Para papai e mamãe, com carinho

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Postado dia 06 de junho de 2016 em Eu na história
Sarita González

Sarita González

Fui à Goiânia com meu pai e minha mãe para participar de um congresso acadêmico. Meu pai, de 71 anos, também quis conhecer Trindade, uma cidade a 16 km da capital de Goiás. Quando viajo com meu aventureiro pai, nunca sei,  de fato, para onde vamos. Mas, no fundo, ele sempre sabe, e acabamos adorando o destino inesperado. Trindade atrai católicos de todo o Brasil para conhecerem a Basílica do Divino Pai Eterno e a famosa festa que leva o mesmo nome. Para ir até lá, é claro que eu não perderia a chance de andar de ônibus. Pegamos um em frente ao hotel em que estávamos, num corredor de transporte coletivo chamado Eixo Anhanguera, que liga vários pontos da cidade. O bilhete custava R$ 3,70, mais barato do que os R$ 4 que gasto em Brasília para me deslocar por distâncias menores. A solidariedade das pessoas de Goiânia com turistas que precisam andar de ônibus é admirável. Começou pela bilheteira. Mesmo com uma fila enorme de gente querendo comprar passagem, ela fez de tudo para que eu entendesse o percurso para chegar até Trindade.

Entramos no ônibus. Fazia um calor desesperador. Meu pai estava sentado próximo à janela. Eu, ao corredor. Perguntei a ele se não queria trocar de assento comigo, porque no corredor estaria mais fresquinho para ele. Ele disse que “não” ao mesmo tempo em que uma passageira no banco à frente do dele, que olhou para mim achando que eu tivesse sugerido a troca de banco para ela. Fiquei sem graça, ela também. A mulher, que abanava um folheto qualquer freneticamente para fazer um ventinho no rosto me deu um sorriso, correspondido, e me perguntou para onde estávamos indo. Cheia de simpatia, nos deu todas as coordenadas para que não restassem dúvidas de que tínhamos de ir ao Terminal Padre Pelágio e, de lá, pegar outro coletivo para chegar à Trindade. O melhor: mesmo descendo do ônibus e entrando em outro, não teríamos de pagar outra passagem.

Eu e minha mãe, de 60 anos, somos gente passageira de carteirinha. Aliás, me apaixonei por andar de ônibus e por observar as pessoas graças a ela. Por isso, estamos acostumadas com o que acontece de inusitado no transporte público. Por outro lado, durante a viagem à Trindade, meu pai comentou que fazia muito tempo que não andava de ônibus. O ônibus se movimentava e, então, me pus a reparar no movimento curioso dos olhos dele sobre todas as coisas que aconteciam no coletivo. Em menos de uma hora de viagem, entrou quase uma dezena de comerciantes no ônibus oferecendo produtos variados: das clássicas balinhas de mil sabores até as carteiras inovadoras que guardam documentos de diversos tamanhos (o que pareceu ser sucesso por lá). Além disso, passaram pelo ônibus umas tantas outras pessoas pedindo doações. Como se fosse uma criança andando de transporte público pela primeira vez, meu pai parecia se entreter com tudo o que acontecia dentro do coletivo. E com o que via pela janela do ônibus também. Avistamos o prédio de um centro comercial chamado Shopping Cerrado. Meu pai, que é espanhol, soltou uma risada e eu lhe perguntei o motivo. Ele disse que imaginou que, se não soubesse falar português, teria dado meia volta ao chegar ao shopping por achar que ele não estaria aberto. (“Cerrado”, em espanhol, é “fechado”. Em português também existe “cerrado”, mas é menos usual).

Chegamos à Trindade. Conhecemos Trindade. Nos maravilhamos com as peculiaridades de Trindade. Nos encantamos com a companhia uns dos outros (pai, mãe e filha – a nossa própria trindade) e com a magia que há em andar de ônibus, para onde quer que se vá. Na volta de lá, em outro ônibus, entraram outros passageiros, outros comerciantes, novas pessoas pedindo ajuda. No chão, uma garrafinha de água deslizava com o movimento do veículo. Flagrei meu pai acompanhando-a com o olhar sorridente. A garrafinha fazia um movimento aleatório, inesperado. Era improvável saber para onde ela iria. Meu pai acompanhava a garrafinha como se acompanhasse a vida. Essa que não sabemos para onde vai, quando termina, o que reserva para nós. Do meu banco, eu acompanhava com os olhos cheios de amor e gratidão meu pai e minha mãe na melhor fase das vidas deles.

Letras ao vento

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Postado dia 18 de julho de 2013 em Eu na história

Pouco mais de uma dezena de passageiros viajam no ônibus, meia dúzia tentando ler alguma coisa. Não é fácil encarar o bete-balança-meu-amor: estômago fraco, impaciência e labirintite não são permitidos.

Em meio ao silêncio, a não ser pelo velho motor do ônibus, a cobradora lê atentamente a bíblia encapada em vermelho. O homem com óculos de meia-idade e testa franzida lê a parte de esportes de um jornal popular. A jovem de cabelo preso lê mensagens no celular ao deslizar o polegar direito. O rapaz de uniforme ao meu lado lê exercícios de um livro em francês apoiado sobre a mochila.

Meu estômago é meio fraco. Do meu lugar, prefiro tentar ler todas essas mentes.