Sdds, busão!

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Postado dia 27 de novembro de 2012 em Você é o passageiro

Quem conta a história desta vez: Larissa Domingues

Larissa, jornalista de 26 anos, se considera a rainha das “pataquadas” e escreve quando dá na telha no cademeurivotril.wordpress.com. Ela se lembra, ainda, que a autora deste blog ‘onibusístico’ considera seu jeito de ser parecido com o de um personagem de desenho animado. 

“Deem-me parabéns: comprei um carro. Depois de muitos anos pegando Setor O’s, P Sul’s e M Norte’s lotados, consegui realizar o sonho de todo (ou quase todo) brasileiro – o do veículo próprio. Um ponto zero, sem som e ainda por cima dividido em 60 vezes, com taxas de juros que se equiparam ao meu salário. Como pagar, ainda não sei. Talvez, no meio do caminho, seja necessário vender um rim ou leiloar minha virgindade na internet, como fez a menina de Santa Catarina. Mas, no alto dos meus 25 anos (quase 26) e sofrendo muita pressão da sociedade, resolvi que estava na hora de ter algo meu, de fato.

Nunca peguei ônibus vazio. Quando eu digo ônibus lotado, vocês não imaginam o que estou tentando dizer. Quase nunca vou sentada. Já aconteceu de ir com a cabeça praticamente para fora da janela. Ou de ir fazendo a dança do maxixe com dois machos. Às vezes nem é preciso segurar nos suportes: o povo todo te abraça involuntariamente e você vai, assim, encaixadinha com pessoas estranhas que compartilham a mesma necessidade que você: chegar em casa depois de um longo dia de trabalho. Cansei de quantas vezes eu rezei na parada. “Poxa, Deus. Poxa! Tenho sido boa, tenho feito caridade, tenho feito o bem para as pessoas. Eu podia estar roubando, matando, recebendo propina. Mas não. Eu só quero um lugarzinho para sentar, lá no canto”. Com todo respeito ao nosso Senhor, poucas vezes meu pedido foi atendido. Acho que outras pessoas faziam a oração antes e não sobrava nada. Vai saber. Vai que é carma, né? Vai entender.

Já passei por tanta coisa, bicho. Já fui pseudo-exorcizada por um pastor, já fui assaltada, já passaram a mão na minha bunda, já desmaiei de tanta cólica, já tive crise de claustrofobia, já fui atacada por um louco-varrido, já tive braço esmagado, dignidade maculada, já comprei briga por pessoas maltratadas. E as figuras que você encontra todos os dias? O indiozinho peruano/venezuelano/chileno (WTF, até hoje não sei a nacionalidade dele!) que toca Beatles numa flautinha bizarra, o tiozinho bêbado todo enfeitado de lata, o poeta/filósofo/professor que vende livretos, o moço fervoroso que prega a palavra, o ambulante que vende a balinha mais gostosa de todo o mundo, o velhinho que canta repente e vende cocada. Só não gosto muito da mulher que leva a filha para pedir dinheiro. Acho maldade com a pequena, tadinha.

Acho que até vou sentir saudade de cotovelada na costela, sovaqueira na minha cara, gente doida pisando no meu pé e me olhando com a cara fechada. Sério mesmo. E principalmente, das histórias que nunca são contadas. Foi sentada no banquinho desconfortável do ônibus que aprendi a ser cronista – de olho e de ouvido. Foi ali que aprendi a ser jornalista. A escutar a história do outro e me comover, me identificar. Perdi as contas de quantos textos já escrevi sobre as pessoas que ali esbarrei. De quantas amizades já fiz, do quanto já morri de raiva e chorei de rir. Quem nunca pegou ônibus não é pessoa confiável.

E quem quiser me chamar para dar um passeio e observar as lindas paisagens dessa Brasília que eu amodeio, dá uma ligada. Mas vamos de ônibus, que o dinheiro da gasolina tá suado.”

Quer mandar a sua? Escreva para o e-mail: gentepassageira@gmail.com

Os anjos, o inferno e a cadeira alta

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Postado dia 30 de outubro de 2012 em Você é o passageiro
Quem conta a história desta vez: Jacqueline Saraiva 
 
Jacqueline é uma jornalista de 28 anos, libriana, aventureira e apaixonada pela natureza. Segundo ela, antes de superar o medo de dirigir, aproveita para curtir a vida a pé e é passageira frequente nos ônibus de Brasília. Twitter: @jacquesaraiva 
 
“Você entra no ônibus correndo, volta à infância, e senta no lugar mais perfeito do ônibus: a cadeira alta. Por muitas vezes tive esse pensamento tolo ao encontrar o coletivo vazio. Entrava meio desanimada, achando que ia ter que dividir a cadeira com algum homem folgado (que deita e abre as pernas) ou alguma mulher avantajada ou com muitas sacolas ou com aquela cambada de meninos barulhentos. Ao passar a roleta, um mundo novo se abria e anjos luzentes rodeavam o santuário tocando pequenas harpas douradas… A CADEIRA ALTA!!! Ahhhh, nada me impediria de aproveitar os longos minutos de viagem naquele lugar privilegiado, mais alto que os demais, com o vento no rosto, como se estivesse em uma montanha-russa…

Só que o sonho virou pesadelo… Descobri, infelizmente, as mazelas de sentar na cadeira alta. E a revelação veio às 5h30 quando a medonha entrou no ônibus. Chegou cambaleando, a cara amassada, cabelo desgrenhado e jeito de quem acordou atrasada, vestiu uma roupa e saiu correndo atrás do busão. Não bastasse o desengonço para atravessar o coletivo, incomodando os demais passageiros, ela reconhece a “colega” de trabalho… ao meu lado… pensei: “Senhor, porque me abandonaste?”. A luz se apagou, os anjos luzentes recolheram suas harpas e se mandaram.

Já na primeira frase, minha vontade foi de enfiar a cara em um buraco, de preferência com um frasco de Gleid… Aquela boca não via uma escova de dente há séculos, indaguei-me. Pensei na notícia veiculada em jornais na semana passada: “Há 27 milhões de brasileiros que nunca foram a um dentista… E essa mulher é a primeira da lista”… Cada palavra dela soava como uma trombeta do apocalipse, anunciando o fim do mundo… E, sério, pedi pelo fim do mundo. Pedi para que pelo menos um buraco se abrisse ao meu lado e ela fosse sugada… Na cadeira alta do ônibus, a boca dela era um esgoto rente ao meu pobre e indefeso nariz. Naquele momento eu odiei a cadeira alta. De refúgio divertido, a cadeira alta se tornou minha inimiga.

Depois de uma conversa de 15 minutos, ela diz que vai descer. Dei saltinhos de alegria em meu pensamento… a tortura teria fim, os anjos talvez voltassem e eu, quem sabe, sobreviveria… Quando ela deu sinal, me senti como um réu absolvido do mensalão… tô livre…. ela se foi, essa foi por pouco… O dia recomeçou para mim. Pude trabalhar, mas com o estômago revirado. Na volta para casa, a cadeira alta estava lá, vazia. Mas preferi escolher outro assento. A cadeira alta agora era só um lugar solitário, como tantos outros no ônibus, onde nem anjos nem montanhas-russas conseguem me animar.”

Quer mandar a sua? Escreva para o e-mail: gentepassageira@gmail.com