaixou atrás da mochila de borboletas onde repousava a cabeça da filha para protegê-la do sol que invadia a janela. A criança abriu os olhos e perguntou: “Tem certeza, mamãe?”. “Claro, meu bem”, respondeu a mulher, finalizando um diálogo que parecia não ter acontecido pela primeira vez. A menina começou a dormir profundamente e a mãe se colocou a segurar o cabo daquele guarda-chuva alguns centímetros à frente de sua testa com olhos de determinação. Lembrei-me, automaticamente, da minha maravilhosa mãe.

Não resisti e olhei para aquela mulher querendo que ela me olhasse de volta. Ela me viu, e então eu sorri para ela com olhos de aprovação, que diziam: “Que mulher ótima você é”. Ela sorriu de volta com olhos de amor de mãe, que foram capazes de contagiar quem estava ali na frente. O cobrador ficou admirando aquela imagem por longos segundos e esboçou um sorriso, mesmo de boca fechada, orgulhoso de si mesmo por ter deixado a criança passar por cima da roleta minutos antes. No ônibus, já não fazia tanto calor: a ternura da cena levou uma brisa agradável para dentro do coletivo.

Durante aquela viagem, a mulher mal se mexia para evitar que o guarda-chuva deitado que ela segurava tão firmemente balançasse e atrapalhasse o sono da filha. Flagrei, algumas vezes, aquela mulher quase caindo no sono, o que não foi possível porque a magia da maternidade, que ela provavelmente adquiriu logo quando descobriu que estava grávida, lhe acordava a cada cinco segundos para que ela conferisse se estava tudo perfeitamente bem com a filha. É claro que estava.

Quarenta minutos se passaram e, então, desci do ônibus. A linda imagem de amor entre mãe e filha, que parecia uma pintura ensolarada de Monet, refletiu em mim ainda intacta. Caminhei pela calçada com um sentimento luminoso no coração e o desejo de ser, um dia, uma grande mãe como aquela.