Primeira história de ônibus

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Postado dia 27 de agosto de 2013 em Personagem da vez

Engraçada, a vida. Intrigante como ela se movimenta, como as coisas batem à nossa porta a qualquer momento, sem permissão. As memórias. Interessante como há coisas que nunca deixam de fazer parte da gente. Pessoas. Almocei outro dia com Severino Francisco. Grande jornalista, figura indescritível, querido professor. Ficaria horas aqui descrevendo esse cara fantástico, mas espero que a vida te permita conhecê-lo um dia. Ainda bem que eu tive aula com ele. Ainda bem que ele me ensinou a escrever – jornalismo e outras coisas. Nesse dia, almocei com ele e uma grande amiga. Sorte demais para um almoço em plena quarta-feira, durante o expediente.

Conversamos, rimos e Severino deixou a mesa antes da gente. Na minha última garfada, veio à minha memória algo que compartilhei com minha amiga: “Lari, você acredita que o primeiro texto que eu escrevi na faculdade foi sobre um motorista de ônibus? E foi na aula do Severino. Ele pediu para os alunos irem atrás de alguma figura interessante. Pediu para que conversássemos com essa pessoa e que, a partir daí, escrevêssemos um perfil com a técnica da crônica. Eu escolhi um motorista de ônibus. Eu adoro motoristas de ônibus. Adoro ônibus. Adoro gente que anda de ônibus. Sempre adorei”. E os olhos dela brilharam como quem havia entendido tudo.

Decidi resgatar esse texto para postar aqui no blog. Ela foi escrita quando eu estava no quinto semestre do curso. Há mais de três anos, eu contei, quando ainda não tinha ideia de escrever histórias de ônibus para o mundo. Ou tinha, mas não havia me dado conta. Como jornalista, escrevo reportagens sobre mercado de trabalho e, no quinto semestre, na aula do Severino, escolhi escrever sobre um trabalhador brasileiro: um motorista de ônibus. Seu Hélio. Aquele almoço, meu ex-professor, minha amiga, o quinto semestre, a o texto,  o blog de ônibus, o trabalhador… tudo isso me deu a ideia de postar aqui no blog essa minha primeira história de ônibus. A vida é circular. Há coisas que nunca deixam de fazer parte da gente. Pessoas. E tudo bate à porta de um jeito ou de outro porque a vida é caprichosa.

A seguir:

A rotina de quem conduz um gigante

Sozinho e sentado num banco qualquer da rodoviária de Sobradinho. É assim que Seu Hélio Divino da Silva descansa e espera a próxima viagem até o Plano Piloto. Faz 20 anos que o motorista de ônibus enfrenta a luta diária que a profissão lhe impõe. Aparentemente ranzinza, Seu Hélio não demora em mostrar simpatia. Já tinha 30 anos de idade quando decidiu dirigir ônibus. “Trabalhava numa fábrica de cimento e quis mudar de profissão. Quis melhorar minha vida”.

Todos os dias, Seu Hélio acorda às 5h30 da manhã para trabalhar. Durante o percurso, que totaliza seis horas de viagem, encontra dificuldades como engarrafamento e superlotação de passageiros. Para ele, o pior de tudo é lidar com pessoas mal-educadas. “Nosso trabalho é muito estressante e tem gente que não valoriza. Não custa nada cumprimentar o motorista, dar bom dia, boa tarde, boa noite”, desabafa.

Ele conta que não leva os problemas do trabalho para sua casa. “Quando chego minha esposa e minhas filhas já estão quase dormindo, então não dá tempo para compartilhar o estresse e as angústias do dia a dia”.  Seu Hélio é casado há 27 anos e teve três filhos.  Exibe com orgulho sua aliança e conta que nunca esteve separado da esposa. Suas duas filhas têm 11 e 26 anos. O filho do meio faleceu em um acidente de carro há cinco.

O motorista trabalha seis dias na semana e folga um, geralmente o domingo. Magro, estatura mediana, cabelo curto e grisalho, mãos cansadas e óculos no rosto. Aos 50 anos, que parecem ser mais, Seu Hélio não vê a hora de se aposentar. “Faltam só três anos. Depois disso, não quero mais saber de ônibus”, conta sorrindo. Têm riso fácil, mas o olhar distante persiste enquanto fala.

Ao longo dos 20 anos de profissão, o motorista viveu momentos de medo. Já presenciou três assaltos e, em um deles, quase foi baleado. “Nessas horas a gente tem que obedecer o assaltante e rezar pra que nada pior aconteça”, explica Seu Hélio, que conta já ter se acostumado com as adversidades da profissão. “Na semana passada uma passageira cismou que teria que sair pela porta da frente. O cobrador proibiu e ela disse que voltaria com uma arma para pegá-lo”. 

Com o tempo, Hélio Divino começou a notar problemas de saúde. A péssima qualidade do assento do motorista e o longo tempo de viagem têm lhe causado fortes dores na coluna e nas pernas. “Uma vez fiquei de cama durante oito dias. Não conseguia me levantar por causa da dor na coluna”.  Além disso, o motorista de ônibus notou uma perda parcial de sua audição, ao longo dos anos, devido ao ruído provocado pelo motor próximo ao assento. Ele revela que um colega de profissão ficou totalmente surdo.

Apesar dos pesares, Seu Hélio se orgulha da profissão. Todos os dias ele se responsabiliza por centenas de vidas. Trabalha usando os pés e as mãos. Faz sinais, controla marchas, volante, pedais. Tem de raciocinar rápido para fazer ultrapassagens. Prevê acidentes. Aprendeu a se acalmar em momentos de longas esperas em engarrafamentos. Enxerga o perigo. Seu instrumento de trabalho é um gigante na pista. Trabalha com gentileza mesmo que o dia não esteja tão bom. Espera a retribuição com o sorriso de um passageiro desconhecido.

Sobre a profissão que escolheu ele conta que trabalha nisso por necessidade. “Tem que gostar, né? Tenho que manter minha família para não faltar comida em casa”. O motorista confessa que se o seu salário aumentasse teria mais ânimo para trabalhar. “Nosso trabalho é muito estressante e a gente ganha pouco”. 

Hélio Divino da Silva nasceu e foi criado na roça. Era o caçula de cinco filhos e seu pai morreu quando ainda era pequeno. Teve infância pobre. Perguntado se, ainda menino, havia sonhado com outra profissão, Seu Hélio diz com os olhos marejados que não pôde sonhar. “Pobre não sonha, minha filha. A vida me fez motorista de ônibus”.

(Escrita em abril de 2010 e dedicada ao Seu Hélio e a Severino Francisco, eterno
mestre do jornalismo e da vida)

Esperar é viver

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Postado dia 07 de agosto de 2013 em Eu na história

A vida é uma longa espera, não se sabe bem pelo quê. Na verdade, a gente até que espera muita coisa, mas nada é definitivo. Com o tempo, as coisas ao nosso redor mudam. O que há dentro de nós muda. Também muda o que se espera da vida.

Outro dia, saí do trabalho e fui esperar meu ônibus na parada. Nela eu me sinto um noivo num altar de igreja. Na parada de ônibus, me sinto na longa espera da vida. Depois de 15, 20, 30 minutos, nada. Andar de ônibus é para os fortes ou para quem sabe esperar, mesmo que tenha aprendido na marra. Viver também é esperar para que um monte de coisas aconteçam – pode ser comprar uma casa na praia, ter reconhecimento profissional, ser popular. Acontece que espera-se sempre por algo maior, subjetivo e atraente, que não se conquista ao final de um dia. Viver é uma espera sem fim.

Não custa nada tentar viver enquanto se espera. Eu estava ali na parada esperando meu ônibus. Olhei para o relógio e fiquei aflita por deduzir que não chegaria a tempo na minha aula de dança. Me senti sozinha. Mandei torpedos para alguns amigos. Fiquei ansiosa pelo dia seguinte. Separei minhas prioridades. Fiz, mentalmente, a lista de convidados para o meu casamento. Imaginei nomes para os meus filhos. Lembrei de momentos na faculdade que estava ali perto. Senti cheiro de churrasquinho feito na hora e visualizei as comemorações da minha família. Pensei o que deveriam estar fazendo naquele momento as pessoas com as quais deixei de falar, por desentendimento ou cansaço. Imaginei como seria falar com elas novamente. Programei na cabeça exageradamente como seria meu próximo réveillon. Sonhei como num trailer de filmes meus sonhos antigos. Separei o que eu mais quero realizar em breve. Lamentei, definitivamente, não poder ir à aula de zumba. Imaginei a professora dançando. Planejei outras coisas para a noite. Pensei em coisas do trabalho. Liguei o rádio para relaxar. Protagonizei um clipe musical do meu jeito. Contei os ônibus que passavam. Pensei em comprar um carro. Respirei a noite. Pensei em um post para o blog.

Depois de uma hora e meia esperando o ônibus, ele chegou. Subi, e não havia lugar. Fui em pé mesmo. O celular vibrou e era uma mensagem da minha irmã dizendo que a professora de dança havia faltado. Não adianta se lamentar tanto pelas coisas. Vida é movimento.

Não custa nada tentar viver enquanto se espera. Aliás, não dá para viver esperando. Em noventa minutos, esperei, mas vivi. Não importa o que você espera, a vida continua com urgência em ser vivida. Afinal, hoje pode ser o dia mais feliz ou mais triste das nossas vidas. Esperar vivendo pode ser muito melhor.