Os ônibus que aqui passeiam…

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Postado dia 03 de junho de 2013 em Eu na história

… não passeiam como os de lá

Interior de ônibus - Espanha

Sarita González

 

Durante minhas férias na Espanha, no mês de maio, não pude deixar de andar de ônibus, até porque precisei muito deles. Apesar de já ter viajado para o país outras vezes, essa foi a primeira em que observei melhor como funciona o transporte público de lá em comparação com o daqui. Pego quatro ônibus por dia aqui em Brasília, há muitos anos, e posso dizer que aqui mal funciona. Funciona mal. Entre um passeio e outro lá na terra de Cervantes e de papai também fui fazendo minhas observações.

Não vivi nenhuma história engraçada ou polêmica nos meus passeios (até porque não é todo dia que elas acontecem), mas listo abaixo minhas principais percepções com relação aos ônibus da Espanha e o que me fez pensar a respeito da minha vida como gente passageira no Brasil:

1. Nenhum ônibus em que andei quebrou. Nem mesmo convivi com o medo de que, em algum momento, pudesse quebrar. Os ônibus parecem sempre novos, independente da cidade, e bem conservados por dentro e por fora.

2. Depois da meia-noite, todas as linhas de ônibus continuam circulando. A diferença é que o ônibus vai passando a cada 40 minutos. Já tentei andar de ônibus depois desse horário aqui em Brasília e me dei mal. Simplesmente não passou. Nem em 40 minutos nem em duas horas. Nem nunca. Sempre penso em quem sai do trabalho todos os dias de madrugada e não tem carro para voltar para casa.

3. Os ônibus cumprem rigorosamente os horários de saída dos terminais e paradas de ônibus. Se, por um acaso, ele chegar à parada antes do horário determinado porque o trânsito estava tranquilo, por exemplo, o motorista desliga o veículo no ponto e espera dar o horário certo para garantir que nenhum passageiro perca a viagem. Aqui em Brasília, muitas vezes, ou você morre de esperar um ônibus que está atrasado ou você perde o ônibus mesmo tendo sido pontual porque ele se adiantou e só resta esperar o próximo.

Alto de uma parada de ônibus, com painel digital

Sarita González

4. As paradas de ônibus possuem painéis digitais que mostram quanto tempo falta para que os próximos ônibus cheguem, bem como o destino do coletivo e as linhas que por ali passam. Assim, o passageiro pode calcular melhor quanto tempo falta para chegar ao seu destino, consegue saber se ficará muito tempo na parada esperando e tem certeza se é ali que deve esperar o coletivo.

5. Há tantas linhas de ônibus disponíveis que, dificilmente, as pessoas são obrigadas a andar em ônibus lotados.

6. Os ônibus não possuem cobradores. Não sei em que medida isso afeta os empregos nessa área, mas notei que a catraca ao lado do motorista, que substitui o trabalho dos cobradores de ônibus, agiliza a vida dos passageiros e aumenta bastante o espaço dentro do veículo.

7. Qualquer pessoa pode carregar seu cartão de ônibus em lojas espalhadas pelas cidades sem a necessidade de encarar filas em pontos pouco acessíveis, como acontece aqui.

8. Andei em ônibus que possuíam rede wi-fi gratuita. Sem dúvida, isso torna a viagem mais agradável, já que as pessoas podem ir para o trabalho, por exemplo, usando a internet do celular para ler notícias em sites, olhar suas redes sociais ou fazer pesquisas.

9. Os motoristas respeitam os limites de velocidade e não colocam em risco a vida dos passageiros.

10. O transporte público de lá funciona tão bem que, não importa a condição financeira das pessoas: prefere-se evitar trânsito e usufruir de um sistema que os orgulha. Os carros ficam na garagem e os pés vão rumo a metrôs e ônibus em perfeitas condições. Sonho meu. Sonho seu.

Apesar de muita coisa bacana, infelizmente, vi gente passageira tão mal-educada quanto aqui no que diz respeito a ignorar os assentos preferenciais, deixando muitos velhinhos em pé.

Muita gente já me disse que os ônibus de Curitiba, no Paraná, são um exemplo para o resto do país. Nunca andei de ônibus lá, mas bem que esses avanços poderiam chegar até aqui.

Enfim. Foi interessante andar de ônibus na Espanha com tudo funcionando perfeitamente e tenho vontade de que as coisas mudem por aqui nesse sentido um dia. Se ajudar a conformar, os espanhóis com quem conversei lamentam muito a crise do país – apesar de eu não ter sentido essa crise – e, ao falar sobre o tema, sempre aproveitavam para citar o crescimento econômico que o Brasil tem apresentado nos últimos anos. Quem sabe, um dia, os avanços atingem o nosso sistema de transporte público e ajudam a melhorar a rotina de milhões de pessoas que dependem dele.